Cresce a insatisfação com saúde mental no trabalho

Cresce a insatisfação com saúde mental no trabalho

Publicado em 8 de dezembro de 2025

Parcela de insatisfeitos com o trabalho por problemas de saúde mental atingiu, em setembro, a maior fatia em quatro meses (26,3%), segundo a Sondagem do Mercado de Trabalho da Fundação Getulio Vargas.

A parcela de insatisfeitos com o trabalho por problemas de saúde mental atingiu, em setembro, a maior fatia em quatro meses (26,3%), segundo um recorte da Sondagem do Mercado de Trabalho da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgado ao Valor.

O levantamento abrange 6 mil respondentes no trimestre encerrado em setembro em todo o país. O dado é mais um sinal de alerta sobre a piora na qualidade de saúde mental no trabalho, entre outros veiculados sobre o tema.

Um desses estudos, elaborado em outubro pela VR, ecossistema de soluções para trabalhadores e empregadores, mostrou aumento de 136% na média mensal de afastamentos por problemas de saúde mental entre janeiro e agosto de 2025, em comparação com igual período de 2024. Foram registrados 5.355 afastamentos no período, o que representa média de 669 por mês ante 283 mensais no ano anterior. O levantamento englobou 1,2 milhão de trabalhadores de 30 mil empresas do Brasil. “É possível que se termine 2025 ainda com essa média mensal com alta acima de 100%”, diz Cassio Carvalho, diretor executivo de negócios da VR. “O aumento dos afastamentos reflete tendência que atinge a população em geral, revelando um adoecimento coletivo que vai além do ambiente de trabalho”. E completou: “É importante mencionar que o indicador [em alta] pode estar associado a maior conscientização sobre o tema.”

Também em outubro a pesquisa “Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026”, feita pela plataforma de bem-estar corporativo Wellhub, apurou que mais de oito em cada dez brasileiros (86%) entrevistados relataram ter experimentado sintomas de burnout no último ano. O estudo ouviu mais 5 mil trabalhadores em período integral em 10 países. Foram coletadas entre 500 e 505 respostas por país.

O cenário apresentado pelas pesquisas ocorre a menos de um ano da entrada em vigor da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), emitida pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A partir de maio de 2026, empresas precisarão identificar riscos, como sobrecarga de trabalho e assédio moral; implementar medidas de prevenção; e criar programas de apoio psicológico para funcionários. Aspectos psicossociais, que afetam a saúde mental do trabalhador, devem ser incluídos em Programas de Gerenciamento de Riscos das empresas.

Para Rodolpho Tobler, economista da FGV responsável pela sondagem e autor do recorte especial da pesquisa, a frequência maior de menções ao tema também tem a ver com o pós-pandemia. A crise sanitária, que levou à necessidade de isolamento social, abalou a saúde mental de muitos, lembra. Após a pandemia, mais pessoas começaram a se preocupar com a influência, do ambiente de trabalho, em piorar ou melhorar a condição de saúde mental, nota. “Sabemos que o burnout [esgotamento no trabalho] já é muito expressivo no Brasil, sempre considerado como um dos piores países ou o segundo pior país [em casos de burnout]”, acrescenta Paul Ferreira, professor de estratégia e liderança e diretor do mestrado profissional em administração na FGV Eaesp. O dado citado por ele se refere à pesquisa de 2017 sobre o tema, da International Stress Management Association.

Ferreira comenta que, no pós-pandemia, o Brasil contou com uma população retornando ao trabalho com quadro de saúde mental mais fragilizado. “Temos esse lado, de volume de pessoas afetadas muito maior e a questão, depois, é tentar saber como é que isso se reflete, por exemplo, em custo”, diz.

Em junho de 2022, relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) citou projeções do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos, anualmente no mundo, devido à depressão e à ansiedade. Isso na prática tem custo de quase US$ 1 trilhão para a economia global, de acordo com as organizações. Essa estimativa foi reiterada em abril deste ano, em relatório das Nações Unidas sobre saúde mental em ambiente de trabalho do Brasil.

Jornadas longas, em comparação com outros países, de 44 horas semanais, são um dos problemas do ambiente de trabalho brasileiro, que afeta a saúde mental, cita o especialista da FGV Eaesp. Essa jornada é combinada com escalas de trabalho extensas, como seis dias por um de descanso, continua. No entendimento dele, produtividade sem “ritmo humano” adequado, tem todo potencial para prejudicar a saúde mental.

Para Ferreira, a vigência da NR-1 pode ser oportunidade para as empresas mapearem, avaliarem e controlarem aspectos como sobrecarga, pressão, assédio e violência organizacional. “O que não é medido não pode ser gerenciado”, diz.

Um aspecto notado por Ricardo Guerra, líder da Wellhub, é o fato de que criar bom ambiente de trabalho se torna, cada vez mais, condição para ajudar na retenção de profissionais. Na pesquisa da Wellhub, 86% dos funcionários consideram o bem-estar tão importante quanto o salário – o maior índice, para essa resposta, registrado na pesquisa, hoje na quarta edição. Entre as recomendações citadas por Guerra estão ações das companhias em prover pausas no trabalho e fornecer instrumentos e recursos para que funcionários façam exercícios e tenham alimentação saudável e sono adequado.

Fonte: Valor Econômico
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