14 mar 90 anos depois, o Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias e Região inspira-se no passado para apontar o futuro
90 anos depois, o Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias e Região inspira-se no passado para apontar o futuro
Rever a história da entidade é uma forma de refletir sobre as transformações sociais, políticas e econômicas pelas quais o país tem enfrentado.
A celebração dos 90 anos do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Caxias do Sul e Região, fundado em 6 de março de 1933, é também um marco histórico. Primeiro, para o movimento dos trabalhadores, cuja primeira greve dos metalúrgicos ocorreu ainda em 1920, cerca de 13 anos antes do surgimento do sindicato. E segundo, para a história da região, marcada por sucessíveis ciclos de crescimento econômico em diferentes contextos políticos.
Voltar a 1933 é, antes de mais nada, revisitar um período conturbado, seja no campo econômico ou político, pois ainda dava sinais das inquietações decorrentes da Primeira Guerra Mundial, em um cenário propício a novos conflitos futuros. Por exemplo, já em janeiro de 1933, Adolf Hitler foi nomeado chanceler pelo então presidente alemão, Paul von Hindenburg. Nos bastidores, e se aproveitando das instabilidades ainda provocadas pela Quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, Hitler e outros líderes nazistas criaram o cenário ideal para estabelecer uma ditadura.
Do outro lado do Oceano Atlântico, o Brasil vivenciava, no início da década de 1930, uma revolta liderada por Getúlio Vargas. Ele ficou incumbido da organização do novo governo, que teria caráter provisório, cujo objetivo maior era desintegrar a estrutura política oligárquica.
No dia 5 de março de 1933, o presidente Franklin Roosevelt declara feriado bancário nos Estados Unidos, dando início à implementação do New Deal, um programa de recuperação da economia após a quebra da bolsa. E, em Caxias do Sul, no dia seguinte, em 6 de março, dentro desse turbulento cenário, os trabalhadores caxienses se organizavam e fundavam o Sindicato dos Operários Metalúrgicos e Classes Anexas de Caxias do Sul.
Entre o primeiro presidente do sindicato caxiense, Adelino Lucatelli, operário da Metalúrgica Abramo Eberle, em 1933, passaram-se 90 anos, tendo agora, em 2023, Assis Melo como o mais longevo líder à frente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Caxias do Sul e Região. O que os une? A mesma luta em um novo cenário, ainda mais desafiador.
“Se tem alguém ainda brigando é porque tem energia”
Vania Herédia é pós-doutora em História Econômica pela Universidade de Padova, na Itália , e também em Antropologia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autora de livros como O Processo de Industrialização da Zona Colonial Italiana, Imigração e Sociedade: Fontes e Acervos da Imigração Italiana no Brasil, a professora e pesquisadora avalia a criação do Sindicato dos Metalúrgicos, nos mais diversos contextos sociais, políticos e econômicos dos séculos 20 e 21.
— O cenário inicial do sindicalismo no Brasil começa forte com o Getúlio Vargas (entre 1930-1945), mas tem a ver também com o cenário do capitalismo. E o que tem nesse meio tempo, pra Caxias? Tem duas coisas muito importantes. Primeiro, em 1943, tem a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Começam então as regras do mundo do trabalho e, nesse momento, o sindicato está nas mãos do Estado. E como o sindicato está na mão do Estado é forte porque interessa ao Estado recolher as contribuições dos operários — explica Vania Herédia.
É dentro desse contexto, avalia a pesquisadora, que os operários caxienses encontram uma oportunidade para não apenas conquistar vagas no mercado de trabalho, sobretudo na indústria, um setor sempre crescente no município. E mais ainda, reforça a pesquisadora, é dentro dessa perspectiva que o município também se beneficia economicamente.
— A classe trabalhadora se beneficia porque as condições são propícias a ela. E o caso de Caxias, eu diria, tem duas coisas que são importantes. Ela já ter uma capacidade industrial instalada, antes da fase do Vargas, que começa com a Primeira Guerra Mundial, com várias industrias que vão crescer fazendo armas. E o outro, é que as indústrias metalúrgicas de Caxias vão virar de interesse nacional no período da Segunda Guerra.
Nessa linha do tempo, atravessando contextos históricos, econômicos e sociais distintos, há ciclos que favorecem o fortalecimento da luta sindical, porém, em outros, são impulsionadas crises para enfraquecer o movimento. Vania entende que uma das complexidades, além da não obrigatoriedade da contribuição sindical, firmada pela Lei da Reforma Trabalhista, no governo de Michel Temer (MDB), é que o conjunto dos trabalhadores atendidos pelo sindicato é bastante heterogêneo atualmente. A respeito do futuro do Sindicato dos Metalúrgicos, diz:
— Na minha opinião, o papel do sindicato não é defender só os metalúrgicos. Hoje, entendo, é importante voltar a origem, às raízes de quando o sindicato nasceu, como Sociedade Operária. Pode ser que não consiga, porque na nossa região os mecanismos são muito fortes. Mas penso que vai ter de agregar, porque só com os metalúrgicos perde força.
E, acrescenta:
— Muitos entendem que o sindicato perdeu a característica da proteção, porque está enfraquecido. Mas não perdeu. Vejo assim, quando tem um dissídio ou acordo, se tem alguém brigando é porque ainda tem energia. Pior é quando não tem mais ninguém lutando, porque em alguns segmentos ninguém mais briga, ou seja, acabou.
Desafio é atender Os Jetsons e Os Flintstones
É consenso entre os historiadores e líderes políticos de que o movimento sindical, de uma forma geral, é um espaço fértil para o debate. Sempre centrado na consciência política e seus desdobramentos.
Pensam assim também, Paulo Roberto Wünsch, licenciado em Ciências Sociais e pós-doutor, e Saulo Rodrigo Bastos Velasco, com licenciatura plena em História. Eles são autores do livro 100 Anos de Lutas – A História dos Metalúrgicos de Caxias do Sul, em um recorte mais ampliado e que antecipa o cenário de criação do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Caxias e Região.
Um período, aliás, como pontua Velasco, que revela as lutas travadas pelos operários por melhores condições de trabalho, além, é claro, da valorização salarial.
— Temos de lembrar que era um tempo de jornada de trabalho mais longa, os ambientes eram completamente insalubres, não havia preocupação com a segurança e saúde do trabalhador, e era comum o trabalho infantil. Inclusive, temos imagens até do Eberle, dos adultos trabalhando e, em volta das máquinas, vemos os filhos dos trabalhadores. A função das crianças era recolher as sobras de peças e de material que caiam pra depois colocar em um cesto e aí voltar para a fundição. E esse trabalho infantil nem era remunerado, os pais levavam os filhos como uma extensão do seu serviço pra poderem produzir mais.
Atualmente, defende Velasco, a partir da tomada de consciência, há o entendimento de que as crianças devem estar em sala de aula e não mais trabalhando. Para Wünsch, esse avanço foi possível porque o movimento sindical, em sua essência, luta por melhores condições usando como estratégia a formação de seus integrantes, pregando a valorização dos trabalhadores a partir do despertar de uma conscientização sócio-política.
— Em realidade, há duas questões importante no sentido do avanço da consciência. De um lado, a realidade do fato e, de outro, a existência de lideranças que vão, digamos assim, demonstrar qual é o causador dessa realidade — explica Wünsch, destacando como uma das principais lideranças da história do Sindicato dos Metalúrgicos, Bruno Segalla, presidente entre os anos 1957 e 1964, operário da Eberle e escultor.
— O Bruno Segalla, enquanto agente político (foi vereador) e sindical ao mesmo tempo, foi um dos primeiros a fazer essa relação, trabalhando na conscientização dos trabalhadores através do sindicato — acrescenta Velasco.
Atravessar 90 anos mantendo-se não apenas fiel aos seus princípios, mas também permanecer importante para o futuro também é uma questão que preocupa Velasco e Wünsch. Em uma conversa com um trabalhador, Wünsch diz que ouviu uma metáfora que sintetiza o desafio contemporâneo do movimento sindical.
– O sindicato tem de, ao seu tempo, elaborar uma pauta de reinvindicação que leva em consideração essa nova realidade em que vivemos. Eu ouvi de um trabalhador o seguinte, que dentro da mesma empresa tem “Os Jetsons” e “Os Flintstones”. Você tem o cara que trabalha com alta tecnologia e o cara que ainda está no serviço rudimentar. Então, como é que o sindicato vai dar conta dessas pautas, nessas realidades heterogêneas? O que há de comum entre eles é que o Flintstone sonha ser Jetson para melhorar a sua situação. Mas, de outro lado, o Jetson acha que é pouco valorizado e super explorado – pontua Wünsch.
Na mesma linha, Velasco entende que, apesar do incerto cenário, mesmo a nível global, os sindicatos de um modo em geral podem contribuir para a compreensão de que a coletividade é um ambiente mais forte do que a individualidade.
– Nesse atual contexto em que prevalecem as ideias de um recorte neoliberal, que estimula o individualismo, as pessoas acham que a saída é individual. Mas não existe uma saída individual para um problema coletivo.
“Saímos de uma briga mais direta para um debate de conceito econômico”
Assis Melo, atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Caxias do Sul e Região, está há 19 anos à frente da entidade. Na linha histórica, Assis está há mais tempo atuando como presidente, apesar dos curtos períodos licenciado, como ocorreu no tempo em que foi vereador de Caxias ou deputado federal. Assumiu pela primeira vez em 2002 e saiu em 2017. Dois anos depois, em 2019, voltou a ser eleito presidente do sindicato.
Durante a entrevista concedida em sua sala, na sede do sindicato, no centro de Caxias do Sul, Assis reforçou que a luta sindical vai além da briga por melhores salários. Para ele, o sindicato precisa se comunicar bem com o trabalhadores, ouvir suas demandas, mas também precisa observar o cenário macroecômico para compreender o melhor momento para lutar.
— O sindicato precisa olhar o todo. E ao mesmo tempo, se comunicar e falar com a sociedade. O sindicato tem de olhar para as necessidades do trabalhador, do filho do trabalhador que precisa ir para a creche. Com ele faz depois que passa a idade de ir para a creche e tem de ir para a escola, que não é em turno integral? Porque as escolas são de um turno só, mas o trabalhador trabalha o dia inteiro. Como é que faz? — provoca Assis.
E acrescenta:
— Tudo isso é luta do sindicato. A gente está atento sobre isso, nos preocupamos ainda com a saúde e o lazer do trabalhador. Investir em lazer é investir na saúde do trabalhador, não só física, mas também a mental. Porque o trabalhador é muito exigido mentalmente também. Além disso, existe uma pressão por resultado e produtividade.
Entre as pautas recorrentes está o dissídio, que é o debate por melhores salários, que ocorre em diversos encontros entre o Sindicato dos Metalúrgicos e o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul e Região (Simecs). Assis entende que a relação entre as entidades amadureceu, mas compreende que cada uma tem sua visão de mundo e suas demandas em particular.
— Na verdade, tudo é uma evolução. Saímos de uma briga mais direta para um debate até mais ideológico ou de conceito econômico. Por isso, falo para a direção e procuro debater sobre a importância da formação sindical. Não basta reivindicar. Tu tem de explicar porque tu reivindica. E é preciso também colocar isso em um contexto econômico. Porque, tu pode até colocar uma reinvindicação, mas se não está dentro de um contexto econômico não vai avançar. Essa análise precisa estar ainda mais aguçada hoje, porque o trabalhador também recebe muitas informações e como é que o sindicato, nessa pluralidade de ideias, se coloca?
Quanto ao seu futuro dentro do sindicato, Assis despista, mas revela que tem pensado na transição. Reconhece seu papel e diz estar focado na formação de novas lideranças. Suscintamente, diz:
— É preciso consolidar esse processo de transição.
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