A incrível história do decreto que assustou corretores de imóveis e durou 24 horas

A incrível história do decreto que assustou corretores de imóveis e durou 24 horas

Publicado em 11 de agosto de 2022

Medida foi vista como “traição” por categoria que tinha encontro em Foz do Iguaçu para celebrar 60 anos da regulação da profissão.

A coluna contou brevemente o caso do decreto 11.165/2022 (clique aqui para ler o texto) mudava a regulamentação da profissão de corretor de imóveis, mas foi revogado 24 horas depois pelo presidente Jair Bolsonaro.

No relato do presidente do  Conselho Federal de Corretores de Imóveis (Cofeci-Creci), João Teodoro, o contexto é ainda mais surpreendente. Uma das primeiras palavras usadas por Teodoro para descrever o episódio foi “traição”. Mas no final da conversa disse que “enaltecia a  figura do presidente”:

 — Ele reconheceu o erro. Somos humanos, podemos errar. Importante é corrigir.

Para explicar a sensação de “traição”, Teodoro relatou que a entidade estava discutindo com o governo uma modernização da legislação, que é de 1978.

— O que estava em questão era uma modernização, em sintonia com o desenvolvimento tecnológico, porque a legislação tem 44 anos. O problema é que saiu um decreto que, de forma contundente, acaba com a regulação. Por isso percebemos como se fosse uma fosse traição — detalhou o presidente do conselho.

Mas entre a “modernização” e o efeito do decreto, afirma, surgiu um abismo. E isso tudo ocorreu na terça-feira (9) quando o Cofeci-Creci realizava, em Foz do Iguaçu (PR), congresso com participação de 1,6 mil corretores, para comemorar exatamente 60 anos da regulamentação da profissão.

 É uma categoria que mobiliza a cadeia produtiva da construção civil. E o decreto acabava com a segurança jurídica e com segurança financeira de muitas famílias, especialmente as de menor renda. Permitia a atuação de pessoas inabilitadas, sem mecanismos de punição ou prevenção a fraude. Seria um desastre para o mercado imobiliário — detalha o dirigente.

Com esse diagnóstico, todos os presidentes regionais e, claro, a direção nacional da categoria, acionaram dezenas de parlamentares.

— A deputada Carla Zambelli me ligou hoje pela manhã e disse ‘não precisa falar nada, vou colocar uma pessoa na linha’. Era o presidente, conversamos diretamente. Ele se desculpou, reconheceu o erro técnico da assessoria dele, que o induziu a erro. Prometeu que imediatamente faria a revogação do decreto e cumpriu a palavra, duas horas depois. O decreto durou menos de 24 horas, graças a Deus. Se não, abriria espaço para falcatruas pela internet, com ação de bandidos e de milícias que temos em várias áreas do Brasil — conta.

A coluna ponderou que o Ministério da Economia havia assegurado que somente “atividades relacionadas à intermediação imobiliária”, como publicidade ou marketing e serviços auxiliares como atendimento ao público em geral não seriam privativas da profissão de corretor. Teodoro sustenta que, da forma como estava redigido, o decreto era “flagrantemente inconstitucional”, inclusive:

— Se o presidente não tivesse revogado, conseguiríamos derrubar na Justiça. Mas uma ação política é mais contundente do que entrar na Justiça. Vieram com uma balela de que isso era importante para o Brasil entrar na OCDE, eu disse ao ministro Ciro Nogueira (da Casa Civil) que isso é uma inverdade. O país mais importante da OCDE, os Estados Unidos, tem grande rigor no exercício da profissão de corretor de imóveis.

Sobre a aplicação de tabela de preços, o presidente do conselho afirmou que já não está sendo aplicada, depois de um acordo da categoria com o Conselho Administrativo da Defesa da Concorrência (Cade).

Fonte: Gaúcha GZH
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