Ação civil tenta barrar contratações pela Boeing

Ação civil tenta barrar contratações pela Boeing

Publicado em 23 de novembro de 2022

O avanço da Boeing sobre engenheiros que formam a elite da indústria aeroespacial e de defesa brasileira foi parar na Justiça. Nesta terça-feira (22), duas entidades do setor deram início a uma ação civil pública para impedir que a fabricante de aviões americana siga recrutando “engenheiros altamente capacitados” que trabalham em empresas estratégicas da Base Industrial de Defesa (BID) do país.

Em um ano, as entidades estimam que a Boeing tenha levado mais de 200 engenheiros de outras empresas para seu centro, no mais “agudo movimento de evasão de conhecimento que essa indústria já vivenciou”, segundo representantes da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde) e a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (Aiab).

Na ação proposta na 3ª Vara Federal de São José dos Campos, as entidades alertam que a investida da companhia americana coloca em risco a sobrevivência de empresas do setor e ameaça a soberania nacional. O objetivo é interromper as “contratações sistemáticas que deixam um rastro de ações predatórias nas empresas da BID do país, até que sejam discutidas alternativas que possam garantir a preservação da soberania nacional”.

Com a iniciativa, a intenção é também trazer a companhia americana para o centro do debate, assim como Ministério da Defesa e Advocacia-Geral da União (AGU). “São centenas de engenheiros, mas o centro da questão não é quantitativo. É qualitativo. Essa é a diferença em relação a outros processos de evasão”, diz o presidente da Aiab, Julio Shidara.

“A Aiab defende a livre concorrência e o livre mercado. Mas tais princípios não são absolutos. Devem se sujeitar a imperativos constitucionais como a soberania nacional”, acrescenta.

Até agora, dez das mais importantes empresas do setor de defesa tiveram engenheiros contratados pela Boeing e algumas perderam cerca de 70% da equipe de áreas específicas e essenciais para o negócio, conforme as entidades.

No caso da Embraer, a situação seria mais preocupante dado o acesso que a Boeing teve a “informações proprietárias” no período de negociação para compra da aviação comercial da brasileira, que não prosperou. Embraer e Boeing levaram o conflito à arbitragem e ainda não há desfecho.

“As pessoas podem decidir para onde ir, mas a ordem econômica é gerida também por soberania. Como a gente trata nesse caso? A gente pede que o Judiciário equilibre a balança entre soberania e liberdade de iniciativa”, afirma o presidente da Abimde, Roberto Gallo.

Na avaliação das entidades, o movimento da Boeing traz desequilíbrio ao mercado e representa ameaça porque as empresas que compõem a BID “têm como objetivo a constante atualização das tecnologias da Marinha, da Força Aérea e do Exército”. “As empresas que estão sendo assediadas são as que proveem tecnologia que mantém a capacidade de defesa das Forças Armadas”, ressalta.

Procurada, a Boeing não comentou o assunto.

Fonte: Valor Econômico
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