Agro e setores com perdas na pandemia lideram contratação

Agro e setores com perdas na pandemia lideram contratação

Publicado em 21 de junho de 2023

Após quadrimestre bom, economistas projetam redução de ritmo de criação de vaga com carteira assinada para os próximos meses.

A criação forte de emprego com carteira assinada nos primeiros meses deste ano é explicada pela recomposição de quadros por setores da economia que perderam postos de trabalho em meio à pandemia de covid-19. É o que indica um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) elaborado para o Valor a partir do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência.

Entre janeiro e abril foram criadas pouco mais de 705 mil vagas, com destaque para construção, indústria de alimentos, serviços de transporte e administrativos, além de educação e saúde Houve um avanço de 1,66% desde dezembro passado.

As surpresas positivas dos primeiros meses do ano também tiveram influência do dinamismo do agronegócio no primeiro trimestre. Após a geração forte de empregos com carteira no quadrimestre, contudo, economistas projetam redução de ritmo para os meses que seguem.

“Com a pandemia cada vez mais fora do radar, a economia dita o ritmo do mercado de trabalho”, resume Rodolpho Tobler, pesquisador do FGV Ibre.

Para este ano não é esperado um recuo na ocupação em comparação ao ano passado, porém tampouco o mesmo avanço visto em 2022. “O cenário de 2023 ainda é mais de recomposição orgânica, de reajuste das áreas mais afetadas pela crise sanitária”, disse Tobler. O país poderá gerar pouco mais de 1 milhão de postos formais neste ano, indicam estimativas feitas por economistas.

Depois de serviços, com criação de cerca de 435 mil vagas no quadrimestre, o setor de construção se destacou ao gerar pouco mais de 120 mil postos de trabalho. As contratações foram puxadas por obras públicas, em meio à consolidação de investimentos em infraestrutura.

“O cenário de 2023 ainda é mais de recomposição orgânica”

Outro destaque é a indústria de transformação, com a abertura de pouco mais de 103 mil vagas formais. Neste caso, o maior volume está em alimentos e bebidas, na esteira do crescimento do agronegócio. O agro puxou a alta do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre ao crescer 21,6% em relação aos últimos três meses de 2022.

“Creditamos isso [desempenho de empregos na indústria alimentícia] também ao aumento da disponibilidade de renda das famílias, o que acaba impulsionando o consumo de bens sensíveis à renda e que têm essencialidade maior”, disse Rodolfo Margato, economista da XP.

O agro também influenciou os transportes e serviços de armazenagem, outro destaque deste ano. O agronegócio não está entre os segmentos que geraram maiores números absolutos de vagas, mas apresentou uma das maiores altas de dezembro a abril. As 41 mil vagas geradas no período representaram variação positiva de 2,5% desde dezembro passado.

As maiores variações do período, entretanto, ocorreram em construção e setores da administração pública, defesa e seguridade social, além de educação, com altas próximas a 5% (ver quadro acima).

Em número de postos formais gerados entre os serviços, destacou-se educação (102 mil) seguida de atividades administrativas, transportes e saúde. Em educação, 2023 é o primeiro ano letivo “100% normalizado”, o que explica o “mini boom”, afirma o pesquisador do Ibre-FGV.

O crescimento do mercado de trabalho a partir de agora – não apenas sua recomposição – dependerá de um cenário melhor do que o que se apresenta, avaliam os economistas. Mas o resultado do PIB, a desaceleração da inflação e o projeto do arcabouço fiscal encaminhado são fatores que trazem “clareza” para o horizonte, reforçando expectativas para a baixa dos juros básicos pelo Banco Central.

“São sinalizações positivas que podem contribuir para a decisão de contratar. Mas é efeito que deve ocorrer mais para o fim deste ano”, diz Tobler. “Ano que vem observaremos melhora mais forte.”

Lucas Assis, analista da Tendências Consultoria, reitera que a política monetária “contracionista” deverá manter a produção industrial estável nos próximos meses e, portanto, limitar contratações no período. Indústria e setores de serviços, como os de informação e comunicação, sensíveis à piora das condições financeiras, diz, também devem perder dinamismo até os últimos meses de 2023.

O comércio, ademais, deve continuar vivendo cenário desafiador especialmente no segmento de bens duráveis devido às condições desfavoráveis do mercado de crédito. Juros altos e inadimplência elevados esfriam o dinamismo do segmento afetando trabalhadores que inclusive estão fora do universo formal.

À medida que a economia volte a impactar com mais força o mercado de trabalho, o que se espera para 2024, velhos problemas relacionados à empregabilidade voltam a se intensificar. Um deles é a falta de mão de obra qualificada – que traz adicional de R$ 160 bilhões ao custo Brasil, segundo cálculo do setor produtivo. Soma-se ao quadro o desafio crescente que o avanço de tecnologias traz em diferentes segmentos econômicos, já que altera as necessidades de quem contrata.

Rogério Caiuby, conselheiro executivo do Movimento Brasil Competitivo (MBC), iniciativa do setor produtivo que calcula o custo Brasil, vê necessidade urgente de formulação de políticas públicas e mobilização de setores produtivos e de áreas da educação para evitar um “apagão” de mão de obra no Brasil em poucos anos – sobretudo se aprovada a reforma tributária, que poderá dar impulso à economia, lembra.

“Temos um problema demográfico: não somos mais um país que está crescendo em quantidade de pessoas ao longo do tempo. A quantidade de gente que sai do mercado de trabalho é igual à que entra”, diz. “É quase como um limitador de crescimento.”

Ele defende a disseminação de ensino técnico profissionalizante, e as iniciativas deveriam focar três públicos-alvo: informais, jovens do ensino médio e profissionais que precisam de requalificação nas carreiras mais afetadas pela transformação digital.

Só a informalidade, lembra, reúne 40% da força de trabalho. Na avaliação do MBC, aí reside uma oportunidade, que é atrair esse grupo de profissionais para cargos formais, em que a remuneração costuma ser melhor, em áreas que o setor produtivo deverá investir nos próximos anos.

Fonte: Valor Econômico
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