Alta da renda em 2022 não compensa perdas deste ano, projeta Santander

Alta da renda em 2022 não compensa perdas deste ano, projeta Santander

Publicado em 18 de outubro de 2021

Massa salarial deve crescer 3,4% em 2022, após cair 5,7% neste ano, mas cenário é cercado de incertezas, diz banco.

A massa salarial brasileira ampliada – que inclui salários, benefícios previdenciários e transferências regulares, como o Bolsa Família, e emergenciais, a exemplo do auxílio na pandemia – deve crescer 3,4% em 2022, após cair 5,7% neste ano, contribuindo para uma expansão de 1,1% no consumo das famílias e ajudando o PIB do país a ficar em torno de 1,5% no ano que vem. Esse é o cenário-base do Santander, mas o banco reconhece que o horizonte é cercado de incertezas e, dependendo de até onde forem a inflação e os juros em 2022, essa massa de renda pode crescer mais ou menos.

Diversos cenários foram traçados por Gabriel Couto e Ítalo Franca em relatório do Santander. A escalada da inflação levou os economistas a revisar o crescimento da massa real em 2020 de 2,2%, ante 2019, em relatório de abril para 3,7% agora. O impulso vem dos R$ 293 bilhões (mais de 8% do PIB) do auxílio emergencial – sem isso, haveria queda de 7,9% na massa ampliada, calculam.

Em 2021, mesmo considerando transferências de renda de R$ 90 bilhões (1% do PIB), é esperada queda de 5,7% nos rendimentos totais. A situação é a inversa de 2020: sem considerar as transferências, poderia haver avanço de 3,3%, devido à melhora gradual e relativa no mercado de trabalho, mas, com estímulo fiscal menor, o resultado final fica negativo.

Conforme a inflação acelera, os impactos do auxílio emergencial, que termina de ser pago neste mês, também perdem força, o que pode gerar pressões por mais gastos. O Santander estima que os R$ 300 que começaram a ser pagos em setembro do ano passado devem valer R$ 268 em dezembro deste ano, 10,6% menos. “A inflação acabou corroendo esse poder de compra, o que amplia essas questões de demanda por auxílio”, diz Franca.

Saber os rumos dos programas de transferência é importante, observam os economistas, porque para cada R$ 10 bilhões pagos, a massa salarial real cresce 0,2% no ano. Para 2022, eles trabalham com uma perspectiva de R$ 61 bilhões via Auxílio Brasil, programa que deve substituir o Bolsa Família, ampliando o número de beneficiários para algo como 17 milhões de famílias.

É nesse contexto, com uma inflação de 4,7% e uma Selic chegando a 8,5% ou 9% no fim do ciclo de aperto, que a massa salarial ampliada do Brasil poderia crescer 3,4% em 2022.

A inflação, porém, tem impacto direto nessa previsão, porque pode reduzir o crescimento real da renda média. No cenário-base do Santander, os salários avançariam 0,5%. Empurrando a projeção de IPCA no ano que vem para 5,5%, esse crescimento cai para 0,3%, e a evolução da massa ampliada não passaria de 2,9%. Para cada 1 ponto percentual a mais no IPCA, a massa salarial ampliada é reduzida em 0,6 p.p., estimam Couto e Franca. Por outro lado, se o comportamento da inflação for mais benigno, de 3,5%, por exemplo, os salários cresceriam 0,9%, e a massa total, 4,1%.

Embora os impactos da inflação sejam mais amplos e diretos, o comportamento da taxa básica de juros também influencia. No caso da Selic, o efeito sobre a massa salarial ocorre via PIB e população ocupada: cada variação de 1 p.p. nos juros retira 0,4 p.p. do crescimento do PIB, reduz a população ocupada em magnitude similar e tira cerca de 0,3 p.p. da massa salarial real, explicam Couto e Franca.

Mantendo as premissas básicas de R$ 61 bilhões de Auxílio Brasil e IPCA de 4,7%, mas alongando o fim do ciclo de alta da Selic em 2022 de 8,5%-9% para 10%, o crescimento da massa salarial ampliada não seria mais de 3,4%, mas de 3,1%. Já com uma Selic terminal de 7%, os rendimentos totais poderiam avançar 3,8%.

Embora não seja o único fator relevante, a massa salarial ampliada é fundamental para compor o quadro de consumo no Brasil no ano que vem.

“O que vimos é que, mesmo nos cenários mais alternativos, não foge muito de um crescimento considerável da massa salarial para 2022”, avalia Couto. “Isso acaba servindo de sustentação para o nosso cenário de PIB no ano que vem, que não é excelente, está na casa de 1,5%, mas é um quadro em que esse consumo das famílias ajuda a taxa de crescimento, em conjunto com os processos de abertura da economia, que ainda devem ter efeitos defasados até o início do ano que vem”, afirma ele.

Franca observa que é esperada uma mudança na demanda de bens por serviços, o que poderia mexer um pouco na forma da retomada, mas, na visão dos economistas do Santander, a recuperação do consumo de serviços deve superar esses efeitos negativos.

Para o Santander, o comportamento do mercado de trabalho é chave na avaliação da recuperação da atividade econômica. Com a pandemia refluindo, os números devem ser mais altos tanto para a população ocupada quanto para a força de trabalho, que inclui as pessoas em busca de emprego.

O banco estima que a força de trabalho possa voltar aos níveis pré-pandêmicos entre o terceiro e o quarto trimestre deste ano – o número de julho já ficou menos de 1 milhão de pessoas abaixo disso, em termos dessazonalizados, observam os economistas. Já a população ocupada deve retornar ao patamar de fevereiro de 2020 apenas em meados do ano que vem.

Para os próximos meses, Couto e Franca dizem esperar uma moderação nos números do emprego formal, que já mostrou recuperação considerável desde o início do ano. “Em algum momento, esse ímpeto tende a se esvaziar um pouco e o informal fica mais sob os holofotes, com a volta de setores mais dependentes de interação social”, diz Couto.

Além disso, acrescenta o economista, o BEm, programa do governo para manutenção do emprego formal e da renda, terminou em agosto e, embora seus reflexos ainda devam perdurar até o início do próximo ano, alguma elevação no número de demissões pode ocorrer.

O Santander estima uma taxa média de desemprego de 14,1% em 2021 e de 13,5% em 2022.

Fonte: Valor Econômico
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