Alta do PIB dobra em 2020, mas emprego reage devagar, diz Ibre

Alta do PIB dobra em 2020, mas emprego reage devagar, diz Ibre

Publicado em 26 de novembro de 2019

Boletim Macro aponta crescimento de 2% no próximo ano.

O crescimento econômico deve praticamente dobrar entre 2019 e 2020, mas o desemprego terá uma queda muito lenta e permanecerá em dois dígitos no próximo ano, avalia o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Com o mercado de trabalho ainda fraco e inflação de alimentos mais pressionada, o consumo das famílias terá dois entraves a uma expansão mais robusta no próximo ano.

Na edição de novembro do Boletim Macro, divulgada com exclusividade ao Valor, o Ibre elevou a estimativa de alta do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, de 1,8% para 2%. A projeção para 2019 foi mantida em 1,1%. Segundo a entidade, os dados de atividade divulgados para o terceiro trimestre confirmam a visão de que está em curso uma recuperação gradual da economia.

“Sem dúvida, os principais fatores por trás da aceleração da atividade econômica são a queda da taxa de juros e a retomada do crédito privado”, afirmam os economistas Armando Castelar Pinheiro e Silvia Matos na abertura do boletim. Há, ainda, o impulso dos saques das contas do FGTS, efeito temporário que deve ajudar o PIB a crescer 0,9% no último trimestre de 2019, após alta de 0,4% nos três meses anteriores.

Pinheiro e Silvia ponderam, no entanto, que o instituto não espera reação mais forte do crescimento no ano que vem. Um dos motivos para isso é o cenário externo mais adverso, com mais um ano de recessão na Argentina, quadro que dificulta recuperação mais expressiva da indústria. Mesmo o consumo das famílias, que deve aumentar 2,6% em 2020, não terá desempenho tão exuberante, destacam eles.

Metade da expansão prevista para a demanda das famílias será resultado da herança estatística deixada por 2019, observam os economistas. “Isso reflete o fato de que, mesmo com a recuperação econômica, a taxa de desemprego continuará elevada.” Nos cálculos do Ibre, a fatia de desempregados em relação à força de trabalho vai cair somente 0,2 ponto percentual entre 2019 e 2020, para 11,8%.

Já a massa salarial real – que combina o crescimento da população ocupada com a variação da renda real dos trabalhadores – deve ter alguma acomodação na passagem anual, ao crescer 2% no próximo ano, ante alta de 2,3% este ano, estima a entidade.

Com a recuperação da atividade, mais pessoas devem voltar a buscar uma ocupação no próximo ano, o que torna a queda do desemprego mais lenta, diz Silvia, que é coordenadora técnica do boletim. Com oferta ainda elevada de pessoas ocupadas, o poder de barganha do trabalhador fica reduzido e, por isso, os aumentos salariais serão fracos, acrescentou.

Do lado da inflação, o choque de alimentos é outro fator que deve moderar os ganhos de renda no próximo ano e, consequentemente, tornar a expansão do consumo um pouco mais modesta, observa a economista. Devido ao impacto da peste suína na China sobre a oferta doméstica de proteínas, o Ibre já trabalha com alta de  3,8% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2020, taxa parecida com a previsão para 2019 (3,7%).

Na seção sobre inflação do boletim, André Braz, especialista no tema do Ibre, aponta que a alta dos preços não chamou atenção por cinco meses, mas deve “despertar” no último bimestre de 2019. Nos índices do atacado, afirma Braz, a perda de fôlego da deflação de alimentos in natura e o aumento mais forte de alimentos processados vão pressionar o IPC nos próximos meses.

O pesquisador menciona, ainda, que a inflação ao consumidor também ficará mais pressionada devido aos preços administrados. Juntos, a vigência da bandeira tarifária vermelha nas contas de luz e o reajuste de loterias devem responder por mais de 0,3 ponto do IPCA de novembro, calcula Braz.

Mesmo com a inflação mais elevada, o cenário para a Selic foi mantido, afirma o economista. O Ibre espera mais um corte de 0,5 ponto na taxa básica de juros, que deve encerrar 2019 em 4,5% ao ano. “Temos dúvida em relação ao ano que vem, mas, dada essa aceleração da inflação, tendemos a ser conservadores e projetar manutenção da Selic em 2020”, disse Silvia.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.