Aplicação da reforma trabalhista é caso a caso, dizem especialistas

Aplicação da reforma trabalhista é caso a caso, dizem especialistas

Publicado em 14 de setembro de 2026

Impactos das mudanças na CLT foram discutidos esta semana na FGV.

Quase dez anos depois da entrada em vigor da reforma trabalhista, em 2017, pontos positivos e negativos aparecem nos resultados da legislação, apontaram especialistas em debate realizado esta semana na Fundação Getulio Vargas (FGV), organizado pelo Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) e pela Escola de Direito do Rio de Janeiro (FGV Direito Rio).

A avaliação de que houve um debate apressado da proposta na época foi quase unânime entre os participantes do I Seminário sobre Mercado de Trabalho: Reformas, Relações Trabalhistas e Perspectivas Futuras, mas outros aspectos dividiram opiniões.

Houve críticas ao chamado ativismo judicial e à divergência de decisões entre magistrados, que colocam em risco inclusive a prevalência do negociado sobre o legislado, mas também avaliação de que diferenças são parte do direito.

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Com as quedas no número de ações trabalhistas, os critérios para a concessão do benefício da justiça gratuita ficaram na berlinda, seja por avaliação de excesso de rigidez ou facilidade pela declaração de incapacidade financeira. Na primeira visão, a reforma deixou trabalhadores receosos de terem que arcar com custos de processo judicial, enquanto advogados argumentam que ainda há casos de quem se aproveita da gratuidade mesmo sem ter direito.

A redução da informalidade prometida como parte da reforma também foi ponto de discordância entre os participantes.

O professor da FGV Direito Rio e sócio sênior da área de contencioso do Veirano Advogados Luiz Migliora defendeu que a prevalência do negociado sobre o legislado é uma das grandes conquistas da reforma, mas admitiu que o processo foi “açodado”, o que abriu espaço para críticos e criou resistência em parte dos juízes trabalhistas.

Hoje, segundo ele, há uma aplicação da reforma trabalhista que depende caso a caso, de acordo com o juiz responsável pelo processo, o que traz insegurança jurídica. “Toda filosofia da Justiça do Trabalho parte do pressuposto de que as leis trabalhistas foram feitas pelos patrões para os patrões, então cabe à Justiça do Trabalho equalizar. Só que aí tem quem perca a mão. […] Cada juiz tem uma cabeça diferente. É preciso ter consistência nos tribunais trabalhistas”, disse.

Nesse contexto, avaliou que o Tribunal Superior do Trabalho (TST) se enquadra hoje nessa situação – com decisões “diametralmente opostas” em algumas turmas – e condenou o fato de que o Supremo Tribunal Federal (STF) virou “quase um tribunal trabalhista”, com excesso de reclamações constitucionais. Essas ações subiram de quatro mil em 2024 para 14 mil em 2025, segundo ele.

Para o professor da Universidade de São Paulo (USP) José Pastore, que também preside o Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), há tentativa de desmontar a reforma. “Não é a primeira vez que o Poder Judiciário procura esterilizar uma lei. […] Não são todos os juízes, claro. Mas uma parte significativa não gosta da reforma trabalhista e procura desmontá-la.”

Dois juízes do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) do Rio de Janeiro presentes no debate apresentaram visões distintas. Otávio Calvet condena o ativismo judicial: “Vemos problemas, reconhecemos que está ocorrendo e sabemos que é preciso mudar. […] Isso não é um sistema de direito que possa se sustentar como sociedade”.

Por outro lado, Fábio Correia discordou da leitura e afirmou que as diferenças são inerentes ao direito e ocorrem em diferentes áreas, como penal, civil e tributário, mas geram mais críticas no direito trabalhista, pelas reações políticas: “No trabalhista, tudo vira ideológico. Vira trabalhador e partido de esquerda de um lado e empresário e partido de direita outro. Mas divergência ocorre o tempo todo”.

A melhora da dinâmica do emprego, segundo o pesquisador do FGV Ibre Fernando Holanda Barbosa Filho, foi um dos ganhos da reforma trabalhista. Ele citou aumento do setor formal e redução da taxa de desemprego neutra da faixa de 11% para 7%. “Parte da dinâmica positiva dos últimos anos veio decorrente da reforma”, disse.

A avaliação, no entanto, não é compartilhada pela diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Adriana Marcolino: “A informalidade cedeu pouco e mais pelo ciclo econômico. Ainda temos um a cada três trabalhadores do setor privado sem carteira”.

Fonte: Valor Econômico
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