25 maio Após resgate de 16 homens em condições análogas à escravidão, empreiteira adia reunião com Ministério Público do Trabalho
Após resgate de 16 homens em condições análogas à escravidão, empreiteira adia reunião com Ministério Público do Trabalho
Trabalhadores são do Maranhão e foram aliciados a vir para o RS para trabalhar em construções, afirma MPT-RS.
Após a operação que resgatou 16 trabalhadores que atuavam na MRV Engenharia, a empresa remarcou a reunião prevista para esta segunda-feira (24) com o Ministério Público do Trabalho (MPT-RS), que trataria da negociação de um Termo de Ajuste de Conduta. Uma nova data deve ser definida nos próximos dias.
O encontro tinha como objetivo definir obrigações que a empresa deve assumir após a operação realizada na última semana que resgatou os 16 trabalhadores, que chegaram ao RS em março vindos do Maranhão — 10 deles atuavam em um empreendimento da empresa em Porto Alegre e seis em outra obra, em São Leopoldo.
A investigação começou após uma denúncia anônima feita à Polícia Federal. A ação de resgate ocorreu de forma conjunta, e contou com equipes da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério da Economia (SIT), Polícia Federal (PF) e Defensoria Pública da União, além do MPT-RS.
De acordo com a procuradora de Novo Hamburgo, Mônica Fenalti Delgado Pasetto, a frente do caso, o inquérito segue em andamento. As condições eram análogas à escravidão porque, apesar de o grupo ter acesso a alojamento, alimentação e demais necessidades básicas, a investigação aponta que eles foram aliciados para as vagas mediante fraude e falsa promessa.
Segundo a investigação, a empreiteira havia agenciado a contratação dos 16 homens por meio dos serviços de um agente, que teria aliciado os trabalhadores no Maranhão sob a promessa de ganhos de R$ 3 mil a R$ 4 mil. Esse valor, no entanto, estaria atrelado a uma meta de produtividade que não ficava clara, segundo os empregados. Na prática, o grupo recebia o piso salarial (cerca de R$ 1,5 mil). Além disso, segundo o MPT-RS, ainda precisavam pagar um valor para a recrutadora e vinham sofrendo descontos em cobrança por uma “cesta básica”, “o que diminuía ainda mais as chances de os trabalhadores conseguirem reunir as condições para abandonar o lugar e voltar ao Estado”, afirmou a entidade. Ao agente, cada trabalhador teria pago R$ 500 para vir ao RS, o que é ilegal — o nome do agente não foi divulgado.
— O que vemos é que foi prometido algo a eles que nunca foi cumprido. O valor combinado nunca foi recebido, segundo esses trabalhadores. Além disso, eles não recebiam uma comunicação clara sobre a meta de produtividade da empresa. O que relatam é que, sempre que o nível estava para ser atingido, essa meta mudava. A apuração indica que há vários procedimentos que acabaram não sendo observados. E a responsabilidade sobre isso é de todo mundo, de quem os trouxe e da empresa— explica Mônica.
Outro ponto a ser esclarecido pelo inquérito do MPT-RS é o que levou a empresa a optar por contratar trabalhadores do Maranhão, e não do RS.
De acordo com o MPT-RS, a empresa foi notificada pela Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo da SIT para que efetuasse a regularização e a rescisão dos contratos de trabalho dos 16 homens, com a apuração dos mesmos direitos devidos no caso de rescisão indireta. Foi também exigido na notificação o pagamento da diferença salarial entre o piso oferecido no momento do recrutamento/seleção e o que vinha sendo pago aos trabalhadores, bem como pagamento de Cartão Alimentação e dos créditos trabalhistas, além do recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e da Contribuição Social correspondente ao tempo da atuação de cada trabalhador. A empresa também foi notificada para garantir e custear o retorno dos trabalhadores ao Maranhão.
Dos 16 trabalhadores, apenas dois estão no RS e ainda não retornaram ao Maranhão.
Trabalhadores estavam “emocionalmente abalados”
Conforme a equipe do MPT-RS que atua no caso, os trabalhadores estavam “muito fragilizados” e “emocionalmente abalados” no momento do resgate.
— Esse grupo estava muito fragilizado. A sensação deles é de que tinham sido passados para trás, acreditado e caído em uma história. E ao considerar o ambiente em que estavam, isso aflora: são 16 homens que vieram de longe, sem família ou pessoas próximas, que estão afastados de tudo que conhecem, que não conseguem mandar o dinheiro que queriam para a família. É uma sensação muito sensível — define a procuradora.
Segundo a entidade, o grupo afirmou que tentou resolver as questões junto a MRV, mas que os pedidos não teriam surtido efeito. Na proposta do MPT-RS a MRV, é pedido dano moral coletivo (em nome da sociedade) e individual, para cada um dos homens.
O que diz a MRV
Em nota, a empreiteira afirmou que “foi surpreendida por uma fiscalização ostensiva em duas obras no RS com vistas a resgatar trabalhadores do Nordeste” e ressaltou que é signatária do Pacto Global da ONU desde 2016, “sendo uma referência nacional de boas práticas relacionadas aos direitos humanos”.
“Como de praxe, todos os trabalhadores estavam devidamente registrados e com os pagamentos em dia. Apesar disso e por sugestão da fiscalização, alguns trabalhadores resolveram retornar ao Estado de origem e solicitaram a rescisão de seus contratos de trabalho. É importante destacar que alguns trabalhadores decidiram permanecer nas obras no RS, nas mesmas condições em que se encontravam, hospedados de forma adequada, próximos aos locais de trabalho e com as despesas de estadia e deslocamento pagas pela MRV, reconhecendo portanto as boas condições de trabalho”, complementa a nota.
Sorry, the comment form is closed at this time.