05 jul Aquecimento global já afeta proteção ao trabalho
Aquecimento global já afeta proteção ao trabalho
Onda de calor excepcional na costa oeste da América do Norte mostra que países e empresas terão de se adaptar aos efeitos do aquecimento global.
Na tarde de 28 de junho a Amazon tuitou uma notícia que nem sempre se ouve de um colosso global do varejo. Parte de sua sede no centro de Seattle, informou, estava operando como “local de resfriamento” oficial da cidade para “moradores necessitados de um lugar para fugir do calor excessivo”.
Esse foi só um de dezenas de centros de resfriamento criados pelas autoridades após a onda de calor que se abateu sobre o noroeste do Pacífico, região mais conhecida pelo frio e pela chuva fina.
No Canadá, a temperatura atingiu 49,6ºC no vilarejo de Lytton, na Colúmbia Britânica, pouco antes de um incêndio florestal obrigar os moradores a saírem da cidade.
“Palavras não podem descrever esse acontecimento histórico”, tuitaram meteorologistas do Departamento do Meio Ambiente no oeste do Canadá. Autoridades temem que o calor possa estar ligado a centenas de mortes súbitas.
A Organização Meteorológica Mundial (WMO) da ONU disse: “Tantos recordes estão sendo batidos que está difícil acompanhar”.
Mas a Amazon ainda mandou para casa na tarde daquela segunda-feira, sem desconto no salário, trabalhadores que estavam sofrendo com o calor em seus armazéns. E não foi a única. Em toda a região, empresas fecharam mais cedo e trabalhadores foram dispensados. No Oregon, um trabalhador rural morreu no calor intenso
Pode-se esperar cenas como essas em países como Índia, que em breve poderá se tornar um dos primeiros lugares do mundo com ondas de calor capazes de matar uma pessoa saudável que estiver descansando na sombra, disse a consultoria McKinsey no ano passado.
Mas a história vinha sendo diferente, até agora, para trabalhadores e empresas em lugares como a América do Norte. “A onda de calor desta semana foi um alerta para muitos países ocidentais”, diz Andreas Flouris, especialista em estresse por calor no trabalho,
Com o aquecimento do clima elevando o risco de trabalhadores sofrerem estresse pelo calor, ele está na vanguarda do esforço de implementação de novas leis e padrões para combater o problema.
Atualmente, regras sobre quando está quente demais para trabalhar raramente são fiscalizadas ou são fracas demais para assegurar proteção aos trabalhadores. Flouris diz que isso começa a mudar.
O Qatar adotou em maio uma série de novas regras de trabalho no calor, após um estudo de Flouris sobre trabalhadores braçais no país, que vem sendo criticado pelo tratamento dado a trabalhadores migrantes que estão construindo os estádios para a Copa do Mundo de Futebol no ano que vem.
As novas regras ampliam o período em que o trabalho ao ar livre no verão é proibido. E todo o trabalho tem de parar quando a temperatura de bulbo úmido, uma função da temperatura do ar e da umidade relativa, superar 32,1ºC.
Os trabalhadores precisam fazer exames de saúde anuais, e os patrões precisam fazer avaliações de risco para a compreensão dos problemas do estresse causado pelo calor, que, segundo Flouris, são medidas fáceis de monitorar.
“A abordagem única não cabe aqui”, diz ele, explicando que usa pequenos dispositivos de monitoramento, do tamanho de um comprimido, que os trabalhadores engolem para que ele possa medir a temperatura corporal. Num restaurante, o garçom pode ter temperatura normal o dia todo, enquanto o pessoal da cozinha pode ter “nível hipertérmico extremo”.
A Grécia está adotando medidas parecidas que ele espera entrarão em vigor no ano que vem, e esse movimento está ganhando força em outros países. O desafio é achar um equilíbrio entre a proteção dos trabalhadores e o andamento dos negócios, diz Flouris.
A atenção a essas regras vai subir após a surpreendente onda de calor da última semana na América do Norte. “É algo que vai ocorrer com mais frequência nos próximos anos”, diz Flouris.
Sorry, the comment form is closed at this time.