Argentinos tomam ruas do país em greve contra Milei

Argentinos tomam ruas do país em greve contra Milei

Publicado em 25 de janeiro de 2024

Opositores protestam contra duras medidas de ajuste econômico do governo, que responde denunciando sabotagem.

 Dezenas de milhares de pessoas acataram ontem o chamado da oposição e compareceram à mobilização popular contra as medidas econômicas propostas pelo governo do presidente de extrema direita da Argentina, Javier Milei. Embora os serviços não tenham sido totalmente paralisados, a forte mobilização colocou pressão sobre o governo, que viu a votação no Congresso de parte de suas propostas ser adiada de hoje para a próxima terça-feira. Milei também sofreu nova derrota na Justiça, que considerou inconstitucional sua reforma da legislação trabalhista.

A queda de braço entre o governo e a oposição — que alimenta dúvidas sobre o futuro das reformas —, se transformou em uma guerra de narrativas sobre o tamanho e o alcance da greve geral. A Confederação Geral do Trabalho (CGT, maior central sindical argentina) anunciou ontem à tarde que tinha colocado 1,5 milhão de manifestantes em todo o país, enquanto a ministra da Segurança Pública Patricia Bullrich minimizou a participação na manifestação em Buenos Aires, estimando em 40 mil os manifestantes na frente da sede do Congresso. Na conta da polícia, cerca de 80 mil protestaram na capital argentina.

Com a adesão de aeroportuários, as brasileiras Gol e Latam cancelaram 33 voos que tinham a capital do país como origem ou destino. A Aerolíneas Argentina cancelou 267 voos.

 “Acredito que a participação foi menor do que imaginavam os sindicalistas”, disse o economista da consultoria Perspectiv@s Económicas Luis Secco. “Mas é preciso levar em conta que este é um mês de férias, no qual é difícil juntar muita gente em Buenos Aires e que houve mobilizações e marchas importantes em muitas cidades do interior do país”, afirmou.

O governo nacional jogou todos os recursos que dispunha para esvaziar a manifestação, prometendo responsabilizar as centrais sindicais por eventuais danos ao patrimônio público. A Casa Rosada também advertiu que prenderia ou multaria militantes que violassem seu recentemente instituído protocolo antipiquete — que proíbe bloqueios de vias e obstáculos a trabalhadores que queiram ingressar em seus locais de trabalho.

No começo da semana, para viabilizar a aprovação de sua chamada “Lei Ônibus” — que engloba duras medidas de cortes de subsídios, redução de programas sociais e aumento de impostos de exportações — no Congresso, o governo de Milei havia retirado alguns pontos de sua proposta, recolocando a indexação dos reajustes das aposentadorias e retirando a YPF da lista de privatização de estatais. O adiamento da votação frustrou a equipe econômica.

Ato

 Em seus discursos de ontem, os líderes sindicais pressionaram os legisladores a rejeitar as propostas e analistas creem que esta pressão resultou no adiamento da votação. “O adiamento do avanço da lei na Câmara, segundo me contam, deve-se mesmo ao fato de o partido de Milei não ter votos suficientes para aprová-la”, afirmou Secco.

Milei e seu governo buscam explorar a greve geral para reforçar a imagem da oposição como precipitada, irresponsável e antidemocrática. Para os defensores do governo, os sindicatos erram ao promover protestos contra um presidente empossado há pouco mais de 40 dias, que enfrenta uma inflação anual de 211%.

“Ele deve usar a paralisação como ilustração de sua narrativa de que ‘as castas’ [como descreve políticos da oposição] tentarão sabotar o seu governo e vai apresentá-las como inimigas do capitalismo e contrárias à democracia na medida em que pretende desacatar a vontade da maioria”, disse uma fonte diplomática em Buenos Aires, que pediu anonimato. “É uma aposta baseada no desgaste dos representantes do sindicalismo.”

O governo estimou que a paralisação de ontem causou perdas de US$ 2,5 milhões — em meio à tentativa de demonizar os sindicatos. O problema é que a popularidade de Milei também começa a baixar. Segundo pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública (Ceop), a imagem positiva do presidente caiu de 61% para 52%, desde sua posse, em 10 de dezembro.

Voos

 Apesar da adesão dos aeroportuários à greve, os aeroportos funcionaram nesta quarta, porém, vários voos não decolaram. Pelo menos 25 voos que sairiam, hoje, do Brasil para a Argentina foram cancelados.

Além das brasileiras Gol e Latam terem cancelados seus voos para e da capital argentina, a estatal Aerolíneas Argentinas informou o cancelamento de 267 voos e o reagendamento de outros 26. Cerca de 17 mil passageiros são afetados pela paralisação nesta quarta, segundo a Associated Press.

 O porta-voz do governo Milei, Manuel Adorni, disse que a greve significará “uma perda de US$ 2,5 milhões que todos os argentinos pagarão”.

Fonte: Valor Econômico
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