22 jun Argumentos econômicos no combate ao racismo
Argumentos econômicos no combate ao racismo
Organismos internacionais e do Brasil procuram formas de promover o trabalho e a geração de renda como meio de superar as dificuldades impostas pela discriminação.
Ofensas ao jogador Vinicius Jr. em maio, na Espanha, alertaram novamente o mundo para o debate sobre racismo – o que já havia ocorrido, dramaticamente, com o episódio George Floyd (maio de 2020). Entre reações indignadas do público em geral – racistas não se manifestaram abertamente, a não ser na obscuridade de algumas redes sociais – e promessas de sanções esportivas e legais, o assunto ganhou o mundo.
Salutar que assim seja. Mas é de se esperar que o interesse no tema esfrie. É próprio da dinâmica do noticiário: assuntos novos tomam o lugar dos antigos. Por essa razão, a maioria não familiarizada com o tema não sabe, não entende e não se dá conta de que o combate ao racismo precisa de mais do que palavras. É preciso agir.
Alguns organismos internacionais e do Brasil há tempos buscam maneiras de atacar desigualdades, racismo e demais formas de discriminação. Uma das discussões do momento é sobre como usar trabalho e geração de renda para superar mazelas.
Em maio, o Grupo de Trabalho de Especialistas em Empoderamento Econômico e Afrodescendentes da ONU, reunido em Genebra, Suíça, elaborou um relatório preliminar em que recomenda aos países, incluindo o Brasil, a adoção de medidas positivas para proteger parcelas da população economicamente mais vulneráveis. A proposta inclui adoção de sanções a práticas injustas e desiguais por motivo de discriminação. Mais do que isso, propõe que o Estado ofereça condições para que esse público possa gerar renda e superar dificuldades pela via da ascensão social.
Quando visitou o Brasil em dezembro do ano passado para participar do Cidadão Global, evento promovido pelo Valor e o Santander, Sanda Ojiambo, CEO para o Pacto Global da ONU, disse que só a educação poderia promover a redução da desigualdade no país. A lógica das recomendações do grupo de trabalho é concentrar na educação de modo geral, mas também na educação financeira e voltada ao empreendedorismo, as ações necessárias para transformar trabalho e renda em instrumentos de mudança.
Essa é também a visão da advogada Maria Sylvia de Oliveira, coordenadora de Políticas de Gênero e Raça da ONG Geledés – Instituto da Mulher Negra. “Para que o empreendedorismo seja uma solução genuinamente emancipatória e promotora do desenvolvimento e da garantia dos direitos humanos da população afrodescendente, os programas governamentais ou iniciativas do setor privado precisam ter uma perspectiva coletiva, e não uma abordagem de empreendedorismo individual como alternativa”, pontua Maria Sylvia.
O Geledés defende um empreendedorismo “coletivo”, alinhado a iniciativas locais com organizações comunitárias e valorizando a identidade negra. A ONG recomenda a criação de políticas de crédito voltadas para esses empreendedores, especialmente as mulheres negras, parcela mais afetada pelo racismo sistêmico.
Para ilustrar: mulheres negras, mesmo com curso superior, ganham menos da metade de um homem branco e menos de três quartos do salário obtido por mulheres brancas e homens negros com igual qualificação. Em artigo publicado no Valor no dia 16 de junho passado (“Discriminações no mercado de trabalho”), o economista e professor do Insper Naercio Menezes Filho mostra que o salário de um homem branco é de R$ 5.600, enquanto mulheres brancas e homens negros recebem R$ 3.600 na média, e as mulheres negras, R$ 2.600, todos eles com ensino superior.
No geral, mulheres recebem 20,2% menos que homens. Negros recebem 40,2% menos que brancos, e mulheres negras, 46% menos. Os dados se referem ao ano passado e, assim como os citados por Naercio Menezes, são do IBGE.
A Geledés existe há 35 anos para combater o racismo, o sexismo e outras formas de discriminação no Brasil. Por seu trabalho no cenário internacional desde o início dos anos 2000, o Geledés é credenciado junto ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas. Nessa condição, Maria Sylvia esteve no encontro de maio em Genebra.
A coordenadora do Geledés considera o desenvolvimento econômico, social e político dos afrodescendentes brasileiros “essencial” para romper o círculo vicioso da concentração de renda. “No Brasil se perpetuam mecanismos desde o colonialismo que têm como objetivo a superacumulação de capital”, comenta. Para ela, essa concentração de renda cria um abismo socioeconômico que gera uma dinâmica de expulsão de populações empobrecidas residentes em regiões com pouca infraestrutura e que, na sua grande maioria, é formada por afrodescendentes.
Superar as barreiras do empreendedorismo e da qualificação profissional é o remédio, apontam a ONG e os foros de discussão da ONU. O relatório do grupo de trabalho recomenda que governos e empresas se envolvam na superação das barreiras de acesso desse público não só ao mercado de trabalho como também ao sistema financeiro, tendo em mente diferentes estudos que mostram o poder da diversidade em potencializar lucros para as empresas e crescimento econômico para as sociedades.
Pesquisa da consultoria McKinsey mostra que empresas com quadros de pessoal racial e etnicamente mais diversificados têm 35% mais chances de conseguir retornos financeiros melhores que a média. Quando há diversidade de gênero, o faturamento pode ser até 21% maior.
Talvez esse tipo de argumento possa fazer mais contra a discriminação que a indignação e belas palavras.
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