23 mar As diferentes visões sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada
As diferentes visões sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada
Aumento de custos com mão de obra e seus efeitos sobre os preços preocupam; mais qualidade de vida para o trabalhador é impacto positivo.
A redução da jornada de trabalho no país e o fim da escala 6×1 ganharam tração na pauta do governo e do Congresso em ano eleitoral. O tema divide governo, representantes dos trabalhadores, setor produtivo e também economistas.
Existem visões diferentes sobre os efeitos das mudanças em emprego, preços, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), produtividade, perdas para os empresários e qualidade de vida da força de trabalho, mas também há pontos em comum. Os possíveis impactos foram debatidos no evento “Trabalho, tempo e produtividade: o debate sobre a escala 6×1”, da série Caminhos do Brasil.
Estudos realizados por entidades da classe empresarial apontam aumento de custos pela necessidade de adequar a escala de trabalho diante da demanda de funcionamento das atividades fora de dias e horários úteis. Alternativas como pagamento de hora extra e contratação de mais trabalhadores ampliariam gastos com a folha de pagamentos.
A Constituição de 1988 diminuiu a jornada máxima de 48 para 44 horas por semana, com oito horas por dia. No momento, o Congresso debate a revisão com duas Propostas de Emenda Constitucional (PECs), unidas para seguirem a mesma tramitação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados: PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (Psol-SP).
Um dos pontos do debate é o impacto na produtividade, uma vulnerabilidade da economia do país. Há quem acredite que o nível baixo da produtividade não permitiria reduzir horas de trabalho no mercado brasileiro, enquanto outros apontam possibilidade de aumento dessa produtividade com diminuição da jornada.
O professor da Universidade de São Paulo José Pastore, que também é presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), alertou que a produtividade não depende apenas do trabalhador. “É claro que um trabalhador descansado produz mais, mas a produtividade do trabalho não depende só do trabalhador. Depende da administração da empresa, da tecnologia, do ambiente de trabalho, da infraestrutura do país, e da segurança jurídica”, disse. “Podemos reduzir a jornada, criar uma série de problemas, e a produtividade
Mudanças dividem especialistas, empresários, trabalhadores e políticos
não subir”, completou Pastore, para quem “a produtividade precede a jornada de trabalho.”
O também professor da Universidade de São Paulo (USP) e professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, Naercio Menezes Filho, concorda que vários fatores explicam a produtividade, mas destacou que há potencial de expansão a curto e a longo prazos com a diminuição da jornada de trabalho no Brasil, como ocorreu em Portugal.
A curto prazo, a redução do número de horas trabalhadas liberaria o trabalhador para lazer e convívio familiar, o que significaria ganho em saúde. “Muitas vezes a pessoa gasta uma, duas horas no transporte, trabalha o dia inteiro e ainda tem o transporte da volta. […] Trabalhando menos, as pessoas vão ter uma saúde melhor, um menor nível de estresse e menos afastamento por doenças”, afirmou Menezes Filho.
A longo prazo, esse período livre adicional permitiria mais tempo para pais e filhos acompanharem o desenvolvimento de seus filhos e estimularem o aprendizado, defendeu o professor: “Esse tempo disponível permite investir nas crianças, o que vai aumentar o aprendizado delas no futuro, o que vai gerar aumento de produtividade no futuro.”
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, afirmou que é preciso lembrar ainda que nem todas as atividades têm espaço para expansão significativa de produtividade, como é o caso do setor de serviços. Além disso, o Brasil registrou um aumento lento da produtividade nas últimas décadas, muito aquém de outros países. Embora a Constituição tenha
teto de 44 horas por semana, a jornada média do brasileiro é de 38,4 horas, apontou. “Ao longo desse tempo, de quase 40 anos, o Brasil teve um ganho de produtividade da ordem de 20%, enquanto nos Estados Unidos foi de 45%.”
Pelos cálculos citados por Solmucci, a redução da jornada com a manutenção do custo da hora trabalhada elevaria os custos do trabalho em 20%. “Que aumento de produtividade poderia compensar esse custo?”, questiona. O aumento de gastos nessa magnitude significaria, segundo ele, um aumento de 7% nos preços para o consumidor.
“É impossível imaginar que esse custo não será repassado para o preço em qualquer atividade econômica”, disse.
Nesse debate, uma das questões é diferenciar jornada e escala de trabalho. A primeira se refere ao número de horas trabalhadas durante a semana, enquanto a escala dita a forma como essas horas são distribuídas. Para José Pastore, há uma confusão entre os dois termos.
Ele também destacou que a Constituição já define um teto de 44 horas semanais, permitindo negociação entre patrões e empregados sobre a distribuição das horas ao longo da semana. As escalas, defendeu Pastore, dizem respeito à natureza de cada atividade e por isso não devem ser impostas por lei. “A escala, de certa maneira, complementa a jornada. A escala nunca é [determinada] por lei porque se refere a detalhes muito pequenos na rotina de trabalho”, disse. “Todos esses detalhes tornam impossível legislar sobre escala, principalmente na Constituição.”
O deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), autor de uma das PECs em discussão,
defendeu que a mudança na jornada por lei é importante porque trabalhadores mais vulneráveis não têm poder de negociação.
De acordo com o Lopes, a “sociedade demonstrou” que quer 40 horas semanais e escala 5×2 e que o formato, também defendido pelo governo, pode ter mais chances de avançar: “Vamos dizer para a sociedade, sem ruído, que nós queremos 40 horas e 5×2, e depois vamos conversar se tem transição ou não tem transição.”
Pesquisa Datafolha publicada em 14 de março mostrou que 71% da população defende que o número máximo de dias de trabalho semanais no Brasil deveria ser reduzido. Outros 27% afirmam que não deveria. Apenas 3% não responderam.
Segundo o parlamentar, a mudança vai representar ganhos de qualidade de vida para o trabalhador e, consequentemente, para a produtividade: “É uma política de ganha- ganha. Todos vão ganhar com a escala 5×2”, disse.
“O debate sobre a redução da jornada de trabalho envolve legítimas preocupações sociais — como qualidade de vida e saúde do trabalhador —, mas também exige análise técnica rigorosa sobre seus efeitos econômicos, seu custos para a sociedade, especialmente em setores que operam de forma contínua, como comércio e serviços. Mudanças na jornada devem ser fruto das negociações coletivas, respeitando a realidade de cada setor”, afirma José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac.
A série Caminhos do Brasil é uma iniciativa dos jornais O Globo, Valor eda rádio CBN, com patrocínio do Sistema Comércio, através da CNC, do Sesc, do Senac e de suas federações.
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