09 ago Baixa qualificação deve dominar emprego pós-covid, projeta Ibre
Baixa qualificação deve dominar emprego pós-covid, projeta Ibre
Para pesquisadores, tendência acentua desigualdade no país.
Apesar da visão de que a pandemia deve acelerar a adoção de tecnologia nas empresas, incluindo o trabalho remoto, características do Brasil como o peso da informalidade ainda devem fazer com que o país retorne à tendência pré-covid de crescimento de ocupações de baixa qualificação e produtividade. Além disso, mesmo que o Brasil siga, em menor escala, tendências globais de automatização e geração de empregos em atenção pessoal, o cenário é desafiador, porque pode acentuar desigualdades e vai exigir grandes esforços de requalificação profissional.
A avaliação é de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Em apresentação ao Valor , eles explicam que a tendência para o mercado de trabalho global é a polarização entre ocupações em setores da tecnologia e aquelas ligadas a cuidados pessoais. Os economistas citam estudo da consultoria McKinsey sobre o emprego pós-covid, segundo o qual mais de 100 milhões de trabalhadores poderão mudar de ocupação até 2030, um aumento de 12% em relação a projeções anteriores. O estudo se baseou em realidades de oito países que, juntos, detêm 62% do PIB global: China, França, Alemanha, Índia, Japão, Espanha, Reino Unido e EUA.

Ocupações chamadas “STEM” (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), serviços na área de saúde, transporte de mercadorias e para empresas devem aumentar. Por outro lado, terão menos demanda ocupações em serviços de alimentação, atividades administrativas, atendimento ao consumidor e vendas. “O que vemos são atividades que empregam muito e podem ser automatizadas e outras em que a probabilidade de substituição é menor, mas o problema é que elas não empregam tanto”, diz Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV Ibre.
O trabalho da McKinsey leva em conta oito países, incluindo desenvolvidos e economias emergentes como China e Índia, mas deixa claro que esses efeitos podem ser esperados também nas demais nações em desenvolvimento.
A partir de dados da Pnad Contínua, do IBGE, de 2012 a 2019, os pesquisadores do FGV Ibre analisaram as ocupações emergentes no Brasil, ou seja, aquelas com maior aumento nas proporções de empregos no período. Não foram incluídos dados de 2020 e 2021 exatamente porque características atípicas da pandemia – e que podem ser temporárias, dizem – afetariam a análise de longo prazo.
Os pesquisadores observaram que os padrões do mercado de trabalho doméstico não são iguais aos internacionais. Em linha com o exterior, há expansão na proporção de ocupações ligadas a tecnologia, saúde e atenção pessoal: são instaladores e reparadores de equipamentos eletrônicos, especialistas em base de dados e redes de computadores, trabalhadores do esporte e condicionamento físico, profissionais de enfermagem e outros profissionais de saúde.
Quem lidera o ranking, no entanto, ainda são ocupações predominantemente informais e que refletem uma economia pouco produtiva, como gerentes de serviços, vendedores, além da presença de vendedores de rua (ambulantes). Barbosa lembra que a informalidade é fator de muito peso no Brasil. Inclusive, foi por ela que o emprego se recuperou após a crise de 2014-2016.
Em uma avaliação dos salários, os pesquisadores do FGV Ibre notaram que, junto com maior contratação, há crescimento de rendimentos nas ocupações de TI, além da agropecuária. Vendedores e ambulantes, por outro lado, têm crescimento no emprego, mas salários não acompanham. Segundo Fernando Veloso, também pesquisador do instituto, poucas categorias estão entre as que geram muito emprego e melhores salários. “O problema da economia brasileira não é, necessariamente, que ela não gera emprego, é que gera emprego de baixa produtividade, pouca perspectiva salarial e precário em termos de proteção social.”
Esses trabalhos intensivos em mão de obra, que agregam, em geral, trabalhadores menos qualificados e de baixa produtividade, foram os mais afetados na crise da covid, reforça a pesquisadora Silvia Matos, lembrando que, até por isso, houve um efeito de composição importante que fez a produtividade aumentar no Brasil. Com a dissipação da pandemia ou, ao menos, a redução expressiva das limitações ao contato presencial, a expectativa dos pesquisadores do FGV Ibre é que o mercado de trabalho brasileiro retorne ao cenário dual pré-covid, “no qual os setores relacionados a TI e pessoas vão ter uma dinâmica parecida com o mundo, mas esses outros menos produtivos ainda vão apresentar crescimento”, diz Barbosa.
Veloso concorda, considerando que não são esperadas mudanças drásticas no curto prazo em fatores como a limitação do trabalho remoto – outro estudo do instituto, divulgado pelo Valor , apontou que o potencial efetivo não chega a 20% -, o peso grande do emprego informal e um ambiente de negócios com muita incerteza, o que segura o crescimento das empresas.
“Os trabalhadores estão há muito tempo fora do mercado, empresas fecharam ou perderam trabalhadores e podem não recontratar. É um cenário parecido com o que tinha antes, só que pior, com mais informalidade. E, tendo um pouco mais de novas tecnologias de trabalho remoto, que beneficiam os mais ricos, provavelmente também mais desigual”, afirma.
Ainda que o Brasil retorne aos padrões pré-covid, a transição no mundo do trabalho está no horizonte de longo prazo e vai exigir que se pense em requalificação profissional, com foco em novas habilidades. “É trazer para o debate, por exemplo, a importância das linguagens de programação, que são as novas formas de alfabetização. Quem chegar ao mercado de trabalho sem esse conhecimento pode ter dificuldade de se inserir nos novos postos”, diz Janaína Feijó, pesquisadora do FGV Ibre. Veloso acrescenta as chamadas habilidades não cognitivas (“soft skills”), como saber se comunicar, trabalhar em equipe, liderar.
O receio, diz Luiz Guilherme Schymura, diretor do FGV Ibre, é que o Brasil fique preso a um modelo de programas de transferência de renda e se esqueça da educação e de gerar bons empregos. “Essa é a preocupação, a gente cair nisso de achar que programas sociais vão resolver os problemas do país estruturalmente.”
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