Baixa taxa de participação ajuda a segurar desemprego no Brasil

Baixa taxa de participação ajuda a segurar desemprego no Brasil

Publicado em 2 de maio de 2023

Com 3,4 milhões de pessoas a menos no mercado de trabalho em relação ao período pré-pandemia, país tem proporção menor da população apta a trabalhar em atividade que outras economias das Américas, mostra LCA.

A taxa de participação no mercado de trabalho segue em queda no Brasil, na contramão do observado em outros países das Américas, aponta levantamento da LCA Consultores.

A taxa de participação é a relação entre as pessoas que estão ocupadas ou em busca de trabalho e o total da população em idade ativa, com mais de 14 anos.

No Brasil, a taxa de participação recuou pela sétima vez seguida no trimestre encerrado em março deste ano, para 61,6%, na série com ajuste sazonal da LCA.

Em julho de 2020, primeiro ano da pandemia, a taxa de participação com ajuste atingiu 57,2%, o menor número da série iniciada em 2012. Depois, foi se recuperando e chegou a 63% em julho do ano passado, bem perto do 63,2% observado em dezembro de 2019, antes da pandemia. Mas, desde meados de 2022, ela voltou a cair e agora está cerca de 2 pontos percentuais abaixo do pré-covid.

Nas Américas, observa a LCA, quase nenhum país tem sua taxa de participação no mercado de trabalho acima do pré-pandemia (média de 2019), incluindo países mais ricos como Estados Unidos e Canadá. Ambos, no entanto, têm visto suas taxas de participação avançarem entre os últimos meses de 2022 e os primeiros de 2023.

A resistência de normalização da taxa de participação é um dos fatores que ajuda a explicar o desemprego brasileiro abaixo do que analistas antecipavam. A taxa de desocupação do país está em 8,8%. Se fosse considerada a taxa de participação média observada em 2019, no entanto, o desemprego estaria 2,8 pontos percentuais acima, segundo a LCA.

“Ainda avaliamos que a taxa de desemprego continua em níveis baixos mais por redução da taxa de participação do que por crescimento do emprego”, diz Gabriel Couto, economista do Santander.

A continuidade da baixa taxa de participação é, segundo Couto, um dos fatores que implicam em risco de queda nas projeções do Santander para a taxa de desocupação no ano, atualmente de um desemprego médio de 9,5%.

No curto prazo, Lucas Assis, economista da Tendências Consultoria, diz não esperar um retorno da taxa de participação aos patamares pré-pandemia. “É possível que tenha havido uma mudança no mercado de trabalho”, afirma.

De um lado, diz, as fortes transferências governamentais podem estar criando um desincentivo de retorno. “Elas foram ampliadas em 2022 em meio à corrida eleitoral e, nesse ano, já observamos reformulação do Bolsa Família e reajuste real do salário mínimo, que indexa uma série de programas sociais”, lembra Assis.

De outro lado, acrescenta, a crise da covid-19 contribuiu para acelerar a saída de pessoas mais velhas do mercado de trabalho.

“Parte do recuo da taxa de desemprego em relação ao pré-pandemia deve-se ao fato de que muitas pessoas consideradas aptas a trabalhar (de acordo com o critério de idade) não voltaram a procurar emprego e, consequentemente, saíram da força de trabalho”, diz a equipe da LCA em relatório. Hoje, são 3,4 milhões de pessoas a mais fora da força de trabalho quando comparado ao período pré-pandemia.

Embora a taxa de participação não tenha retornado ao patamar anterior à pandemia entre a maior parte dos grupos etários, são os mais velhos (60 anos ou mais) que mais deixaram de voltar à força de trabalho, observa a LCA.

A diferença de pessoas fora da força de trabalho em dezembro de 2022 e o fim de 2019 era de 2,8 milhões de pessoas na faixa de 60 anos ou mais, enquanto entre 40 e 59 anos era de 1,1 milhão e, entre 25 e 39 anos, 679 mil. Para pessoas entre 14 e 24 anos, a força de trabalho já superou o pré-pandemia.

“O não-retorno dos idosos ao mercado de trabalho se deve, sobretudo, a três motivos: a aposentadorias precoces, ao medo de contaminação e a possíveis sequelas de longo prazo após a infecção da covid-19”, aponta a LCA.

Na série mensalizada e ajustada sazonalmente, por outro lado, a taxa de participação teve ligeira elevação de 0,1 ponto percentual, após quatro meses de estabilidade em 61,4%, observa a MCM Consultores. “As últimas leituras da PnadC consolidaram uma mudança de dinâmica no mercado de trabalho, para uma mais saudável”, diz a equipe, citando “alguma reação da taxa de participação na força de trabalho”.

Fonte: Valor Econômico
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