Bem-estar e produtividade têm correlação, diz pesquisa

Bem-estar e produtividade têm correlação, diz pesquisa

Publicado em 2 de janeiro de 2025

Estudo mostra que sobrecarga e gestão de comando e controle estão entre as principais causas de insatisfação no ambiente de trabalho.

Um ciclo vicioso se instaurou em muitos ambientes de trabalho e se tornou um desafio para empresas e profissionais. As pessoas se sentem sobrecarregadas com seus afazeres, cansadas, ansiosas e, muitas vezes, frustradas com o que fazem – isso, a longo prazo, faz com que o profissional produza menos, se engaje menos e continue cada vez mais ansioso, estressado e sobrecarregado. “É preciso entender que só será possível quebrar este ciclo se a causa raiz for tratada e melhorada”, afirma Renata Rivetti, CEO da Reconnect, especializada em felicidade corporativa, liderança humanizada e produtividade consciente. “E esta causa raiz está ligada a ambientes tóxicos, relações de comando e controle, mau uso das habilidades de cada um e sobrecarga.”

Uma nova pesquisa da Reconnect e Pin People, que apoia times de RH na gestão da experiência do funcionário, traz dados que corroboram essa percepção. No levantamento, que ouviu 721 pessoas de 20 estados, gerando mais de 3.100 comentários analisados, ficou evidente que a produtividade tem correlação com o estado de bem-estar das pessoas.

Segundo o mapeamento, profissionais que se sentem sempre produtivos apresentam nota de eNPS (employee Net Promoter Score) para bem-estar de +22, e os que raramente se sentem produtivos têm esse mesmo eNPS de -84. “Só teremos uma ‘virada de chave’ quando as empresas focarem nessa transição de olhar e entenderem que não será trabalhando mais, com medo, ou no sistema de controle que os profissionais vão gerar melhores resultados”, afirma Rivetti. “É exatamente o contrário. Se os profissionais trabalham em ambientes que lhes trazem segurança psicológica, boas relações e desafios que fazem sentido, aí sim eles terão melhor desempenho e produtividade, além de bem-estar.”

Para medir o eNPs, a pesquisa perguntou às pessoas se, considerando o bem-estar delas no trabalho, “qual a probabilidade de você recomendar sua empresa como um bom lugar para trabalhar”. No recorte por faixa etária, a geração Z – de pessoas nascidas entre 1995 e 2010 – apresenta o menor eNPS: -24. Para Rivetti, vários aspectos fazem com que esse grupo seja o mais insatisfeito. O primeiro é que muitos entraram no mercado durante a Covid-19, então passaram por momentos de desafios, de poucas relações e de pouca conexão com as pessoas. “Acabaram entrando em um espaço de pouco aprendizado, por isso, nos dias atuais, é necessário que as lideranças apoiem e estimulem essa geração, para que possam se desenvolver e aprender”, pontua.

Outro aspecto é que esta é uma geração com olhar mais crítico, acredita Rivetti, de “não quero passar a vida toda trabalhando”. “Ao passo que a geração X aceitou sobrecarga e abusos para ganhar dinheiro, status e poder, para ‘um dia ser feliz’, a geração Z questiona, e quer algo agora que faça sentido.”

De todo modo, não foi só essa geração que marcou eNPS negativo na pesquisa. A X gerou um eNPS de -15; baby boomers, de -8; e Y, -3.

Nesse contexto, 66,6% dos participantes da pesquisa disseram que trocariam de emprego por outro que priorizasse mais o bem-estar, mesmo com salário igual ou menor. Para empresas que desejam engajar mais suas equipes, a recomendação de Rivetti é reduzir a sobrecarga, alocar as pessoas e seus talentos nas atividades certas, e “colocar um fim no modelo ultrapassado de comando e controle e de medo”. “As relações tóxicas são extremamente prejudiciais à saúde mental dos colaboradores e para a própria geração de resultados”, afirma, pontuando que, no entanto, essas práticas ainda existem e são praticadas em muitas empresas. Isso acontece, na visão dela, pela crença de que trabalhar mais hora é igual a maior produtividade e mais resultados. “A neurociência mostrou que o nosso cérebro não tem capacidade de cognição e atenção por muitas horas seguidas”, explica. “Essas muitas horas não são realmente produtivas.”

Ainda segundo a pesquisa, o atual cenário traz a ansiedade como a emoção mais comum associada ao trabalho (17,5%). Depois aparecem orgulho (12,2%), frustração (11,5%), estresse (10,8%) e sobrecarga (10,1%). “A ansiedade tem muito a ver com o senso de urgência e importância que a gente criou na sociedade”, comenta. “Tudo é ‘para ontem’, e isso traz, obviamente, uma carga de ansiedade, pois você termina o dia e parece que está sempre devendo algo.”

A especialista comenta, ainda, que quando chega uma mensagem fora do horário de trabalho, isso tira a pessoa do seu momento de “recuperação do estresse”, fazendo com que se entre novamente em um estado de ansiedade. “No dia seguinte, o profissional já acorda ansioso, pensando nas notificações que ficaram sem retorno”, detalha. “Está na hora de entendermos que, em um mundo em que tudo é prioridade, nada é prioridade. Para começarmos a reduzir a sobrecarga, precisamos diminuir esse ‘senso de urgência’ para o que não necessita de urgência

Fonte: Valor Econômico
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