07 maio Benefícios paliativos são insuficientes
Benefícios paliativos são insuficientes
Para Jeffrey Pfeffer, de Stanford, contribuição de empresas para o bem-estar do funcionário pode ser maior.
Em dezembro, o acadêmico americano Jeffrey Pfeffer, professor de comportamento organizacional na escola de negócios da Universidade de Stanford, escreveu um artigo intitulado “Saúde mental no local de trabalho: a revolução que se aproxima”. É um alerta urgente. “Os funcionários precisam e exigem melhor cobertura”, diz ele no texto.
Um apanhado de números compilados pelo especialista dá uma ideia do tamanho do problema. Um em cada quatro americanos tem transtorno mental ou por uso de substâncias, segundo a Administração de Serviços de Abuso de Substâncias e Saúde Mental (SAMHSA). A taxa de suicídio aumentou 35% entre 1999 e 2018, com elevação de 2% por ano desde 2006, de acordo com o Centro Nacional de Estatísticas de Saúde dos Estados Unidos. O suicídio é, hoje, a décima causa de morte entre os americanos.
A depressão aumenta o risco de suicídio – cerca de 60% das pessoas que morrem dessa forma têm transtorno de humor, esclarece Pfeffer. No Brasil, os dados também são alarmantes. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo.
Para entender melhor qual é o papel das empresas no combate aos transtornos de saúde mental de seus funcionários, o Valor conversou com o professor Pfeffer. Autor de 15 livros, seu título mais recente é “Morrendo por um salário: como as práticas modernas de gerenciamento prejudicam a saúde dos trabalhadores e o desempenho da empresa – E o que podemos fazer a respeito”.
Valor: Qual a urgência de se falar sobre saúde mental no ambiente de trabalho?
Jeffrey Pfeffer: Eu não acho que, necessariamente, seja preciso falar sobre isso, mas é realmente muito urgente que se faça algo. Porque as pesquisas mostram que as questões de saúde mental afetam a saúde física. As pessoas estão entrando em depressão, e isso aumenta o risco de câncer, doenças do coração e diabetes. O mundo, como se sabe, enfrenta um enorme problema de aumento nos custos de saúde. Se você quer resolver os custos com a saúde, você precisa resolver as questões comportamentais de saúde mental das pessoas, porque a saúde mental afeta a saúde física. E nós olhamos para dois caminhos. Um deles é o dos comportamentos relevantes para a saúde: se você está estressado ou deprimido, você tende a beber mais, fumar mais, comer de forma menos saudável, usar drogas etc. E o caminho número dois é ir direto ao fato que o estresse e a depressão afetam o sistema nervoso central. Então, sim, a saúde mental afeta a saúde física, e se nós formos levar a sério o fato de que queremos ter países mais saudáveis, com menos perdas de dias de trabalho e custos menores de saúde, nós precisamos fazer alguma coisa.
Valor: Em um artigo recente, o senhor escreveu que os problemas de saúde mental são generalizados. Isso se acentuou com a pandemia?
Pfeffer: Até mesmo antes da pandemia, ao menos nos EUA, havia uma crise de saúde mental, com as taxas de suicídio e os casos de depressão subindo. As empresas passaram a lançar programas e serviços de cuidados com a saúde mental porque perceberam que precisavam agir. Havia um crescimento de casos ligados à saúde comportamental e à saúde mental e, claro, a pandemia piorou isso.
Valor: A pandemia também aumentou os casos relacionados a saúde mental no trabalho?
Pfeffer: Sim. As pessoas estão isoladas, e isso deixa a vida pior, porque elas não têm apoio social, esse é o fator número um. O número dois é que aumentou, para muitas pessoas, o estresse financeiro, porque estão preocupadas com seus trabalhos, e não sabem se terão trabalho ou não. Também aumentou o estresse vindo dos conflitos trabalho-família, porque é difícil administrar, como se sabe, trabalhando com crianças ao redor. Todas essas coisas, o estresse econômico, o estresse do trabalho em casa, o isolamento social, a preocupação sobre contrair essa doença, ou sobre alguém que você ama pegar a doença, todas essas coisas adicionam pressão.
Valor: Como as empresas estão lidando com o assunto? Estão se saindo bem na sua opinião?
Pfeffer: Elas estão trabalhando melhor, mas eu não diria que estão fazendo bem feito. Quero dizer que elas certamente estão tentando fazer algo a respeito, ao menos nos Estados Unidos, da saúde mental ou a saúde comportamental – às vezes se chama de um jeito, às vezes de outro. Elas estão tentando deixar os benefícios ligados a essas questões mais disponíveis, tentando oferecer formas variadas de assistência aos funcionários. As empresas estão fazendo algum esforço, mas nada além do que remediar os sintomas desta crise. As causas reais disso são o isolamento social, a insegurança econômica, as questões de conciliação entre família e trabalho e como equilibrar essas coisas. Elas não estão atacando a raiz do problemas, mas tentam oferecer algum cuidado paliativo. Oferecendo algumas pontes para atravessar o momento.
Valor: Então as empresas poderiam fazer melhor?
Pfeffer: Claro. Basta olhar para Bob Chapman, que escreveu o livro “Todos são importantes” [o autor propõe uma abordagem diferente de liderança que não vê os funcionários apenas como ativos], nesta situação econômica, e certamente também na situação econômica de 2008, para evitar demissões, entendendo que as consequências são ruins. Eu acho que as companhias poderiam fazer mais para tentar ajudar seus funcionários com relação à insegurança econômica e certamente poderiam fazer melhor para redesenhar o trabalho. Há uma equipe de 30 funcionários trabalhando demais? Então as companhias poderiam ver isso como uma oportunidade não apenas para rever suas posições, mas para redesenhar o trabalho em si. Hoje temos o design de produtos centrado no consumidor – não é o consumidor que se adapta ao produto. Poderíamos ter o trabalho centrado no funcionário, que é o oposto de como é hoje: eu tenho uma vaga, contrato você, digo que esse é o trabalho a ser feito, espremo você na caixa, dou uma série de responsabilidades e você precisa descobrir quais elementos desse trabalho teremos que fazer para não ter perdas, quais dos elementos desse trabalho vamos automatizar com inteligência artificial de forma que as pessoas serão substituídas. E o movimento para ajudar as pessoas a conciliar trabalho e família também tem sido feito de alguma forma, mas ainda não é relevante. Por isso perdemos tantas mulheres capacitadas.
Valor: O senhor acredita que o atual cenário da saúde mental tem relação com a forma como as empresas gerenciam as pessoas? Falo de carga de trabalho, pressão etc.
Pfeffer: A saúde física e mental não é uma prioridade estratégica para a maioria das empresas. Não é algo que tem a atenção da alta liderança. Quando você fala com as pessoas que administram as empresas sobre esse assunto, muitas não estão assumindo sua responsabilidade de forma suficiente e séria.
Valor: Vemos muitas empresas oferecendo benefícios como mindfulness e sessões de ioga. Esse tipo de benefício faz realmente alguma diferença?
Pfeffer: Se você está com dor e eu te dou um remédio para dor, essa pílula vai, provavelmente, aliviar a sua dor. Mas o remédio para a dor não vai oferecer uma solução de longo prazo. Eu diria que a dor está ok, você a alivia, mas não está indo na fonte. E aí voltamos para o que já falamos antes – remediação versus prevenção.
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