13 maio Branco tem chance 58 vezes maior de ter alto cargo em empresa
Branco tem chance 58 vezes maior de ter alto cargo em empresa
Pesquisa com 442 companhias mostra que há poucos negros entre diretores-executivos, diretores financeiros e conselheiros de administração.
No início dos anos 2000, Wellington Silva participou de conselhos em companhias e jamais se deparou com outros membros da alta direção que fossem negros como ele. Passados mais de 20 anos, cresceram as discussões sobre diversidade racial no mundo corporativo, impulsionadas, sobretudo, pela adoção das métricas ESG (ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês) na análise de investimentos. Na prática, no entanto, a evolução é muito pequena.
Atualmente, alguns “boards” têm entre seus representantes nomes como Denísio Liberato (Neoenergia), Rachel Maia (Vale, BB e CVC), Fausto Augusto de Souza (Copel) e W. Don Cornwell (Natura). Estas pessoas negras representam uma fatia ínfima dos mais de 3.500 assentos nas companhias abertas no Brasil, entre conselheiros de administração, diretores-executivos ou financeiros.
Pesquisa do professor da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Portugal Gouvêa indicou que a chance de uma pessoa branca ocupar alguns dos empregos mais bem remunerados do país é 58 vezes maior em comparação a uma pessoa não branca.
O estudo, realizado entre janeiro e maio de 2021, investigou o perfil racial da alta cúpula de empresas listadas na B3, com a análise de fotos publicadas na internet. Ao todo, foram pesquisadas 442 companhias e 3.561 cargos. Nessa primeira etapa, foram identificados sete potenciais conselheiros negros e 28 pardos. Entre CFOs e CEOs, notou-se que um diretor financeiro poderia ser considerado negro. Entre os pardos, a pesquisa apontou três diretores-presidentes e um CFO.
Na sequência, as informações raciais apuradas foram submetidas à validação das próprias companhias e 69 delas (15,61% do total) retornaram. Esse novo conjunto, que representou 727 cargos, apontou que 712 deles eram ocupados por pessoas brancas, nove eram amarelas, e seis delas, pardas. Não foi identificada nenhuma pessoa preta nesta segunda etapa entre todos os cargos.
“Precisamos de percentuais muito maiores para que os números se tornem representativos”, diz Gouvêa, que além de lecionar na faculdade de direito da USP, é fundador do escritório PGLaw. Se a diversidade racial continuar baixa, corre-se o risco de “tokenismo”, que deriva do termo inglês “token”. O termo é empregado para quando ocorre inclusão simbólica com objetivo de fazer concessões superficiais a grupos minoritários.
Há um descompasso entre quem tem o poder decisório nas companhias e o resto da sociedade, o que pode ser perigoso para as empresas, alerta o professor da USP. “É importante não transformar o assunto em um evento de marketing. A ideia do conselho diverso é oferecer novas perspectivas sobre o funcionamento da própria sociedade e para o seu próprio plano de negócios”, afirma Gouvêa.
Ainda há entraves e vieses culturais para a ascensão de mulheres e negros na carreira executiva, uma etapa importante para quem deseja ingressar em um conselho, afirma Cristina Pinho, conselheira de administração da Ocyan, empresa que não é listada na bolsa. A alçada a um cargo como este depende também de relações interpessoais. “A indicação de mulheres brancas parte de homens brancos, que predominam nos conselhos. Onde estão os homens negros? Não estão nos conselhos. Essa engrenagem se alimenta dela mesma.”
Ainda são raros os programas específicos para a inclusão de negros em cargos de alta direção das empresas, diz Cássio Rufino, sócio da MZ Consult e diretor de operações e de relações com investidores da empresa. “Encontrar um homem branco ‘farialimer’ é muito mais fácil”, compara, citando os executivos que trabalham na avenida Faria Lima, em São Paulo.
Quando participa de feiras e encontros com profissionais de relações com investidores, o próprio Rufino se vê, na maioria das vezes, como o único negro presente. Estes eventos reúnem diversos analistas, gerentes e diretores, que futuramente podem se tornar os CFOs ou CEOs.
As grandes empresas têm a responsabilidade de serem influenciadores para as pequenas, diz Rachel Maia, conselheira e fundadora da RM Consulting. “As companhias estão buscando indicações para uma maior pluralidade.”
“Eu nem sequer imaginaria que conseguiria fazer o curso superior de engenharia. Minha intenção era terminar o curso técnico e trabalhar em Curitiba”, diz Fausto Augusto de Souza, representante dos funcionários no conselho de administração da Copel. Eleito em 2021, foi o único negro entre os candidatos. O executivo, que vivia no interior no Paraná, cursou engenharia elétrica depois de ingressar na companhia e na sequência fez mestrado. Agora, Souza busca ampliar sua especialização e tornar-se futuramente um conselheiro independente.
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