“Brasil está pronto para trabalhar menos”, diz dossiê que projeta 4,5 milhões de empregos com nova jornada

“Brasil está pronto para trabalhar menos”, diz dossiê que projeta 4,5 milhões de empregos com nova jornada

Publicado em 2 de março de 2026

Estudo coordenado por Marilane Teixeira, do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), sustenta que redução para 36 horas semanais elevaria produtividade, ampliaria postos formais e enfrentaria crise de adoecimento no trabalho.

A redução da jornada semanal de 44 para 36 horas pode gerar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil e elevar a produtividade em cerca de 4%, segundo levantamento da economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), vinculado ao IE/Unicamp (Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas).

Os dados integram o “Dossiê 6×1”, amplo diagnóstico sobre os impactos econômicos e sociais da mudança. O documento reúne 37 artigos assinados por 63 autores, entre professores, magistrados, auditores fiscais e dirigentes sindicais, além de 18 pareceristas.

Publicado simultaneamente em 19 sites, o dossiê sustenta que “o Brasil está pronto para trabalhar menos”, e contesta previsões de retração do PIB e aumento de insolvência empresarial.

Com base na Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o estudo mostra que:

  • 21 milhões trabalham além das 44 horas previstas na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho);
  • 76,3% dos ocupados superam 40 horas semanais;
  • 58,7% cumprem jornadas entre 40 e 44 horas; e
  • 18% trabalham entre 45 e 49 horas semanais.

“Existe redução em alguns setores, como educação e serviço público. Mas não é desse contingente que estamos falando. Se é possível em vários segmentos, por que comércio e serviços não podem avançar?”, questiona Teixeira.

Saúde, informalidade e desigualdade

O dossiê associa a jornada extensa ao aumento do adoecimento. “Em 2024 tivemos meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais no emprego formal”, afirma a pesquisadora.

Ela ressalta que o número não inclui a ampla parcela informal, frequentemente submetida a cargas ainda mais intensas.

O estudo também aponta:

  • 4,5 milhões de subocupados, que desejam trabalhar mais horas, mas não encontram vaga;
  • alto índice de informalidade com jornadas superiores ao limite legal; e
  • crescimento do banco de horas após a Reforma Trabalhista de 2017.

Para Teixeira, a redução da jornada não é apenas medida econômica, mas social. “O fim da escala 6×1 é um grito por direito ao lazer e à vida além do trabalho.”

Debate no Congresso

A discussão ocorre no âmbito da PEC 8/25, que propõe jornada de 36 horas semanais, com adoção do modelo 4×3 — 4 dias de trabalho e 3 de descanso —, extinguindo a escala 6×1. A proposta altera o artigo 7º da Constituição, que hoje fixa limite de 44 horas semanais.

Caso avance apenas a redução para 40 horas na escala 5×2, cerca de 45 milhões de trabalhadores seriam impactados. No modelo 4×3, o alcance pode chegar a 76 milhões.

A última mudança estrutural ocorreu com a Constituição de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas. “Nos anos 80 vivíamos hiperinflação, crise da dívida e desemprego alto. Ainda assim, a jornada foi reduzida. E não há estudo que comprove quebra generalizada ou aumento estrutural do desemprego”, afirma Teixeira.

Resistência empresarial e precedentes históricos

A economista critica o argumento de inviabilidade econômica. Segundo ela, projeções pessimistas também marcaram debates sobre salário mínimo, 13º salário e formalização do trabalho doméstico.

“O empresariado recorre historicamente ao Estado quando precisa de apoio, mas resiste a dividir ganhos estruturais”, afirma. Para a pesquisadora, os ganhos de produtividade — que cresceram em média 6,5% ao ano nos anos 1990 e 2000 — e os avanços tecnológicos criam condições para a mudança.

“Não é verdade que a economia funcionaria apenas 4 dias e pararia 3. Trata-se de reorganização produtiva, não de paralisação.”

Novo paradigma do trabalho

O Dossiê 6×1 sustenta que a redução da jornada pode combinar geração de emprego, aumento de produtividade, melhora na saúde do trabalhador e redução de desigualdades de gênero e raça.

Para os autores, o debate não é apenas contábil, mas civilizatório: trata-se de redefinir o lugar do trabalho na vida social brasileira quase 4 décadas após a última grande mudança constitucional.

Acesse o “Dossiê 6×1” do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), vinculado ao IE/Unicamp (Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas).

Fonte: Agência Diap
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