29 maio Brasil perde 4,9 milhões de vagas de fevereiro a abril
Brasil perde 4,9 milhões de vagas de fevereiro a abril
Desistência de procurar postos breca alta maior da taxa de desemprego.
Com o choque da covid-19 na economia levando a dispensas generalizadas entre os setores, o Brasil perdeu 4,9 milhões de ocupações entre fevereiro e abril deste ano, registrando quedas recordes tanto em relação aos três meses até janeiro (-5,2%) quanto ante igual período de 2019 (-3,4%). Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada ontem pelo IBGE. Para maio, a expectativa é que o mercado de trabalho continue sob pressão.
A população ocupada somou 89,2 milhões de pessoas no trimestre encerrado em abril, enquanto nos três meses até janeiro era de 94,2 milhões. Houve perda de ocupações no comércio (-1,2 milhão), construção (-885 mil), serviços domésticos (-727 mil), indústria (-685 mil) e outros serviços (-366 mil). Apenas o serviço público (municipal, estadual e federal) não reduziu os ocupados – contratou 287 mil. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados anteontem já antecipavam o quadro dramático do mercado de trabalho. Só em abril, foram fechados 860,5 mil postos formais, um recorde na série iniciada em 1992.

Apesar do cenário sem precedente recente, o avanço do desemprego entre fevereiro e abril, capturando um mês e meio de medidas de isolamento no país, foi menor do que o esperado. A taxa de desocupação no país subiu de 11,2% nos três meses até janeiro para 12,6% no trimestre até abril, atingindo 12,8 milhões de brasileiros. Trata-se da pior taxa
desde o primeiro trimestre do ano passado (12,7%), mas a mediana das estimativas colhidas pelo Valor Data apontava 13,3%.
Longe de trazer uma boa notícia, foi na verdade a desistência de trabalhadores de procurarem emprego em meio à pandemia que ajudou a segurar a taxa de desemprego no período. Embora 4,9 milhões de pessoas tenham perdido suas ocupações no trimestre até abril, a maioria não voltou a procurar trabalho, já que o contingente de pessoas desocupadas (que estão ativamente em busca de recolocação) aumentou “apenas” 898 mil no período.
“As pessoas pararam de procurar emprego. Elas não podem circular e sabem que, no geral, num cenário de pandemia, as empresas não estão ofertando vagas. Isso mascara a alta taxa de desemprego”, diz Cosmo Donato, economista da LCA Consultores.
O fenômeno é percebido na taxa de participação, que caiu para 59% no trimestre encerrado em abril, ante 61,7% no período até janeiro. A taxa mede a razão entre a população economicamente ativa (PEA) – pessoas com 15 ou mais anos empregadas ou procurando emprego – e a população em idade ativa (PIA), ou seja, com idade igual ou superior a 15 anos. Se a PEA fosse mantida no mesmo nível de fevereiro (antes da quarentena), a taxa de desemprego teria sido de 15,9% no mês passado, estima o Banco Safra em relatório. O número bate com as projeções de 16% do JPMorgan e do Itaú Unibanco em exercícios para atenuar o efeito da taxa de participação.
Segundo Luka Barbosa, economista do Itaú, a taxa de desemprego deixou de ser a métrica mais importante para acompanhar o mercado de trabalho nos próximos meses. Ele recomenda olhar para a taxa de desemprego ajustada sazonalmente, com taxa de participação constante, além da ocupação. “O mercado de trabalho piorou como se imaginava, com perda intensa de ocupações, e disseminadas”, diz.
Os dados do IBGE mostram que trabalhadores informais foram os mais atingidos em um primeiro momento. No trimestre até abril, 3,7 milhões de trabalhadores sem registro perderam suas ocupações na comparação com os três meses anteriores. Isso representa 76% das 4,9 milhões de ocupações totais perdidas. Mas o mercado formal também sofreu. O setor privado, por exemplo, dispensou 1,5 milhão com carteira.
A saída maior de trabalhadores informais do mercado ajuda a explicar por que o rendimento médio aumentou no trimestre até abril. “Você tira da amostra trabalhadores que, em geral, ganham menos”, diz Donato. O rendimento médio real habitualmente recebido em todos os trabalhos foi de R$ 2.425 no trimestre encerrado em abril, 2% acima do verificado no trimestre móvel anterior (R$ 2.378) e 2,5% ante o mesmo período do ano passado.
Outros recordes foram batidos em abril. O número de trabalhadores subutilizados (como é chamada a mão de obra “desperdiçada”) cresceu 8,7% no trimestre, na comparação com os três meses até janeiro, para 28,7 milhões de pessoas. Espécie de “taxa de desemprego ampliada”, a taxa de subutilização foi de 25,6% no trimestre até abril, também um recorde.
Considerando apenas as pessoas que não estão procurando emprego, mas que se dizem disponíveis para trabalhar (desalentados), o crescimento foi de 7% no trimestre até abril, ante os três meses até janeiro, para 5 milhões de pessoas. Em relação ao ano anterior, porém, houve virtual estabilidade, o que pode indicar que parte das pessoas não está nem declarando que gostaria de trabalhar.
Uma hipótese seria que o auxílio emergencial (R$ 600) está dando conta de recompor parte da renda familiar, diz Daniel Duque, pesquisador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). Outra é as pessoas estarem associando trabalhar ao risco de contágio.
Para maio, Barbosa, do Itaú, espera mais destruição de ocupações, embora em ritmo menor. Ele diz acreditar que demissões na indústria possam mostrar redução ou estabilidade, enquanto o setor serviços deve continuar com cortes mais expressivos.
Embora os programas temporários do governo para suspensão de contrato e redução de salário/jornada possam ter ajudado a segurar parte do desemprego no setor formal no mês passado, para maio a tendência é que as medidas percam esse poder, avalia Donato, da LCA. “Em abril, a perspectiva ainda não era tão desfavorável em relação ao prolongamento da pandemia, o governo tinha acabado de anunciar as medidas de flexibilização para os contratos de trabalho. A conjuntura permitiu às empresas que segurassem parcela dos empregos formais”, afirma.
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