Brasil tem 4,8 milhões de pessoas em desalento

Brasil tem 4,8 milhões de pessoas em desalento

Publicado em 25 de março de 2022

Incidência é maior entre grupos mais vulneráveis e no Nordeste.

A melhora do mercado de trabalho brasileiro ao longo de 2021 – com geração de vagas, embora com remuneração média menor – ajudou a reduzir o número dos chamados desalentados no Brasil, pessoas que desistem de procurar trabalho por acreditar que não vão conseguir encontrar. Mas o país ainda tem 4,8 milhões de pessoas que não procuram emprego, pessoas que estão disponíveis para trabalhar caso recebam uma oferta, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O número, que chegou ao recorde de 5,9 milhões no primeiro trimestre de 2021, caiu 19% até o quarto trimestre. Desde 2017, no entanto, se encontra acima dos 4 milhões de pessoas. O grupo corresponde hoje a quase 3% da população em idade de trabalhar (2,78%), na média nacional.

Para além do panorama geral do país, chama a atenção a incidência maior do desalento entre jovens, entre aqueles com menor grau de escolaridade, entre negros e também entre mulheres, como mostra levantamento feito com exclusividade a pedido do Valor pela consultoria IDados.

Na faixa etária entre 14 e 24 anos, essa parcela de desalentados é de 4,95% da população em idade de trabalhar. O índice é maior que a média (2,78%) e também que as faixas entre 25 e 44 anos (2,51%) e entre 45 e 64 anos (2,43%).

No recorte por escolaridade, a proporção é de 3,73% entre aqueles sem instrução e de 3,80% entre os que têm ensino fundamental completo, realidade bem distinta de quem tem ensino médio completo (2,34%) e dos que têm ensino superior completo (0,71%).

As desigualdades também aparecem na análise por raça e gênero. A incidência é de 3,68% entre negros (pretos e pardos), frente a 1,64% entre brancos, e de 3,06% entre mulheres, ante 2,48% entre homens.

“O desalento é uma situação muito preocupante, mostra as pessoas que não estão conseguindo se inserir no mercado de trabalho e acabam desistindo. Muitos podem vir de uma situação de desemprego de longa duração ou por causa da baixa escolaridade não acreditam que têm chances no mercado” afirma o responsável pelo levantamento, Bruno Ottoni, que também é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisador líder da área de mercado de trabalho da IDados.

Mais do que um problema provocado pela pandemia, destaca ele, o grau elevado de desalento no momento é uma herança de uma recuperação fraca da economia após a recessão dos anos de 2015 e 2016. “A recuperação do mercado do trabalho foi tão incipiente, com um crescimento econômico muito baixo, que não foi suficiente para se reduzir o desalento à situação anterior”, diz.

Um dos cuidados ao se analisar o fenômeno do desalento é evitar a ideia de que as pessoas desistiram de trabalhar, diz a economista Ana Georgina da Silva Dias, supervisora técnica regional do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) na Bahia. Ela lembra que a busca por trabalho demanda recursos, como para o transporte, que se soma ao desânimo por causa da demora na colocação.

“Há um número gigantesco de pessoas desalentadas. Há um contingente de miseráveis e também muitos estão desempregados por muito tempo, anos até. Isso cria um desânimo, as pessoas perdem a esperança de se colocar. E aí chega uma hora em que se perdem as condições materiais para a busca por trabalho. Começa a faltar dinheiro para o transporte. Então embora precisem às vezes as pessoas acabam saindo da força de trabalho”, pondera a economista, acrescentando que muitos dos grupos mais vulneráveis e mais atingidos pelo desalento vivem em regiões periféricas, que precisam gastar mais para chegar a bairros com mais oferta de emprego.

Professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Diana Lúcia Gonzaga da Silva também vê o desalento como “sinalizador ruim da dinâmica da economia, que não dá as respostas que o mercado de trabalha precisa”. No caso dos desalentados, aponta, pode haver situações de quem faz algum bico para se manter de maneira precária, mas não acredita em oportunidades melhores e por isso a desistência da busca por trabalho.

“O desalento tem um perfil muito específico, de trabalhadores com baixa qualificação, dos mais jovens, por causa da falta de experiência, e também marcado por outras desigualdades, como de raça, de gênero e regional. Temos um número significativo de desalentados, situação que vem se apresentando de forma persistente nos últimos anos”, diz ela, que é coordenadora do Grupo de Pesquisas em Economia do Trabalho da UFBA.

O caráter regional do desalento chama atenção nos dados do IBGE. A grande maioria (2,86 milhões, ou 59,9%) dos desalentados no país estão no Nordeste, embora a região responda por pouco mais de um quarto (26,5%) da população em idade de trabalhar no país (45,8 milhões dos 172,2 milhões de todo o país. O Sudeste, por outro lado, reúne 21,6% dos desalentados (1,03 milhão) ainda que represente 43% da população em idade de trabalhar.

Na análise por Estados, a Bahia tem o maior número de pessoas desalentadas (682 mil, ou 14,2% do contingente nacional). Em seguida Maranhão, com 557 mil; São Paulo (451 mil), Minas Gerais (382 mil) e Ceará (380 mil). Proporcionalmente à força de trabalho, as piores situações estão em Maranhão (18,8%), Alagoas (15,9%) e Piauí (13,7%).

Ao avaliar o fenômeno, a professora da UFBA lembra que as dificuldades no mercado de trabalho são persistentes e desiguais, citando as taxas maiores de desemprego e a maior informalidade nas regiões Nordeste e Norte, o que também se reflete no desalento.

“Existe uma concentração das empresas nas regiões que já têm melhor estrutura produtiva, seja física, como a presença de estradas e acesso a fornecedores, ou a de mão de obra, com trabalhadores mais qualificados. É um mecanismo de autorreforço. As regiões que se desenvolveram mais, acabaram se tornando mais atrativas para as empresas, que geram mais renda. E as demais, como Nordeste e Norte, acabam perdendo”, explica Diana.

Por conta disso, ela defende a importância das políticas públicas para reduzir a concentração produtiva nas regiões mais dinâmicas do país e permitir oportunidades para outras regiões do território. “É preciso quebrar essa tendência. Por isso se precisa pensar em políticas públicas para que as empresas podem se espalhar pelo território, para se reduzir a concentração produtiva nas regiões mais desenvolvidas”, diz Diana.

Fonte: Valor Econômico
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