20 out Caged mostra evidências de subnotificação de demissões, aponta Ibre
Caged mostra evidências de subnotificação de demissões, aponta Ibre
Bom resultado da geração de empregos formais nos últimos dois meses pode não ser o melhor termômetro para avaliar o mercado de trabalho, segundo o pesquisador Daniel Duque.
O bom resultado da geração de empregos formais apontado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) nos últimos dois meses pode não ser o melhor termômetro para avaliar o mercado de trabalho, que segue frágil, alerta o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Segundo o pesquisador Daniel Duque, há evidências consistentes de que pode haver subnotificação de dispensas por parte das empresas.
Em post publicado ontem no Blog do Ibre/FGV, Duque afirma que a discrepância entre a criação de vagas com carteira assinada medida nas pesquisas do IBGE (Pnad Contínua e Pnad Covid-19) e no Caged, que sempre existiu, alcançou níveis nunca registrados em julho e agosto.
Enquanto, pelos dados do Ministério da Economia, o saldo líquido entre admissões e demissões foi positivo em mais de 150 mil nos dois meses – maior nível desde dezembro de 2011 –, os levantamentos do IBGE mostraram redução das ocupações formais no período, com ligeira recuperação em agosto, nota Duque. “Ainda que tais pesquisas jamais tenham mostrado total equivalência, a distância entre elas aumentou expressivamente durante a pandemia.”
Decompondo o saldo do Caged por admissões e desligamentos, chama atenção o comportamento negativo desse último indicador em meio à pandemia, destaca o pesquisador. “Após sensível alta entre março e abril, elas despencaram a partir de maio, chegando ao menor nível em julho, com apenas parcial recuperação em agosto.”
Mesmo com o aumento das dispensas naquele mês, a média mensal de desligamentos de junho a agosto ficou em 950 mil, observa ele, número que seria baixo. A média de 2019, por exemplo, foi de 1,25 milhão de demissões por mês.
Uma primeira evidência de que as empresas podem estar subnotificando demissões, segundo o economista do Ibre/FGV, está no descolamento entre a trajetória dos pedidos de seguro-desemprego e das demissões. “O número de pedidos de seguro de desemprego, que cresceu expressivamente mais quando acumulado nos últimos meses em relação aos desligamentos do Caged, sugere mais demissões do que reportado na segunda pesquisa.”
Outro indício que reforça essa percepção, segundo Duque, é a grande queda do número de estabelecimentos reportando movimentações de empregados a partir de abril. De janeiro a março, eram cerca de 850 mil empresas que mandavam informações ao Caged, número que caiu para cerca de 550 mil a partir de abril e se recuperou apenas em parte nos últimos meses, chegando a quase 610 mil.
Com a pandemia, muitas empresas fecharam as portas, observa Duque, o que pode ter afetado as estatísticas do Caged. “Uma empresa que fechou ou ‘hibernou’ tem grande chance de ter realizado demissões, sem reportá-las ao governo”, afirma ele.
“Admitindo que tais empresas não realizaram admissões, isso implicaria que o saldo das empresas que não reportaram movimentações seria negativo.”
Com isso, em sua avaliação, os números do Caged podem não ser o retrato mais fidedigno dos dados de emprego no momento. “Eles não seriam evidência de um mercado de trabalho mais forte”, resume Duque, para quem as perdas no mercado de trabalho decorridas em meio à crise atual não devem ser recuperadas tão cedo. “Já começamos a ver alguma recuperação no mercado de trabalho informal, mas ainda vamos demorar para voltar ao cenário pré-pandemia”.
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