30 out Caged surpreende com criação de 313 mil vagas
Caged surpreende com criação de 313 mil vagas
Para economistas, mercado de trabalho ainda reflete medidas de proteção do emprego na pandemia.
O mercado de trabalho abriu em setembro 313.564 vagas líquidas com carteira assinada, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgado ontem pelo Ministério da Economia. O número ficou acima da mediana das expectativas, de 227,9 mil vagas, coletada pelo Valor Data junto a 20 instituições financeiras e consultorias econômicas, com intervalo de projeções, todas positivas, entre 125 mil e 301,5 mil postos. Para economistas, o grosso das demissões previstas deste ano já aconteceu, e a recuperação dos empregos continua a ser sustentada, em boa dose, pelas medidas de proteção do emprego do governo federal, com impulso de uma retomada das atividades mais acelerada nas grandes cidades.
“A recuperação econômica, com renovação do auxílio emergencial e do BEm [Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda], além da provável retomada do consumo da classe média, que vinha segurando seus gastos com serviços, explicam esse número forte”, afirmou Daniel Duque, pesquisador do Ibre/FGV. Para ele, admissões pela primeira vez ocorreram em nível próximo ao de antes da pandemia, o que demonstra que já se pode falar em retomada econômica mais sustentada.
Em post no blog do Ibre/FGV, Duque afirmara, dias atrás, que via evidências de subnotificação de dispensas por parte das empresas. Segundo ele, a discrepância entre a criação de vagas CLT medida nas pesquisas do IBGE (Pnad Contínua e Pnad Covid-19) e no Caged, que sempre existiu, alcançou níveis nunca registrados em junho e julho.
Contudo, ponderou ontem, essas discrepâncias tendem se atenuar, porque a Pnad Covid-19 vem apontando para a recuperação do mercado. “A impressão que tenho é que o emprego deve começar a aumentar na Pnad Contínua, porque a Pnad Covid já mostra isso desde agosto. O que havia para ocorrer de desligamentos já aconteceu. As empresas estão, de fato, retomando as atividades e rapidamente.”
Mas números positivos do mercado formal se devem, principalmente, aos programas de proteção do emprego lançados na pandemia, pontuou Cosmo Donato, da LCA Consultores. Apesar de não ter ocorrido neste ano, ponderou o economista, ao comentar os resultados de setembro, parte dessas demissões foi apenas postergada.
A pesquisa do Caged mostrou que houve abertura em todos os cinco setores da economia em setembro. No mês passado, o saldo ficou positivo na agropecuária (7.751), indústria geral (110.868), construção (45.429), comércio (62.239) e serviços (80.481). No acumulado do ano, três setores têm saldo positivo: agropecuária (102.467), construção (102.108) e indústria (689). Ficaram no negativo serviços (418.040) e comércio (345.677).
“Muito do que essas medidas conseguiram proteger em 2020 está no risco em 2021 e 2022. Não estamos falando que essas demissões foram evitadas, boa parte delas foi postergada”, observou Donato.
Segundo ele, as medidas de proteção do emprego colocaram o número de desligamentos num nível muito abaixo até da média histórica do próprio Caged. “Gosto de frisar isso, porque estamos falando de média histórica anterior à pandemia.”
Com isso, acrescentou Donato, parcela significativa de contratos ainda está sob algum tipo de proteção e estabilidade. “Quando olhamos os números do programa do governo, vemos na casa de 9 milhões de trabalhadores protegidos. É parcela muito significativa do estoque total, que no pré-crise era de cerca de 38 milhões. É um quarto deles sob proteção. Isso faz até com que o próprio número de demissões fique abaixo do pré-pandemia, algo que era até impensável.”
Para ele, apesar de as admissões estarem se restabelecendo antes dos desligamentos, pela retomada das atividades, haverá aceleração das demissões, à medida que os efeitos dos programas de proteção forem desaparecendo.
Na leitura de Lisandra Barbero, economista da XP Investimentos, a melhora no saldo de empregos com carteira assinada continua a ser influenciada pelo aumento das admissões, especialmente temporárias e parciais. “Mas o aumento gradual do número de demissões continua a chamar a atenção, pois sinaliza que, após o prazo de validade dos acordos do BEm celebrados no início da pandemia, algumas empresas estão optando por demitir os funcionários, ao invés de readmiti-los em tempo integral”, ponderou.
Para a economista da XP, a possibilidade de que o término dos acordos do BEm seja revertido em mais demissões nos próximos meses é o principal risco, mas as perspectivas para o ritmo de recuperação do mercado formal ainda são positivas. “O que já é sinalizado pela melhora do saldo de empregos no setor de serviços em setembro”, comentou Lisandra.
De acordo com Helcio Takeda, economista da Pezco Economics, um dos fatores que podem estar influenciando o descolamento dos dados do Caged e da Pnad é que, por medo de haver dificuldades na recolocação, a rotatividade pode estar menor. “As pessoas podem estar se desligando menos de seus empregos em busca de outras oportunidades.”
“A atividade industrial está mais robusta que o comércio, devido à recomposição dos estoques, principalmente, e para a produção insumos”, complementou Takeda, para observar que o efeito do câmbio alto reduz encomendas externas.
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