Caged surpreende e sugere desaceleração mais lenta

Caged surpreende e sugere desaceleração mais lenta

Publicado em 10 de março de 2023

Para analistas, mesmo com 83 mil vagas abertas tendência será mantida.

O mercado de trabalho brasileiro registrou abertura líquida de 83.297 vagas com carteira assinada em janeiro, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho. O número representa o saldo entre 1.874.226 admissões contra 1.790.929 desligamentos. O resultado veio acima da mediana das estimativas coletadas pelo Valor Data, que apontava criação de 70 mil vagas. Economistas destacam a surpresa positiva, mas seguem indicando que o mercado de trabalho vai desacelerar este ano, ainda que em ritmo pouco mais lento.

“Enxergo o resultado como uma pequena surpresa positiva”, comenta o economista da LCA Consultores Bruno Imaizumi. “Mas vemos um cenário bem desafiador à frente, com taxa de juros elevada e crescimento econômico mais baixo. Por isso, nossa projeção para geração de empregos em todo 2023 está em 1,1 milhão.” No passado, segundo o Caged, foram gerados 2 milhões de empregos formais.

O economista do BV Christian Meduna explica que, apesar da surpresa positiva em janeiro, um resultado bom já era esperado, porém não muda a perspectiva da desaceleração econômica atingir o mercado de trabalho. “Já tínhamos uma expectativa de que o mês de dezembro estava um pouco deslocado em relação ao conjunto de dados do mercado de trabalho. Não se justificava aquele número tão fraco. Então, já era aguardado que houvesse uma melhora no resultado de janeiro, que acabou ficando acima do esperado”, disse Meduna, lembrando que em dezembro o Caged apontou a perda de 83.297 postos com carteira assina.

“Contudo, o fato do número de janeiro ter ficado acima do esperado não tira a perspectiva de que veremos uma desaceleração do mercado de trabalho mais à frente. Mas será numa velocidade mais gradual do que sugeria o resultado de dezembro”, complementa.

Em janeiro, quatro setores da economia tiveram abertura líquida de vagas. Serviços liderou a geração, com 40.686 novos postos; agropecuária, produção florestal, pesca e aquicultura criou 23.147 empregos; indústria geral, 34.023; e construção, outros 38.965. No entanto, o saldo ficou negativo em comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas, com 53.524 vagas fechadas. “Esses desligamentos no comércio foram por efeito sazonal. Os trabalhadores temporários contratados no fim do ano são desligados nessa época”, explica Imaizumi.

Ele destaca os números positivos principalmente na construção civil e na indústria por serem setores mais impactados pela alta taxa de juros – atualmente a Selic está em 13,75%.

Matheus Pizzani, economista da CM Capital, observou que foi a geração de empregos formais mais baixa para um mês de janeiro desde 2019. Para ele, o desempenho do mercado de trabalho reforça perspectivas importantes acerca do nível de atividade do país no início de 2023, “como o fato de o setor de serviços seguir como principal gerador de empregos, além do fato de que a demanda por mão de obra pressionada se reflete em salários mais elevados, algo que pode ter desenvolvimentos negativos em termos de inflação”.

Ele também destaca que o setor industrial, mesmo com criação de vagas no período (34 mil), vem perdendo participação relativa em termos de renda real, ficando cada vez mais próximo do setor de construção, que, apesar da boa capacidade de incorporação de mão de obra, possui características distintas no campo da produtividade.

“Este pode ser um fator prejudicial para o estabelecimento de uma trajetória de crescimento sustentável no médio e longo prazo para o país, uma vez que sugere cada vez menos incentivos para especialização e aumento da produtividade por parte dos agentes que integram o mercado de trabalho.”

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, mostrou preocupação com a perda de tração na geração de vagas, culpando a taxa de juros e prometendo políticas públicas para manter o mercado aquecido. “Há 14 mil obras paradas”, disse.

O salário médio de admissão com carteira assinada ficou em R$ 2.012,78 em janeiro. Em dezembro, estava em R$ 1.923,97. O de demissão foi de R$ 2.034,98 em janeiro (R$ 2.048,08 em dezembro).

Fonte: Valor Econômico
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