18 jan Capacidade de adaptação à IA define futuro do emprego
Capacidade de adaptação à IA define futuro do emprego
Mulheres, trabalhadores com mais educação e os mais jovens no Brasil são os mais expostos às inovações, mas também os mais bem colocados para encontrar emprego à sombra delas.
A revolução da Inteligência Artificial se distingue das anteriores, como a da automação acelerada provocada desenvolvimento da informática. Ao contrário delas, que eliminavam tarefas repetitivas, ou etapas que se tornaram obsoletas em um processo produtivo, atingindo duramente escalões intermediários e os de baixa escolaridade, a IA põe em xeque também carreiras e profissões intensivas em conhecimento. Algoritmos podem realizar tarefas antes a cargo de técnicos e especialistas de alta qualificação. O avanço da IA afetará 40% da mão de obra global e 41% da do Brasil, segundo estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas este não é o dado mais importante. A capacidade de migrar para setores complementares aos altamente expostos à IA determinará a nova configuração do trabalho nos países. “A facilidade em obter habilidades relacionadas a IA determinará o impacto final dessa tecnologia”.
O FMI criou um índice que revela o estado de preparação dos países para a nova tecnologia, incluindo 32 economias avançadas, 56 emergentes e 37 em desenvolvimento. O Brasil não está mal em uma comparação de 30 países em diferentes estágios de desenvolvimento – está na exata média, na 15ª posição em 30 países. O índice considera quatro dimensões: infraestrutura digital, inovação-integração, capital humano, e regulação e ética. É conhecido que o país tem séria defasagem na disseminação massiva de habilidades digitais e possui baixa flexibilidade no mercado de trabalho. Outro handicap sério envolve inovação e integração: baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento, alta tarifa média e muitas barreiras não tarifárias.
Os economistas do FMI argumentam com uma “escala” de exposição que desmente a suposição de que a IA vai destruir em massa os empregos menos qualificados e os da média administração. Os países mais expostos à nova tecnologia são as economias avançadas. Mas há diferentes maneiras de estar exposto. Os países ricos têm a maior parte das ocupações com alta exposição, pois são intensivas em conhecimento, mas também, e por causa disso, sua mão de obra tem mais facilidade de se adaptar às atividades complementares à IA. Na média das economias avançadas, o percentual dos trabalhadores altamente exposta é de 27%, ante a média de 16% nos países emergentes.
Mas há também a categoria de alta exposição com baixa complementaridade, o que significa destruição de ocupações e empregos. A proporção dos empregos nessa condição é de 33% nos países ricos e mais baixa, de 24%, nos emergentes. Isto não faria muito sentido não fosse a terceira categoria, a da baixa exposição à tecnologia, que no Brasil, por exemplo, é de 60% e abrange todo o setor informal da economia, vasta parcela dos serviços e de ocupações de baixa qualificação. O Brasil tem então 20% do total de seus empregados sujeitos à alta exposição às mudanças, mas com capacidade de encontrar ocupação a elas ligadas, e 20% com baixa complementaridade, onde mora o perigo da extinção de ocupações.
Isto significa que na primeira onda da revolução da IA o país será menos afetado, simplesmente pelo seu atraso econômico. Mas outro efeito da IA o constrangerá: a distância entre ele e os países ricos aumentará, abrindo um fosso que pode condenar o Brasil a patinar no pântano da baixa produtividade por muito tempo, se não para sempre. “O impacto líquido no emprego dependerá da capacidade do país em inovar, adotar e se adaptar à IA”, registra o estudo.
Mulheres, trabalhadores com mais educação e os mais jovens no Brasil – e no mundo – são os mais expostos às inovações, mas também os mais bem colocados para encontrar emprego à sombra delas. Na ponta oposta estão os trabalhadores mais velhos e os menos qualificados. Além disso, quanto menor a renda do trabalhador exposto à tecnologia, menor a chance de permanecer ocupado. Já os situados entre os 20% mais bem remunerados têm mais chances de sucesso.
O estudo mostra que a adoção da IA aumenta as rendas do capital e aprofunda a desigualdade de riqueza. Mas há nuances. “Simulações sugerem que altas desigualdades iniciais de renda e de riqueza podem exacerbar a disparidade de riqueza, porque os ganhos associados à IA se acumulam no topo da renda”, aponta. Em economias com baixa exposição à tecnologia, o impacto direto é menos intenso. Os economistas se concentraram nos efeitos sobre ocupação, e deixaram em segundo plano os benefícios da tecnologia, relacionados brevemente. Ela pode aliviar a falta de pessoas especializadas nas áreas de saúde e educação, propiciando melhores serviços públicos, além de aumentar a produtividade e competitividade em vários setores da economia, entre muitas outras.
Preocupações de especialistas brasileiros têm pontos de contato com as do FMI. Estudo da Academia Brasileira de Ciências (“Recomendações para o avanço da inteligência artificial no Brasil”) é enfático ao pregar a urgência de investimentos adequados e políticas públicas “duradouras e apropriadas”. Sem isso, “o quadro global de IA pode empurrar o Brasil para um declínio tecnológico sem precedentes”, adverte. É uma ameaça real para uma economia fechada e não integrada às cadeias globais de produção.
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