Casos trabalhistas e desportivos ganham destaque entre os bilhões de reais em disputa na arbitragem

Casos trabalhistas e desportivos ganham destaque entre os bilhões de reais em disputa na arbitragem

Publicado em 29 de novembro de 2024
Por Davi Vittorazzi

Pesquisa mostra, além da diversidade de temas, uma leve queda no volume de processos em 2023.

Os conflitos trabalhistas e desportivos estão sendo cada vez mais levados à arbitragem. É o que mostra a pesquisa “Arbitragem em Números e Valores”, feita em oito das principais câmaras do país. Apesar dos litígios societários, de construção civil e energia ainda predominarem, cresce a diversidade de temas resolvidos por meio desse método alternativo para resolução de conflitos. São bilhões de reais em disputas.

A mais recente edição da pesquisa, finalizada neste mês pela advogada e professora Selma Lemes, refere-se às atividades de 2022 e 2023. O estudo mostra, além dessa diversidade, uma leve queda nos volumes de arbitragens iniciadas e em andamento, assim como nos valores totais envolvidos.

Para Selma Lemes, é um movimento natural e não representa diminuição no uso da arbitragem. “Significa que houve menos conflitos. As cláusulas compromissórias são instrumentos latentes nos contratos e somente são acionadas diante de controvérsias contratuais”, diz.

“Arbitragens que adicionam perícia costumam ter um ano a mais”

No ano passado, estavam em andamento, segundo a pesquisa, um total de 1.035 arbitragens, com a entrada de 318 novos casos. Somavam R$ 29 bilhões. Em 2022, eram um total de 1.116 processos, com 336 novas disputas. O valor total chegou a R$ 40 bilhões.

Pode-se reputar esse movimento, segundo o estudo, à diminuição de conflitos com a administração pública direta e indireta em contratos de concessão, parcerias púbico-privadas (PPP) e parcerias públicas de investimentos (PPI). Essas disputas, porém, em termos de valores, ainda representam uma fatia importante: em 2023, 26% do montante relativo às arbitragens iniciadas.

Porém, começam a ganhar espaço as arbitragens trabalhistas e desportivas. No Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA), as arbitragens desportivas representaram 47,83% dos procedimentos no ano de 2023. Enquanto no Centro de Arbitragem e Mediação da Amcham Brasil (CAM Amcham), as matérias trabalhistas somaram 53,84% dos casos no mesmo ano.

Para os casos trabalhistas, Selma diz que é usada a arbitragem “expedita”. “Foge [o método] um pouco do rito mais complexo e vai para um rito mais acelerado e simples. Geralmente é por árbitro único. Ela tem custos menores”, afirma ela, destacando que a arbitragem trabalhista é fruto da alteração na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por meio da Lei nº 13.467/2017, que introduziu o artigo 507-A, permitindo a adoção do método.

As arbitragens desportivas também passaram a ganhar espaço, especialmente a partir de 2021. O CBMA firmou convênios com entidades esportivas, como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). São geralmente conflitos referentes a contratos envolvendo atletas e clubes ou comerciais (licença publicitária e patrocínio esportivo).

Antes desses convênios, muitas dessas disputas eram levadas à Corte de Arbitragem do Esporte (Court of Arbitration for Sport- CAS), sediada em Lausanne, na Suíça. A câmara foi fundada em 1984 pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

“Essa área é extremamente promissora para a arbitragem, oferecendo rito próprio, com árbitros especializados e com decisões exaradas em tempo adequado”, diz a advogada Selma Lemes.

Apesar de ser considerada mais rápida para resolver conflitos do que o Judiciário, o tempo de tramitação de procedimentos de arbitragem cresceu 20%. Segundo a pesquisa, o tempo médio de tramitação passou de 19,87 meses, no ano de 2022, para 23,91 meses no ano passado.

Mariana Souza, presidente do CBMA, argumenta que, embora o tempo médio das tramitações nas câmaras tenha aumentado, esse período ainda é menor do que a média do Judiciário, de cerca de quatro anos e três meses, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Ela considera que o problema está nos conflitos que se alongam por muitos anos e acabam elevando a média.

“A gente tem percebido alguns gargalos, como prazos acordados pelas próprias partes, juntamente ao tribunal, e que acabam sendo muito longos. Temos verificado nas arbitragens, às vezes, um ano e meio ou dois anos só na fase inicial, postulatória”, diz Mariana. Ela complementa que as arbitragens que adicionam a perícia costumam aumentar ainda um ano a mais, devido à necessidade de se analisar provas.

De acordo com a pesquisa “Arbitragem em Números e Valores”, a duração média da prova técnica foi de 11 meses (10,85 meses). O menor prazo foi de 4,5 meses e o maior de 17 meses. O menor valor pago para a execução da prova técnica foi de R$ 15 mil e o maior foi de quase R$ 2,1 milhões.

Mas mesmo em procedimentos considerados mais longos, a arbitragem é mais vantajosa, segundo a diretora-executiva da Câmara FGV de Mediação e Arbitragem, Juliana Loss. “Existem vários fatores positivos para o uso da arbitragem”, diz ela, destacando a confidencialidade e a presença de árbitros técnicos. “E os advogados que atuam na área também são mais especializados.”

O recorde de mulheres árbitras presidentes no país é outro dado da pesquisa que pode ser considerado relevante. Selma Lemes pontua que, no ano passado, foi a primeira vez que o número superou a quantidade de homens. No entanto, ainda há um déficit de mulheres atuando como árbitras. No ano passado, 35% foram indicadas.

Mariana Souza frisa que tem adotado políticas inclusivas e recomenda, durante a formação do tribunal arbitral, que seja considerada a diversidade de raça e gênero na escolha de presidente. “Em quase 60% dos casos [no CBMA], houve a indicação de mulheres para os tribunais. Então, está surtindo efeito na prática.”

Fonte: Valor Econômico
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