Cidades maiores absorvem 70% dos empregos em serviços

Cidades maiores absorvem 70% dos empregos em serviços

Publicado em 11 de abril de 2023

O impulso da atividade no setor de serviços em 2022 e, consequentemente, a geração de empregos favoreceu mais as grandes cidades do que os municípios de menor porte, ainda que o setor tenha um peso proporcional importante no mercado de trabalho formal em todas as faixas populacionais. Com a perspectiva de enfraquecimento da atividade em 2023, mas ainda alguma resiliência do setor, cidades mais ligadas aos serviços, sobretudo os essenciais, podem ter um amortecedor, mesmo que limitado, para o baque sobre os empregos.

Mais da metade (51,7%) das vagas com carteira assinada criadas em serviços no ano passado estava em cidades com mais de 500 mil habitantes, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Juntando também os municípios com mais de 200 mil habitantes, essa representação chega a 68,7%.

Em nenhum outro setor da economia essa concentração é tão grande. Cidades com mais de 200 mil habitantes reuniram 59,4% dos postos formais na construção, 55,3% no comércio e 41,3% na indústria. A agropecuária tem uma dinâmica inversa, com 56,5% dos novos empregos com carteira concentrados em municípios menores, de até 25 mil habitantes.

Internamente em cada faixa populacional, o setor de serviços tem o maior peso entre os setores na geração de vagas formais em cidades de todos os portes. “Houve, nos últimos anos, um fenômeno de expansão das cidades de porte médio pelo país inteiro e ocorreu um aumento da demanda por serviços”, argumenta Jorge Jatobá, sócio-diretor da Ceplan Consultoria.

Mas a participação dos serviços na criação de empregos dentro de uma mesma faixa populacional varia de 40,5% em municípios com até 10 mil habitantes a 69,4% naqueles com mais de 500 mil. “Na medida em que avançamos no porte do município, há ganho de relevância gradual dos serviços no emprego formal”, observa Fabio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A concentração de novos postos de trabalho em serviços nas cidades maiores pode ser explicada pelo próprio efeito da aglomeração populacional, já que a vida nas grandes cidades requer atividades mais variadas, diz Juliana Bacelar, professora do departamento de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pesquisadora do Observatório das Metrópoles no núcleo de Natal.

“Serviços de alojamento, de informação e comunicação e atividades profissionais, científicas e técnicas, como serviços de contabilidade, engenharia e advocacia, puxaram o setor. E esses serviços são mais demandados em cidades maiores”, afirma Bentes. Bacelar reforça que serviços mais especializados e intensivos em conhecimento ficam concentrados nos centros urbanos de maior porte.

“Já os serviços das cidades pequenas são mais os essenciais, ligados à administração pública e ao dia a dia”, completa Bentes.

Levantamento feito pelo economista a partir dos microdados do Caged mostra que, em cidades com mais de 500 mil habitantes, 10,3% das vagas com carteira criadas em 2022 estavam no segmento de alojamento e alimentação, enquanto em cidades com até 25 mil habitantes, essa participação cai pela metade. Já na agropecuária, houve contribuição negativa ao emprego formal em 2022 para cidades acima de 500 mil habitantes, mas nos municípios com até 10 mil habitantes a participação foi de 19,6% e, para aqueles com 10 mil a 25 mil, de 14,7%.

“Isso reflete muito a dinâmica da nossa agropecuária, que é interiorizada e dinamiza sobretudo pequenos municípios”, afirma Bacelar. Mas mesmo onde a agricultura cresce, a demanda por serviços também é estimulada, nota Jatobá. “Tem serviços de veterinária, de internet. Começam a surgir muitas startups do agro”, afirma.

O emprego na construção apresenta desempenho mais disperso pelos portes de cidade e relacionado a dinâmicas econômicas locais, segundo Bacelar. O comércio, por sua vez, acaba sendo relativamente importante na geração de empregos, em torno de 20% na maioria dos portes de municípios, exceto nas grandes cidades, aponta.

“O processo de digitalização do consumo faz com que a demanda por trabalhadores no comércio seja menor do que no passado, mas essa realidade é mais forte nas grandes cidades. Nas pequenas, muito focadas no essencial, como supermercados e farmácias, a demanda por empregados acaba sendo proporcionalmente um pouco maior”, diz Bentes.

Segundo Bacelar, a recuperação do consumo das famílias, ligada, entre outros fatores, à ampliação dos programas sociais, também pode ajudar a explicar a maior participação da geração de empregos no comércio em pequenas e médias cidades. “Nas cidades menores, a importância desses benefícios sociais tende a ser maior e dinamizar mais o comércio local.”

O setor de serviços vem ganhando participação em todas as economias de mercado, observa Bentes. “É um fenômeno global, a agregação de valor está migrando cada vez mais para os serviços”, afirma. No Brasil, nas duas últimas décadas, a participação dos serviços na economia, em relação ao valor agregado, saiu de pouco mais de 66%, chegou perto de 74% antes da pandemia, que atingiu em cheio o setor, e agora está em torno de 68%, aponta Bentes.

“Essa relação que a gente captura no mercado de trabalho é porque o setor de serviços vem puxando o crescimento da economia no país”, afirma. Nos últimos 20 anos, nota Bentes, o PIB brasileiro avançou 52%; o agronegócio, que é muito forte no país, cresceu 63%, mas os serviços e o comércio também superaram o ritmo da economia como um todo, com avanços de 59% e 54%, respectivamente.

As cidades vão reagir proporcionalmente ao peso dos serviços no seu mercado de trabalho à perspectiva de uma desaceleração do setor, diz Jabotá. “Aqueles municípios que têm uma estrutura econômica em que o peso dos segmentos mais sensíveis à renda é maior vão sentir mais a retração. Serviços mais sofisticados e caros são mais sensíveis à renda. É possível também que a demanda por cabeleireiro, por exemplo, diminua, porque não são essenciais.”

Para Bentes, no entanto, como a indústria caminha para crescimento zero neste ano e os serviços devem crescer, de acordo com as suas projeções, o mercado de trabalho em municípios mais dependentes da manufatura deve sentir mais a desaceleração da economia. “Municípios pequenos onde o comércio se destaca tendem a sofrer mais também por causa da baixa perspectiva de crescimento do varejo com juros em patamares elevados”, acrescenta.

Fonte: Valor Econômico
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