Claudia Goldin recebe Nobel de Economia por estudos sobre mulheres no mercado de trabalho

Claudia Goldin recebe Nobel de Economia por estudos sobre mulheres no mercado de trabalho

Publicado em 10 de outubro de 2023

Pesquisadora americana, de Harvard, é definida como uma ‘detetive’ obstinada.

 A professora Claudia Goldin, da Universidade de Harvard, ganhou o prêmio Nobel de Economia, por avanços na compreensão dos resultados obtidos pelas mulheres no mercado de trabalho.

O comitê que concede o prêmio, conhecido oficialmente como o Sveriges Riskbank Prize in Economic Sciences, em memória de Alfred Nobel, disse que a economista “forneceu a primeira descrição abrangente dos vencimentos e resultados das mulheres no mercado de trabalho ao longo dos séculos”, revelando as principais causas de mudança e as principais origens da discrepância de gênero remanescente.

Nascida em Nova York em 1946, Goldin foi a primeira mulher a conquistar estabilidade no emprego de professora de curso superior em uma série de departamentos de universidades, entre os quais Harvard. Ela se torna a terceira mulher a conquistar o prêmio, após Elinor Ostrom, em 2009, e Esther Duflo, em 2019, e a primeira a ganhá-lo na condição solo.

A professora Randi Hjalmarsson, membro da comissão responsável pela atribuição do prêmio, disse que Goldin associou as ferramentas de economista do mercado de trabalho às usadas pelos historiadores econômicos, para descrever a evolução do emprego feminino nos EUA ao longo de mais de 200 anos, quando uma economia em grande medida agrícola se desenvolveu para uma industrial e, em seguida, para uma sociedade baseada em escritórios.

“Ela teve de fazer trabalho de detetive”, disse Hjalmarsson, ao descrever como Goldin descobriu e interpretou novas fontes de dados para períodos em que os empregos e rendimentos do trabalho das mulheres muitas vezes não eram registrados, mostrando que seu nível de emprego era muito mais elevado do que o que aparecia nos censos.

Uma de suas descobertas mais contraintuitivas foi a de que a participação das mulheres no trabalho remunerado não aumentou persistentemente com o passar do tempo, nem em linha com o crescimento da economia, formando, em vez disso, uma curva em forma de U. Quase 60% das mulheres casadas e mais velhas da Filadélfia trabalhavam no fim do século 18, entre as quais as dedicadas à agricultura, às indústrias artesanais e que trabalhavam em casa, mas essa proporção caiu no século seguinte, quando ficou mais difícil conciliar o trabalho em fábricas com tarefas familiares.

Mesmo no século 20, os avanços em reduzir a diferença entre os gêneros no aspecto nível de emprego e renda foram “lentos e irregulares”, detectou Goldin, ao demonstrar que essas tendências de longo prazo se deveram, primordialmente, à mudança no nível de emprego das mulheres casadas.

Barreiras evidentes, como legislação que impedia as mulheres de permanecerem em empregos como os de professoras ou de secretárias quando se casassem, tiveram participação nesse fator.

O mesmo ocorreu com as mudanças introduzidas no mercado de trabalho. O diferencial de gênero no que se refere aos rendimentos nos EUA diminuiu no começo do século 20 com a ascensão do trabalho de escritório e do ensino médio. Mas Goldin descobriu que, na mesma época, a parcela da diferença devida à discriminação contra a mulher mais do que dobrou, quando os empregadores abandonaram os contratos por tarefa em favor de estruturas baseadas em salários mensais, que tendiam a recompensar serviço por tempo prolongado, não interrompido pelo nascimento de filhos.

Mas a pesquisa de Goldin mostrou também a influência persistente das escolhas de instrução formal feitas pelas mulheres no início da vida — quando não previam passar muito tempo no mercado de trabalho — que limitaram suas opções muito mais tarde, quando tentaram voltar ao trabalho quando seus filhos chegavam à independência.

Outro estudo fundamental realizado por ela, em coautoria com seu marido, Lawrence Katz, mostrou o quanto o lançamento da pílula anticoncepcional, em momentos diferentes, em Estados americanos diferentes, levou as mulheres a planejar e a investir em suas carreiras.

“Ser uma detetive faz supor que se tem uma pergunta…tão importante que você vai até o fim, seja ele onde for, para encontrar [uma resposta para ela]”, disse, após receber a notícia do prêmio, nas primeiras horas de ontem em sua casa em Cambridge, Massachusetts.

Kristaline Georgieva, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), e Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), estavam entre as personalidades que cumprimentaram Goldin por ter recebido o prêmio, concedido logo após a publicação de seu mais recente estudo — “Why Women Won”.

Jason Furman, um colega de Harvard e ex-assessor econômico de Barack Obama, descreveu-a como “estudiosa pioneira que modificou minha maneira de pensar a desigualdade, a mulher na força de trabalho e muito mais”, além de “mentora generosa de gerações de estudantes”.

Embora Goldin não empregue sua pesquisa como base para conclusões de política econômica, o comitê do Nobel disse que o trabalho de Goldin tem “amplas implicações sociais” e que, em especial, poderia moldar a política pública em países que ainda se desenvolvem ao longo de caminhos já anteriormente trilhados pela economia dos EUA.

Em nível global, cerca de 50% das mulheres trabalham, comparativamente a 80% dos homens, e as diferenças são ainda maiores em partes do Sudeste Asiático, Oriente Médio e norte da África. Embora a parcela das mulheres que trabalham tenha triplicado nos últimos cem anos, elas ainda ganham, em média, menos que os homens e ocupam menos empregos de primeiro escalão.

Fonte: Valor Econômico
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