Com protagonismo da indústria, RS é o quinto Estado com mais acordos em programa para manutenção do emprego

Com protagonismo da indústria, RS é o quinto Estado com mais acordos em programa para manutenção do emprego

Publicado em 30 de agosto de 2021

Estado registrou 203,8 mil adesões ao BEm em 2021, especialmente suspensões de contrato e ou redução de jornada em 50%.

O Rio Grande do Sul registrou 203,8 mil acordos dentro do Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda (BEm) em 2021. O Estado ocupa a quinta colocação no ranking de maior utilização do programa neste ano no país, atrás de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Levando em conta só a Região Sul, o Estado lidera.

O BEm foi reeditado pelo governo federal em abril via medida provisória e terminou no último dia 25. O programa permitiu a redução de jornada e salário ou a suspensão de contratos de trabalho durante a pandemia. Os trabalhadores têm direito à estabilidade por tempo equivalente. No país, foram registrados 3,2 milhões de acordos em 2021 (contabilizações tardias, após o encerramento do programa, podem alterar a quantidade final).

Analisando os dados por setores, a indústria lidera com praticamente a metade do total de acordos firmados dentro do programa no Estado em 2021. O setor concentra 100.674 acertos no ano, seguido por serviços e comércio (veja o gráfico abaixo).

O economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS Ely José de Mattos avalia que esse protagonismo da indústria é normal diante da dinâmica de operação do setor. O especialista destaca que a indústria costuma ser mais resistente em relação a mudanças na força de trabalho em razão da necessidade de manter mão de obra especializada.

— A indústria tem essa característica de maior estabilidade e maior especialização. Então, tem resistência maior à rotatividade do que tem, por exemplo, o comércio. A indústria usa esses programas para manter o vínculo do funcionário, diminuir linhas de produção, acionar quando volta a ter atividade, fechar quando diminui — diz Mattos.

Dentro da indústria, o segmento de fabricação de calçados ocupa a maior parte do bolo, com 58.310 acordos. O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, afirma que o programa foi essencial para o segmento, principalmente nos meses de maio, junho e julho. Esse período foi marcado pela recuperação após os efeitos dos fechamentos nas atividades no Estado entre fevereiro e abril diante do recrudescimento da pandemia.

— O BEm foi fundamental para preservar postos de trabalho para as indústrias. Na recuperação também é importante, porque, quando a indústria desemprega, até o ponto em que recontrata novamente, tem todo um atraso até que o novo trabalhador pegue o ritmo — salienta Ferreira.

A Calçados Bibi, com sede em Parobé, no Vale do Paranhana, é uma das empresas que utilizou o BEm. A presidente da empresa, Andrea Kohlrausch, afirma que o programa foi mais usado pela companhia em 2020 diante dos maiores picos de fechamento das atividades em meio à pandemia. Andrea destaca que a empresa sempre priorizou manter os funcionários e não demitir. Em 2021, o benefício foi utilizado uma vez e de maneira pontual na troca de coleções, segundo Andrea. No geral, a executiva afirma que a ferramenta foi importante para acompanhar ritmo na retomada.

— A gente sempre acreditou na retomada. Com o nosso quadro, com a manutenção dos talentos e tudo mais, é muito mais fácil. Não precisam estar empregando novamente ou buscando no mercado a cada retomada. Contamos com quem já conhece nossa cultura – explica Andrea.

Modelos

Dentro dos 203,8 mil acordos registrados no Estado em 2021, 32,27% são de suspensão de contrato e 23,63% de redução de 50% da jornada. Na sequência, figuram reduções de jornada de 25% e de 70%. O programa atingiu 147.284 trabalhadores e 33.798 empregadores no Estado.

Neste ano, o número de acordos foi menor tanto no país quanto no Estado na comparação com 2020. Isso porque o volume de verba destinada ao programa foi menor. Em 2021, o governo federal repassou R$ 5,5 bilhões em todo o país. No ano passado, foram 34,2 bilhões, segundo o Ministério da Economia. A pasta não informa os repasses por Estado.

Atualmente, o Congresso discute a aprovação de texto que renova o programa. A matéria inclui outras mudanças nas leis trabalhistas, como alteração nas regras de contratação de jovens e pessoas com mais de 50 anos. O texto foi aprovado na Câmara, mas ainda não passou pelos senadores.

Incerteza justificaria medida preventiva

Conversando com especialistas, dois pontos são praticamente unânimes com relação à relevância do benefício. O primeiro é o atraso para reeditar o programa neste ano. O governo federal relançou o benefício no fim de abril após o recrudescimento da pandemia e das restrições nas atividades econômicas. Há entendimento geral no sentido de que houve demora para oferecer o socorro novamente.

O segundo ponto trata da necessidade de ter carta na manga para ativar o programa nos mesmos moldes nos próximos meses no caso de piora na pandemia. A economista-chefe da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado (Fecomércio-RS), Patrícia Palermo, avalia como positivo criar um gatilho para a rápida implementação desse tipo programa. No entanto, destaca que essa ferramenta tem de ser para casos emergenciais e não permanente:

— Não é porque a gente vai andar numa estrada plana que a gente não vai ter um estepe. Então, é bom a gente ter estepe lá atrás para que, caso alguma coisa aconteça, não prejudique a nossa viagem. Se a gente tiver esse tipo de  instrumento à disposição, melhor.

Mattos, da PUCRS, afirma que o efeito da variante Delta em outros países acende um alerta em relação a medidas preventivas contra uma nova onda da pandemia. Nesse sentido, também cita a necessidade de agilizar esse tipo de socorro aos setores da economia:

— Seria uma alternativa inteligente deixar isso engatilhado para não acontecer a mesma coisa que aconteceu no início do ano e atrasar a edição da medida.

Fonte: Gaúcha GZH
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