07 fev Como ser um nômade digital e trabalhar de qualquer lugar
Como ser um nômade digital e trabalhar de qualquer lugar
Brasil cria visto especial e entra na rota de opções dos que querem atuar remotamente.
O Brasil entrou para a rota do nomadismo digital ao aprovar, no fim de janeiro, um visto especial para profissionais que queiram morar no país trabalhando para uma empresa de fora. Válido por um ano, e passível de renovação, o visto é considerado atrativo por demandar uma comprovação de renda de US$ 1,5 mil mensais, baixa em relação a outros países com programas semelhantes, avalia Diana Quintas, CEO da empresa de imigração Fragomen. “Desde o dia 24, fui procurada por mais de 25 estrangeiros interessados em tirar o novo visto.”
Ilya Brotzky, CEO da VanHack, plataforma que ajuda profissionais de tecnologia a obterem trabalho remoto para empresas de 11 países, publicou no LinkedIn um post sobre a aprovação do visto, defendendo que “após anos vendo talentos deixarem o país, o Brasil agora possui um visto de nômade digital para atrair talentos globais”. O post conquistou mais de 2 mil curtidas e dezenas de profissionais estrangeiros demonstraram interesse.
O novo visto pode atrair mais pessoas para o país como a argentina Victoria Olavarria, profissional da área de marketing que há um ano se tornou nômade digital. Nos últimos 12 meses ela trabalhou remotamente a partir de sete cidades. Nesse período, esteve em Florianópolis e lamenta apenas que as duas semanas cheias de trabalho não permitiram aproveitar mais as praias. Olavarria também não ficou satisfeita com o alcance da internet – para ela um aspecto fundamental na hora de decidir o destino da vez.

O visto brasileiro pode estimular que nômades estrangeiros fiquem mais tempo no país, pagando aluguel e consumindo serviços diferentes de quem vem a passeio, diz Quintas. “Sem o visto especial, o nômade até vem, mas para ficar os meses permitidos a um turista.”
A Estônia é pioneira nesse tipo de visto – o criou em 2019. A flexibilização dos modelos de trabalho e as crises no turismo causadas pela pandemia levaram uma série de novos países a seguir o exemplo.
Levantamento da Fragomen, exclusivo para o Valor, indica 23 países com programas para trabalhadores remotos, com permissões que variam de 180 dias a 2 anos (ver tabela ao lado). “Todos pressupõem que o trabalhador não esteja vinculado a uma empresa local, o que não faz concorrer com a mão de obra do país, e que receba em moeda estrangeira. Alguns e exigem plano de saúde local, e normalmente a tributação é feita no país de origem do trabalhador”, afirma Quintas.
A abertura para o nomadismo digital é também motivada pela maior disposição das empresas de contratarem remotamente – seja com vínculo empregatício ou como pessoa jurídica – e do desejo de muitas pessoas de repensarem a carreira e a forma de trabalho pós-pandemia.
“Algo que mudou nos últimos cinco anos é que tenho encontrado mais nômades que trabalham em profissões tradicionais, como contadores e advogados. Antes, era um perfil focado em marketing, tecnologia, design e produção de conteúdo”, diz Matheus de Souza. Autor do livro “Nomadismo digital: um guia para você viver como e onde quiser”, Souza planejou a vida nômade em 2017, quando trabalhava em uma empresa de Santa Catarina. Pediu para fazer home office, não conseguiu e, depois de juntar seis meses de salário – uma reserva de R$ 30 mil – saiu do emprego para viver como freelancer de produção de conteúdo.
Em 2019, trabalhou de 12 países, com visto de turista, até sentir segurança para viver na estrada e vender o apartamento no Brasil. “Hoje, não tenho endereço fixo. Trabalho para empresas brasileiras, mas já fiz projetos com outros nômades que conheci na estrada.” No total, ele já trabalhou de 26 países e diz que aprendeu a ser minimalista. “Meu patrimônio hoje está em um mochilão de 50 litros e uma bolsa menor, onde levo equipamento de trabalho.”
A publicitária brasileira Tassiana Ghorayeb Resende também diz que a vida de nômade a fez rever a quantidade de bens materiais que precisava para viver. Após trabalhar por 15 anos em agências, e descontente de só poder viajar nas férias, ela deixou o Brasil em 2018. No começo, recorreu a plataformas de “couch surfing” (que conectam viajantes e custam pouco) para conseguir morar como turista em alguns países e trabalhou em um resort na Croácia e em um restaurante na Romênia. Depois, passou a buscar projetos na sua área em plataformas para freelancers e, aos poucos, foi entendendo como se planejar financeiramente para bancar seus custos.
Ao viajar pelos Bálcãs, apaixonou-se pela região e se estabeleceu temporariamente na Sérvia. Como o país ainda não tem visto para nômade digital, ela já renovou os vistos disponíveis 18 vezes. Faz sentido para ela neste momento porque se integrou à cultura local, fez amigos que a ajudaram durante a pandemia, e se sentiu acolhida. Se virou em inglês, mas hoje arrisca palavras em sérvio.
Recentemente, participou de um congresso para nômades digitais em Montenegro, onde soube mais detalhes sobre o visto de nômade digital na Croácia. “Mas não faz sentido eu aplicar para ele, porque eles exigem uma comprovação de renda altíssima.” Esta, aliás, é a percepção de outros nômades brasileiros – a maioria dos programas de visto não é atrativa para profissionais que ganham em real e não têm uma reserva financeira alta. Em muitos casos, a permissão de turista dá conta de suas aspirações de viajar e trabalhar remotamente.
A vida real de nômade que não aparece no Instagram, aliás, carrega desafios. Souza conta que quando conheceu Paris teve uma semana tão cheia de entregas que mal conseguiu aproveitar momentos de folga na cidade. “É um modelo de trabalho que traz liberdade geográfica e flexibilidade, mas não é aquela imagem do profissional com notebook sentado na praia. Você precisa planejar para conseguir aproveitar.”
Resende diz que o fuso horário e a cultura tradicional de horário e controle de muitas empresas brasileiras para as quais trabalha também é desafiador. Os dois, porém, se sentem satisfeitos com suas escolhas, a bagagem cultural que vêm adquirindo, e veem que a vida de nômade ajudou suas carreiras. “O retorno é positivo e tudo que estou absorvendo vale a pena”, diz a brasileira.
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