Companhias ampliam oferta de benefícios para alívio financeiro

Companhias ampliam oferta de benefícios para alívio financeiro

Publicado em 21 de julho de 2022

Com funcionários endividados, RHs ensinam empregados a administrar o próprio dinheiro.

Em um cenário de inflação persistente e alto endividamento das famílias, os benefícios de alívio financeiro oferecidos pelos RHs das empresas ganharam corpo em 2022. “Vimos um aumento crescente dos RHs oferecendo crédito como benefício”, afirma Fabian Valverde, CEO e fundador da Paketá, fintech que atua com crédito consignado. Ele observa, inclusive, uma ampliação no perfil de clientes. “Antes associado a apenas empresas maiores, onde o conceito já é claro para o RH, o crédito consignado amadureceu, em 2021 e 2022, para empresas menores”.

 No Brasil, em cada 100 famílias, 77 estão endividadas. O índice de 77,3% obtido em junho pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), é 7,6 pontos percentuais maior que o de junho do ano passado. Desse total, 28,5% têm contas em atraso, principalmente com o cartão de crédito (86,6%), carnês (18,3%) e financiamento de carro (10,8%). Em um outro levantamento, feito pela fintech de crédito Creditas com 1.500 pessoas que são funcionárias no Brasil pelo regime CLT, 63% possuem ao menos metade da renda comprometida com dívidas.

Em uma pesquisa da americana Society for Human Resource Management, feita antes da pandemia, 83% dos profissionais de RH entrevistados afirmaram que o estresse financeiro dos empregados afetava negativamente o desempenho no trabalho. “O professor E. Thomas Garman, autor do livro ‘Personal Finance’, desenvolve estudos que comprovam a importância da saúde financeira dos funcionários para a produtividade”, comenta a educadora financeira Simone Sgarbi. “Ele comprovou que empregados com problemas financeiros têm os maiores índices de faltas e atrasos, além de apresentarem presenteísmo, quando um funcionário comparece ao trabalho, mas não consegue se dedicar totalmente às suas tarefas.”

O mais recente estudo anual da Serasa e Opinion Box para identificar o perfil do endividado no Brasil mostrou que ter dívidas impacta, além da saúde financeira, a saúde emocional: 88% sentem vergonha pelas contas em atraso, 85% sofrem de insônia em razão da preocupação com o endividamento, 76% têm dificuldade de concentração no trabalho e 65% veem seus relacionamentos prejudicados pela situação. “Pessoas com problemas financeiros ficam mais desatentas e irritadas, e menos produtivas, o que na ponta afeta o lucro da empresa”, diz Sgarbi. “Por mais que o funcionário queira se dedicar ao trabalho, parece haver um fantasma o assombrando.”

Segundo Sgarbi, nesse sentido, tem aumentado a procura por palestras de educação financeira, mas são raras as empresas que aprofundam o programa. “É importante o RH tirar o foco do efeito, que são funcionários com problemas financeiros, e focar na causa, que é a falta da educação financeira.”

 Na tentativa de ir além do socorro financeiro e levar conhecimento de como organizar as finanças aos funcionários das empresas, a fintech Leve, que nasceu em 2020 ofertando crédito consignado, ampliou seu modelo de negócios. Funcionários de empresas parceiras podem, além de contratar o empréstimo e antecipar o salário, acionar o “gerente do bem”, uma pessoa capacitada que ajuda o empregado a compreender suas finanças e se organizar. “Entendemos que fornecer vídeo-aula e material para leitura não é muito eficiente, porque as pessoas não engajam. O que fazemos é pegar o colaborador pela mão e resolver o problema que ele tem”, explica Gustavo Raposo, CEO da Leve. A consultoria, por vídeo ou WhatsApp, ajuda o funcionário a sair de uma dívida, resolver uma emergência ou comprar um carro, por exemplo. A startup atende atualmente 250 empresas – eram 100 um ano atrás -, totalizando 120 mil funcionários.

Thalita Machado, coordenadora de clima e cultura do MaxMilhas, um dos clientes da Leve, explica que a empresa de 500 funcionários já oferecia crédito consignado e antecipação de salário sob demanda por meio de bancos tradicionais. “Mas esse mercado tradicional não apoia, necessariamente, na gestão financeira”, diz. A ideia de ofertar educação financeira surgiu após uma pesquisa interna que mapeou aumento de violência doméstica entre funcionárias. “E a dependência financeira é um ponto que faz com que as mulheres não saiam de casa”, explica. “O atual cenário econômico mais a violência doméstica fizeram a empresa olhar de forma mais estratégica para esse assunto.”

A executiva comenta que a falta de educação financeira do brasileiro – “a gente não aprende isso em nenhum lugar” – leva ao endividamento e, com ele, vem um aumento no nível de estresse. “Ter alguém para apoiar nesse sentido dá uma segurança emocional”, acredita. Segundo ela, o perfil do time da MaxMilhas é de “zona de sobrevivência”, sem grandes dívidas, mas o dinheiro não sobra. “Paga uma conta com atraso, mas paga todo mês, não tem fundo de emergência, não pode ter imprevisto financeiro. E o que era apertado ficou espremido com os aumentos de preços”.

Com a educação financeira, ela diz que os funcionários conseguiram economizar R$ 50 mil desde o início do trabalho com a Leve, há mais de um ano. Isso foi possível com orientação para gastar melhor e trocar produtos para economizar, como por exemplo, negociar os planos de internet. A economia, ela diz, possibilitou às pessoas começarem a fazer fundos pessoais de emergência. “As pessoas estão fazendo gestão financeira”. O benefício é gratuito aos funcionários, que podem acessar o “gerente do bem” quantas vezes quiserem.

Na fintech Paketá, fundada em 2019 e que ganhou o Itaú como sócio em 2021, o foco não é a educação financeira, mas o socorro para quem está em situação mais complicada – ainda que a startup forneça alguma orientação para quitação de dívida e remoção da negativação do CPF, como a troca de um empréstimo caro por um mais barato. Para atender esse público, um novo produto foi lançado recentemente: a antecipação salarial – que entrou no portfólio junto com o crédito consignado.

Na nova modalidade, utilizada normalmente para valores mais baixos, o empregado paga uma taxa de R$ 2 pela contratação, e não há juros. No dia 10 do mês, por exemplo, pode antecipar o recebimento do salário proporcionalmente aos dias trabalhados. No crédito consignado, carro-chefe da fintech, há juros, entre 1,3% e 2,7% ao mês. A modalidade é usada, principalmente, para quitar contas em atraso – trocando uma dívida mais cara por uma mais barata. “Em algumas empresas, 70% dos funcionários estão negativados”, diz Valverde. “O empréstimo é usado para quitar essa dívida, que em alguns casos é pequena, de R$ 200, mas se a pessoa ganha R$ 2 mil não tem capacidade de pagar.”

A fintech também oferece a possibilidade de crédito para negativados. Essa foi uma das razões que levou a Verzani & Sandrini, empresa com mais de cinco décadas de vida, 55 mil funcionários e que presta serviços de higienização e segurança patrimonial, a contratar o serviço da startup no começo de 2021. Desde então, cerca de 80% da equipe já utilizou o benefício alguma vez. Atualmente, há 11 mil CPFs com um empréstimo ativo. “Atuamos com prestação de serviços, na cadeia primária em termos da profissionalização, com salários mais baixos, e muitas vezes, quando tem qualquer solavanco na vida financeira, o colaborador precisa do recurso já estando negativado”, diz Fábio Busato, diretor de RH da Verzani & Sandrini.

A Creditas , outra fintech que oferece crédito consignado, viu a demanda pelo produto aumentar 125% comparando o primeiro semestre de 2021 com o primeiro semestre de 2022. Assim como a Paketá, ampliou recentemente seu leque de produtos com a antecipação de salário, que não tem juros, e a taxa de R$ 5 é cobrada somente depois da terceira contratação. Fernanda Zanetti, vice-presidente de digital banking da Creditas, diz que a principal razão da tomada do consignado é usar o dinheiro para quitar uma dívida mais cara. “A troca de crédito ruim pelo consignado sempre apareceu e se intensificou no período recente”, diz. “Hoje, cerca de 52% das pessoas tomam consignado para sanar uma dívida pior, antes era 40%”. Outros motivos comuns são fazer reformas e adquirir um bem.

Fonte: Valor Econômico
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