Companhias criam novos benefícios para pessoas trans

Companhias criam novos benefícios para pessoas trans

Publicado em 18 de julho de 2022

Eles incluem hormonização, cobertura de processo de transexualização por planos de saúde da empresa até amparo jurídico na retificação de nome em documento.

No final de junho, a Mondelez Brasil anunciou alguns benefícios exclusivos para funcionários trans. Entre eles, reembolso de 100% para hormonização, cobertura de processo de transexualização por planos de saúde da empresa e amparo jurídico na retificação de nome em documentos. “Nosso objetivo é complementar e reforçar o compromisso de promover o avanço em diversidade, equidade e inclusão no Brasil”, afirma Jorge Morato, diretor de saúde, segurança e meio ambiente na Mondelez. Ele conta que a companhia superou a meta de ter 2% de empregados trans, prevista para 2024. “Agora, o foco será em desenvolver os profissionais para que ocupem cargos de liderança no futuro.”

O olhar para pessoas trans está mais comum nos RHs das grandes empresas. A Unilever também anunciou, no final de junho, que começaria a subsidiar a retificação de documentos – CPF e RG – de pessoas trans que trabalham na companhia. Luana Suzina, gerente de equidade, diversidade e inclusão da Unilever, afirma que, além do custeamento para a retificação de documentos, a companhia oferecerá às pessoas trans que atuam na empresa orientação sobre o processo de retificação de documentos com respaldo jurídico, por meio do programa Crescer. “Disponível 24h, o programa oferece assistência às pessoas colaboradoras, de forma gratuita e sigilosa, com atendimento de psicólogos, advogados, analistas financeiros, assistentes sociais e outros profissionais especializados”, explica.

A multinacional também passou a oferecer treinamentos específicos, como letramento para os times que recebem pessoas trans em seus times. “Além dos treinamentos, criamos um guia global de representatividade LGBTQIA+ focado nos times de marketing como forma de garantir uma representação genuína das nossas comunidades em todas as nossas peças publicitárias”. Atualmente, diz Suzina, há 20 pessoas que se declaram como trans na organização.

 Augusto Rodrigues, analista de customer marketing, é uma dessas pessoas. Na Unilever desde fevereiro de 2021, ele, um homem trans, diz ter utilizado o serviço de psicólogos da companhia de forma gratuita, além de ter participado da construção da ação que apoia e custeia a retificação de documentos de funcionários trans. Ele mesmo não fez uso desse benefício porque quando ingressou na companhia já tinha nome e gênero corretos. “Mas isso será fundamental para as próximas pessoas que chegarem, e aquelas que já são funcionárias hoje podem fazer sua retificação de forma gratuita, segura e sigilosa.”

Ao longo de seus 26 anos, Rodrigues relata ter passado por péssimas experiências no ambiente corporativo. “Em uma das empresas que trabalhei como ajudante de loja, logo no início da transição, assim que a empresa ficou sabendo da minha identidade de gênero, passou a me pedir serviços braçais, como carregar caixas e sacos de roupas. Nesse mesmo emprego escutei do meu chefe ‘agora só vou contratar mulheres como você, pois assim não terei problema com licença maternidade e filhos’. Fora o ambiente tóxico machista que tive que enfrentar todos os dias por quase três anos”. Na visão de Rodrigues, o respeito vem sendo conquistado dia a dia, “fruto de uma luta constante da população LGBTQIA+.”

A travesti Vi Basílio, analista de pessoas há quatro meses na Kraft Heinz, diz que nunca foi desrespeitada de forma agressiva, mas sutilmente. “A falta de cuidado com os pronomes é uma velha amiga, acontece diariamente em todos os meus ciclos, resultado da falta de convivência”, explica. “Mas durante minha carreira, já fui desconsiderada de discussões sobre as datas dedicadas a mulheres, reuniões e eventos dedicados a mulheres e sempre existem comparações e comentários sutis que acabam deixando meu dia muito mais cansativo e pesado, inúmeras inseguranças que eu carrego para casa.”

Ela, que tem 24 anos, analisa esse comportamento como uma consequência da “nossa sociedade, que cresceu entendendo que travestis e transexuais são corpos marginalizados, que ocupam as ruas e becos à noite e foram reduzidas a profissões ilegais”. “Ver nossos corpos ocupando espaços corporativos, em centros urbanos antes dominados pela maioria homem, cis e branca, é novidade, inclusive para nós, sendo sempre o sonho e um objetivo de muitas.”

Basílio acredita que a convivência é o que torna tudo mais comum, mais fácil e mais humano. “Acho que uma das coisas que mais ouvi, estando no mundo corporativo foram as inúmeras ‘é a primeira vez que conheço uma pessoa trans’, o que no fundo choca, mas me mostra o quão vastas são as realidades fora da minha”, diz.

Em janeiro de 2022, a Kraft Heinz anunciou benefícios para funcionários em transição de gênero. O pacote inclui subsídio mensal por um ano para tratamento hormonal e licença remunerada de 20 dias para qualquer caso de transição que envolva realização de cirurgia, além de apoio psicológico via plano de saúde. A companhia também desenhou diretrizes para um plano de transição de gênero no local de trabalho: acessibilidade a banheiros e vestiários que correspondem à identidade de gênero do empregado, alteração de nomes e pronomes em todos os registros pessoais e administrativos, bem como em registros oficiais após a mudança de nome legal, e o direito à privacidade.

Outra companhia que criou benefícios para pessoas trans recentemente foi o Mercado Livre. A empresa passou a oferecer auxílio financeiro para a cirurgia de redesignação de gênero para seus funcionários e foi além, concedendo aos empregados transgêneros também seguro fiança para aluguel de imóveis, assessoria jurídica para a alteração de nome e gênero em registros civis e suporte psicológico. A companhia cobre até 70% do valor da cirurgia de redesignação de gênero, com limite de até US$ 5 mil por procedimento, e o benefício é elegível a todos com pelo menos um ano de empresa. Como parte das suas políticas e agenda de bem-estar, o Mercado Livre oferece às pessoas trans 15 dias de licença por ano para procedimentos médicos.

 Na Heineken, o movimento começou direcionado à comunidade externa, migrando para os funcionários. Depois de a marca Amstel, que faz parte do portfólio do grupo, ter levado o cartório às ruas de São Paulo na Feira Cultural da Diversidade da Parada LGBT+ e auxiliar a retificação do nome de mais de 800 pessoas transgêneros, a companhia adotou, no final de junho, a iniciativa como benefício fixo aos seus empregados. Antes disso, os funcionários que queriam já se apresentavam pelo nome social em seus crachás, e-mails e assinaturas.

“A partir do momento em que uma pessoa quiser seguir com a retificação, ela entrará em contato com a área de benefícios da companhia e será direcionada ao programa Conta Comigo”, explica Lívia Azevedo, diretora de pessoas e desenvolvimento organizacional do grupo Heineken. “Lá, as pessoas receberão orientações sobre como fazer documentação, reembolso e, além de tirar dúvidas, terão todo o apoio da equipe de psicólogos, advogados, assistentes sociais para seguir com o processo.”

Para respeitar a privacidade e liberdade de seus funcionários, a Heineken diz não questioná-los sobre a identidade ou orientação sexual. Até o momento, no entanto, nove pessoas da companhia realizaram ou estão realizando a retificação dos nomes com suporte da empresa.

Fonte: Valor Econômico
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