Companhias trazem mães de volta para o mercado

Companhias trazem mães de volta para o mercado

Publicado em 16 de agosto de 2021

Programas oferecem como atrativo maior flexibilidade de horários e jornadas que ganhou impulso com a pandemia.

Empresas de diferentes portes e setores estão desenvolvendo programas para contratar mulheres que ficaram fora do mercado depois da maternidade. Em pelo menos três iniciativas mapeadas pelo Valor, foram recebidas cerca de 3,6 mil inscrições para 23 vagas. Além da busca por maior equidade de gênero nas companhias, a intenção é apoiar o retorno das executivas à vida profissional depois de meses ou anos de dedicação exclusiva aos filhos. A possibilidade de cumprir o expediente a distância e jornadas reduzidas são os principais atrativos para as candidatas.

Na Ativy, grupo de tecnologia com cinco startups e 250 funcionários, sendo 30% mulheres, e 12% de presença feminina na liderança, a iniciativa lançada em março de 2020 atraiu 400 candidatas de 19 a 60 anos. Do total de inscritas, 108 estavam na primeira gravidez e 171 se consideravam fora do mercado de trabalho. “Abrimos duas vagas, mas o número de posições pode ganhar corpo nos próximos meses”, diz Danielli Ramos, diretora de felicidade da Ativy.

Dessa primeira leva, uma das admitidas é a executiva de contas Larissa Begalli, que se tornou mãe em fevereiro de 2020. Quando foi contratada, em julho de 2021, a pequena Lívia tinha um ano e quatro meses. “Estava sem trabalhar há sete meses para me dedicar à maternidade em tempo integral.” Com o novo trabalho, vai atuar de casa.

De acordo com Begalli, o cuidado da empresa em criar uma trilha de carreira que ajuda mães a reingressarem na vida corporativa, a flexibilidade do home office e o pacote de benefícios – que inclui auxílio-creche e reembolso para a van escolar – pesaram na decisão de retornar ao batente. “Não imaginava voltar tão cedo”, diz.

Ramos diz que o grupo, que conta com operações no México, Chile, Argentina e Colômbia, planeja abrir cerca de cinco colocações para mães na área de tecnologia nos próximos meses. É um projeto para o início de 2022, e a ideia é oferecer formação técnica para as candidatas. O processo de recrutamento acompanha o crescimento da Ativy, que prevê lançar seis startups este ano e aumentar em 63% o faturamento em relação a 2020, quando atingiu R$ 80 milhões.

No banco BV, o programa “Lugar de mãe é no BV” começou em maio com 11 vagas, sendo quatro para gerentes. “Buscamos cumprir nosso papel para uma maior equidade de gênero e o compromisso é ter 50% de mulheres em cargos de liderança até 2030”, diz a diretora de pessoas e cultura Ana Paula Tarcia. Dos 4,3 mil funcionários, 44,6% são mulheres e as executivas ocupam 34,7% das cadeiras de gestão. “Precisamos olhar para as mães que estão saindo do mercado e criar oportunidades para que retornem a um ambiente com equilíbrio profissional e pessoal.”

A iniciativa do BV recebeu mais de três mil inscrições e a maioria (51%) tinha de 31 a 40 anos. Uma nova edição está sendo avaliada.

De acordo com pesquisa realizada entre abril e junho de 2020 pela consultoria Filhos no Currículo, de transformação cultural nas empresas, e o Movimento Mulher 360, que atua para ampliar a participação feminina no ambiente corporativo, a falta de uma “rede de apoio” para a família é uma das maiores barreiras para um home office produtivo. O levantamento ouviu 825 profissionais com filhos, sendo as mães 80,3% do total. Conciliar a prole e o trabalho (70%), dar a atenção necessária às crianças (56%) e manter a produtividade no expediente (51%) são os principais desafios apontados.

Contratada pelo BV em julho, a gerente comercial Priscilla Souza estava em casa há dois anos e meio. “Precisava de mais tempo para os filhos, principalmente por conta de questões de saúde do caçula”, diz ela, mãe de Arthur (sete anos) e Leonardo (nove). Ao analisar a proposta de desenvolvimento de carreira do banco, resolveu voltar ao mercado. “As mães não devem temer essa volta”, diz. “Apliquem no novo trabalho as habilidades aprendidas durante o período de dedicação às crianças.”

De acordo com a pesquisa da Filhos no Currículo/Movimento Mulher 360, os pais desenvolveram no confinamento habilidades profissionais a partir da relação com as crianças, com destaque para a paciência (74%), tolerância (57%) e priorização de tarefas (56%).

Tarcia, do BV, lembra que a pandemia abriu espaço para que modelos flexíveis de trabalho ganhassem força, permitindo que mais mães recentes retomassem suas carreiras, de forma remota.

Fernanda Weiden, vice-presidente de engenharia da startup unico, de soluções de proteção de identidade digital, lidera desde junho o programa “Mães na engenharia”. A ação propõe a redução para 60% da jornada de trabalho das especialistas em engenharia de software, sem impactos no salário. “É um projeto piloto, em fase de seleção”, diz. “Se for bem-sucedido, poderá se estender a outros departamentos da companhia.”

Com sede em São Paulo, a unico tem 700 funcionários, sendo 50% mulheres. Metade dos cargos de decisão é ocupada por executivas. A intenção do novo programa é preencher dez vagas. Recebeu 200 inscrições, desde mães de filhos recém-nascidos até de adolescentes.

Weiden, que já foi diretora de engenharia no Facebook nos Estados Unidos e gerente da mesma área no Google na Suíça, diz que o movimento da unico é baseado em dois sinais: a dificuldade das mulheres para conciliar agenda profissional e pessoal depois da maternidade e o desafio crescente das empresas de atrair e reter talentos, principalmente entre mulheres no setor de tecnologia.

“Muitas vezes, quando a mulher é mãe, ela acaba desistindo de voltar ao emprego para ficar mais tempo com o filho”, diz Weiden, que continua morando na Suíça depois que foi contratada pela unico, em 2019. Em maio de 2020, “virou” a mãe de Lucia, hoje com 14 meses. “Como mãe, quero ter a chance de flexibilizar a carga horária para viver momentos especiais da minha filha com dedicação e intensidade, assim como vivo momentos importantes dentro da empresa, também com dedicação e intensidade.”

Fonte: Valor Econômico
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