06 jan Companhias usam lições da pandemia para se reorganizar
Companhias usam lições da pandemia para se reorganizar
Decisões sobre modelos de atuação e liderança serão pautadas pela experiência dos últimos anos.
Grandes empresas analisam o retorno aos escritórios diante dos desdobramentos da pandemia, mas a maioria sabe que nada será como antes. Pesquisa do fundo de venture capital Atlântico indica que 64% das companhias latino-americanas devem apostar no trabalho completamente remoto nos próximos anos, parcela que era de apenas 9% antes da crise sanitária.
O levantamento, feito com líderes de recursos humanos de 524 organizações da região, sinaliza que as mudanças nas jornadas de trabalho serão grandes. O número de empregadores que vão adotar o modelo híbrido, com os dias da semana divididos entre casa e escritório, passou de 25%, antes da covid-19, para 31%.
Entre a liderança, o período longe do ambiente corporativo trouxe aprendizados como uma gestão mais descentralizada, com a garantia de maior autonomia para as equipes e planos baseados em metas. O conceito work from everywhere (trabalhar de qualquer lugar, em português) também ganhou força nas corporações.
“Antes da pandemia, tínhamos colaboradores que residiam em 480 cidades. Hoje, eles estão em 700 localidades, somente no Brasil”, diz Rodrigo Pádua, vice-presidente global de gente e cultura do grupo Stefanini, multinacional brasileira de soluções digitais, com 27 mil funcionários em 41 países – 17 mil no Brasil. “Não estamos falando em voltar aos escritórios, mas em um novo modelo de trabalho, que veio para ficar”, afirma. “Vamos continuar no formato híbrido este ano.”
Cerca de 50% dos empregados do grupo permanecerão no padrão work from everywhere, seja 100% no home office ou totalmente no estilo híbrido. “Esse será o nosso padrão definitivo.” Mas a ideia, destaca ele, é ter expedientes flexíveis, até porque existem profissionais que não se adaptam ao trabalho remoto e querem manter a configuração tradicional de produção.
Na sede da companhia, em São Paulo, já começou uma volta gradativa em pequenos grupos, que se reúnem para atividades pontuais, como reuniões de apresentação de resultados ou integração de novos executivos.
Pádua afirma que, nesses últimos meses, a organização vivenciou aprendizados importantes com relação à cultura do trabalho, com uma maior autonomia dos funcionários. “Desde o início da pandemia, nossos resultados de produtividade, de satisfação dos clientes e de engajamento dos colaboradores melhoraram”, afirma, sem revelar números.
O distanciamento social também permitiu vantagens, como a flexibilidade de contratação de talentos que moram longe das sedes da companhia – um poder que chega em boa hora. “Nos próximos anos, a guerra por talentos será um ponto a ser observado, especialmente com a área de tecnologia aquecida no mundo inteiro”, diz. Entre 2020 e 2021, a Stefanini admitiu cerca de três mil novos funcionários e comprou dez empresas.
Na visão de Caroline Carpenedo, diretora global de pessoas e responsabilidade social da produtora de aço Gerdau, uma das principais lições da pandemia é a adaptação a novos tipos de formação profissional. “Apesar das dificuldades do momento, seguimos nosso foco no desenvolvimento de pessoas”, afirma. Os programas foram transferidos para o modo on-line e não sofreram interrupção.
A lista de ações na área inclui estágios para universitários e um edital para convocação de trainees – ambos alcançaram a meta de participação de 50% de mulheres nas seleções. O grupo global de 30 mil funcionários, sendo 15 mil no Brasil, também investiu em capacitações diversas, como “mentalidade digital” e habilidades em análise de dados.
Outro destaque nesses meses de confinamento foi a implementação de uma frente de desenvolvimento de líderes mulheres, com capacitações em gestão de projetos e mentorias. Vinte e sete profissionais já foram impactadas com a iniciativa.
Caroline Carpenedo explica que os times operacionais, que representam cerca de 70% do quadro da Gerdau no Brasil, trabalham presencialmente desde o ano passado, de acordo com protocolos sanitários. A corporação planeja o regresso das equipes administrativas (30% da folha) para os escritórios neste início de ano. “A decisão será analisada de acordo com o andamento da pandemia”, assegura. Mesmo assim, o retorno contará com redução na capacidade de pontos de trabalho e na implementação do home office duas vezes por semana.
“A pandemia passará e as relações de trabalho e de produção na indústria voltarão a um padrão de estabilidade”, analisa a executiva. “A tendência é se preparar para esse novo momento de ‘normalidade’, que deve incluir a adoção de dispositivos mais flexíveis nos contratos e nas formas de entrega.”
Para José Ricardo Amaro, diretor de recursos humanos da Ticket, marca do grupo Edenred Brasil, a adoção do teletrabalho e a necessidade de liderar profissionais a distância exigiram das lideranças novas formas de planejar ações e buscar resultados. “Todos tivemos que colocar em prática a ‘gestão da confiança’, que é permitir mais flexibilidade na realização das tarefas”, afirma. “A rotina, cumprida de maneira rígida no ambiente físico das empresas e baseada em um modelo de comando e controle, deu lugar a um compromisso com metas diárias, independentemente do horário e da forma com que o trabalho é feito.”
Amaro diz que o expediente híbrido para os 600 funcionários da Ticket começou no dia 2 de dezembro de 2021. Muitos sentem falta do dia a dia no escritório, ressalta. Pesquisa realizada pela marca de benefícios com mil trabalhadores brasileiros aponta que 49% gostariam de voltar para as baias, 32% desejavam permanecer no sistema remoto e 19% continuavam indecisos sobre o tema. “Do total, 52% revelaram que a principal vantagem de estar fisicamente no ambiente corporativo é o melhor controle sobre horários.”
Graziella D’Enfeldt, gerente-executiva de gente do Grupo Boticário, com 12 mil empregados, afirma que 26% dos funcionários já cumprem um regime de trabalho remoto, 18% estão no modo híbrido e 56% no presencial – a maioria em fábricas e centros de distribuição. “Procuramos olhar para as necessidades de cada uma dessas alternativas e oferecer a melhor estrutura para o colaborador”, diz. “O futuro aponta para rotinas de trabalho mais fluidas, com projetos compartilhados.”
Sorry, the comment form is closed at this time.