05 fev ‘Concorrente invisível’, alerta supermercadista sobre marketplaces
‘Concorrente invisível’, alerta supermercadista sobre marketplaces
“É um concorrente invisível que a gente não está dando atenção.” O alerta é do CEO da rede supermercadista que nasceu em Santa Catarina e vai ter nos próximos anos mais receita e presença física no Rio Grande do Sul do que no estado vizinho. O empresário Alexandre Simioni, neto de gaúchos, refere-se à concorrência acelerada dos marketplaces.
Jcast: Assista ao videocast completo com Alexandre Simioni
Simioni, que participou do videocast do Minuto Varejo, citou que o Mercado Livre fatura de “R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões com alimentos por ano, ficando entre as 10 maiores no País”. A plataforma é apenas um dos exemplos. O varejista indica ainda o assunto que vem tirando o sono do setor: mão de obra. O CEO diz que, se continuar a dificuldade de conseguir pessoas para ocupar as vagas, poderá ser inviável abrir lojas aos domingos. No videocast, o supermercadista detalha os investimentos até 2027, que a coluna já tinha noticiado, de mais de R$ 630 milhões, sendo R$ 441 milhões em operações gaúchas. Aliás, o Passarela, dono do atacarejo Via, terá mais receita gaúcha que catarinense depois de 2026.
Minuto Varejo – Como se diferenciar quando as redes estão cada vez mais próximas umas das outras na disputa pelo consumidor?
Alexandre Simioni – O consumidor nota a diferença. Algumas redes têm mix mais reduzido, com foco maior na mercearia. O perecível dá mais trabalho e muitas terceirizam o FLV (frutas, legumes e verduras). A gente acredita num modelo mais parecido com o do supermercado, mais completo, com todo o domínio dessa cadeia. Nosso CD em Teutônia recebe mercadoria de todo o Brasil. O atacarejo original não tinha perecível, só congelados. Não tinha pão francês ou cacetinho, mas só pães embalados. O modelo evoluiu porque o consumidor final está pedindo isso. Precisamos ser rápidos para nos adaptarmos. Esse é o segredo do varejo.
MV – Para onde caminha o atacarejo?
Simioni – Vemos modelos nos Estados Unidos e na China (estivemos lá em 2025), com mercados que vendem mais categorias de produtos, como eletroeletrônicos, móveis, vestuário, brinquedos e etc. No Brasil, estão sendo feitos testes com têxtil e pneus, para trazer dinheiro novo para dentro do negócio. O digital está crescendo muito e daqui a pouco vamos ser marketplace e ponto de retirada de produtos para facilitar a vida do consumidor. Já se fala em serviços e até de energia elétrica. Vai ser possível ter farmácia dentro do supermercado, por exemplo. Grupos nacionais como o Açaí vão entrar nesse segmento.
MV – Vocês vão ter farmácia dentro da loja?
Simioni – Temos hoje, mas são terceirizadas. Não temos intenção, por enquanto, pois o segmento de farmácia é concentrado em poucas redes. Dez varejistas detêm 80% desse mercado no Brasil. Acredito que não é vantajoso pelo volume que vai ter e a representatividade dos laboratórios.
MV – O que a China indica de caminho do varejo?
Simioni – O que está acontecendo de mais moderno está na China. Falamos de farmácias. Lá é tudo no digital e aqui é uma em cada esquina. A velocidade das mudanças é enorme, com uso de drones na logística e com redes de supermercados que só existem no digital. Se vier algum grupo chinês desse setor para cá e for mais competitivo que nós, com uma operação mais eficiente, o consumidor vai se adaptar.
MV – Por que a operação digital dos supermercados não acelera no Brasil?
Simioni – Ainda não temos tecnologia tão eficiente. Em outros países, temos a inteligência por trás das plataformas, que têm agilidade e não existe ruído nesse processo. Aqui, quando a gente vai comprar alguma coisa no aplicativo tem de colocar um monte de informações até conseguir o produto. O Mercado Livre já está entre as 10 maiores redes do Brasil (comprando com as supermercadistas), pois já fatura mais de R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões em produtos alimentícios por ano. É um concorrente invisível que a gente não está dando atenção, mas ele está entregando, incluindo no interior, até o dia seguinte.
MV – O que fazer para não ficar atrás dos marketplaces?
Simioni – A barreira de transporte é um problema para as redes físicas e falta muito para sermos empresas de logística, que é o que esses marketplaces são. Eles têm CDs por todo o Brasil e já usam transporte aéreo. A distância não é mais problema para eles. Nosso grande desafio é ter tecnologia para acompanhar e estar atento ao consumidor que gradativamente vai mudando, ainda mais com as novas gerações.
MV – Onde está hoje o maior gargalo das redes?
Alexandre Simioni – Inevitavelmente, é o problema de mão de obra. Se perguntar para a maioria dos supermercadistas, eles vão falar sobre a dificuldade de disponibilidade de mão de obra. Fala-se em jornada 5×2. Não tem como (adotar). Quem vai sofrer mais é o pequeno, que tem um ou dois funcionários. Como ele vai fazer para manter a loja aberta? É um grande desafio. Precisa inovar e rever a relação trabalhista no Brasil. O jovem quer liberdade, não quer trabalhar de tal hora até tal hora todo dia. Se tivéssemos essa flexibilidade (contratação), facilitaria mais para o empregado e para o empregador. Também é preciso investir na educação e nas pessoas.
MV – Essa situação pode impedir a abertura sete dias na semana como é hoje?
Simioni – Em São Paulo, tem redes fechando loja e transferindo colaboradores para outras unidades poderem funcionar. No Espírito Santo, o setor não abre mais no domingo, que, aqui, é o segundo melhor dia de venda! Não sei se fechar seria a saída. Talvez, reduzir o horário, abrindo até o meio-dia, tendo uma política diferente de trabalhar dois domingos e não folgar um dia durante a semana ou pagar um valor extra para quem trabalhar no domingo com horário reduzido. Tem de ver saídas que atendam às necessidades do empregador e do empregado. Mas falta diálogo para ver realmente o que seja bom para os dois lados.
MV – Como o grupo supre a falta de mão de obra?
Simioni – A loja da Via que abrimos no fim de 2025 em Lajeado tinha menos de 70% da mão de obra de que precisava. Buscamos empresas especializadas que atuam com trabalhadores terceirizados para preencher vagas de sábado, domingo e até dia de semana, mas o custo é bem mais alto. Muitas vezes até os nossos colaboradores, depois do horário, vão trabalhar nessas empresas. Já aconteceu de vir funcionários de outras redes para trabalhar na nossa loja depois do expediente. Tem muita gente querendo ganhar mais. Temos de ter mais liberdade para contratar.
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