Conselhos para a vida profissional que CEOs dão para os filhos

Conselhos para a vida profissional que CEOs dão para os filhos

Publicado em 8 de agosto de 2024

Líderes reforçam conceitos de atitude empática e felicidade no trabalho.

Manter uma atitude empática, uma vida com propósito e uma profissão que dê mais prazer do que “trabalho”. Esses são alguns dos conselhos de carreira que oito pais ouvidos pelo Valor, todos CEOs reconhecidos por suas trajetórias de gestão, já deram ou acreditam que darão para os filhos.

Na opinião de todos, com filhos de idades diversas – de quatro meses a 30 anos -, a paternidade os ajuda a desbravar o mundo corporativo. A maioria acredita que o cuidado com a família alavanca o desenvolvimento de competências críticas no alto escalão, como resiliência, paciência e criatividade.

Márlyson Silva, pai de Mike, de cinco anos, e CEO da Transfero, empresa de soluções financeiras baseadas em blockchain, ainda não conversa com o filho sobre assuntos profissionais, mas sabe o tom do discurso que gostaria de adotar. “Há conselhos práticos e essenciais”, afirma. “Como manter uma postura empática e adotar uma comunicação objetiva.”

“Oriento que se imaginem lá na frente exercendo o que enxergam hoje como caminhos potenciais”

Para o executivo, na firma com sede na Suíça desde 2015 e na cadeira de CEO a partir do ano passado, a postura profissional é um item indispensável na relação com colegas e na captação de oportunidades. “É importante entender as perspectivas alheias antes de agir”, ensina. “Isso não apenas fortalece as relações de trabalho, mas abre portas para um ambiente colaborativo e respeitoso.”

O CEO afirma que pretende encorajar o filho a praticar a arte do diálogo. “A habilidade de comunicar ideias é crucial em qualquer carreira”, garante. “A comunicação eficaz não apenas evita mal-entendidos, mas demonstra confiança.”

Silva diz que a paternidade está sempre ensinando algo que ele aplica nos limites corporativos. “É uma ‘escola’ que encontra paralelos no mundo dos negócios, especialmente nas dimensões da paciência e da mentoria”, relata. “Costumo me deparar com momentos em que meu filho enfrenta desafios completamente novos.”

Nessas horas, continua, percebe a relevância de ser mais do que um guia para ele. “E, assim como o Mike, às vezes os colegas enfrentam tarefas difíceis pela primeira vez”, conta. “Essa percepção mudou a minha abordagem sobre a liderança e procuro hoje ser mais do que um gestor no trabalho. Esforço-me para ser um mentor.”

Alberto Griselli, CEO da TIM Brasil, com dois filhos em vias de sair e entrar na adolescência, Isabella e Vittorio, respectivamente, diz que incentiva a dupla a fazer o que gosta. “Quando gostamos do que fazemos, nos dedicamos com vontade, sem medir esforços”, afirma. “Trata-se de um aspecto fundamental para sermos bem-sucedidos em sonhos e projetos.”

“Deve-se estar preparado para mudar de opinião, sem medo de parecer contraditório”

Quando os filhos acenam com dúvidas, sem saber que trilha seguir, a orientação dele é garimpar conhecimento. “Incentivo que pesquisem, viajem, busquem informações”, revela o executivo italiano que morou em Milão, Londres, Nova York e Brasília, antes de se estabelecer no Rio de Janeiro.

No cargo máximo da TIM Brasil desde janeiro de 2022, Griselli recomenda aos jovens que a identificação das paixões profissionais deve olhar para o longo prazo. “É preciso considerar propósitos e retornos, mas com pragmatismo. Imaginar aonde cada decisão vai nos levar”, diz. “Oriento que se imaginem exercendo lá na frente o que enxergam agora como caminhos potenciais.”

O CEO, que lidera uma companhia de dez mil funcionários, conta que a função de pai o ensina a ser mais paciente. “A paciência é uma virtude que aprendi a exercer ainda mais depois dos filhos”, revela. “É um ‘bem’ que precisa ser aplicado no dia a dia da paternidade e que se reflete em melhores decisões no campo profissional.”

As opiniões de Griselli são compartilhadas por Alexandre Lafer Frankel, CEO da Housi, startup do mercado imobiliário. “Ao escolher fazer algo que você ama, nunca vai precisar ‘trabalhar’ um único dia na vida”, diz o pai de Maya, 16, e Beny, 14 anos. “Independentemente da profissão e ramo de atividade escolhidos, o que for realizado com paixão os tornará bem-sucedidos e, acima de tudo, felizes.”

Frankel, que fundou a incorporadora em 2019, também conversa com a prole para nunca aceitar o “status quo”. “Tudo pode ser melhorado”, defende. “Nossa cultura familiar incentiva a pensar novas formas de resolver desafios diários. É um exercício que disciplina o cérebro a encontrar soluções criativas.”

A paternidade, segundo o executivo, é um como “farol” no expediente dos escritórios. Todo empresário vê seus empreendimentos como filhos, compara. “São trabalhosos, exigem dedicação e um amor inabalável. Muitas vezes, têm uma cronologia própria para evoluir e nem sempre tudo acontece como imaginamos.”

Na avaliação de Dennis Herszkowicz, presidente do grupo de tecnologia Totvs, a experiência familiar é pródiga em fornecer ensinamentos nos negócios – e vice-versa. O que inclui cumprir promessas, prometer somente o que pode realizar e acreditar nas relações humanas, lista o pai de Daniel, 14; e David, 16.

No posto de CEO desde 2018, Herszkowicz gosta de falar sobre flexibilidade com os garotos. “Deve-se estar preparado para mudar de opinião, sem medo de parecer contraditório”, aponta.

Felipe Calixto, CEO e fundador da Sankhya, empresa brasileira de software de gestão empresarial, acredita que cabe ao pai “desafiar” os filhos, para que se preparem para o mundo. Devem trabalhar por um propósito maior e não apenas por dinheiro, e estarem abertos a aprender e desaprender, diz. “O apego paralisa”, resume.

As sugestões são seguidas à risca pelos dois filhos, ambos dirigentes das próprias empresas. Flávio, 30, é CEO da Mitra, de desenvolvimento de sistemas corporativos; e Rafael Calixto, 27, conduz a Zydon, plataforma de comércio digital para distribuidores e indústrias. Sejam protagonistas nos negócios, aconselha o pai e executivo. “Em todo tombo ou erro, procurem analisar onde falharam e não busquem um culpado.”

A missão da parentalidade precisa ser compartilhada, acrescenta Gilney Bastos, presidente da multinacional de gases White Martins. “Não dá para falar de conselhos de pai sem reforçar a importância da mãe”, pontua. “Unificar valores ajuda na formação dos filhos.”

Bastos, pai de Gabriel, 28; Amanda, 26; e Tiago, 22 anos, explica que mais do que dar direções que exaltem características como dedicação, esforço ou comprometimento, é fundamental reforçar três pilares. Autoconfiança, para que saibam valorizar as melhores qualidades e usá-las na conquista de objetivos; a determinação, porque não terão um

tapete vermelho para alcançar tudo o que querem, e um “equilíbrio” na felicidade, elenca. “Procurem buscar em suas carreiras o que os façam felizes, independentemente do balanço final, com mais ou menos qualidade de vida, com mais ou menos retorno financeiro, mas com felicidade todos os dias”, detalha Bastos, na White Martins há 36 anos.

João Adibe, presidente da indústria farmacêutica Cimed, há 38 anos na companhia – começou no batente aos 14 -, gosta de passar para os filhos as mesmas doses de sabedoria que o pai lhe transmitia. “Nunca esquecer as nossas origens, honrar o legado dos avós, que criaram a companhia; e ter a inovação como premissa para crescer”, lembra.

Dos cinco filhos – Adibe Marques, 26; Esther, 23; Bruna, 21; João Pedro, 9; e Charlotte, 4 anos – os três mais velhos já podem ser encontrados nos corredores da Cimed. Enquanto Marques é diretor comercial, as duas irmãs são analistas de marketing.

“Paternidade é sobre amor, disciplina e dedicação”, reflete Adibe, que atua como CEO desde 2012. “Essas premissas valem para todas as esferas da vida. Com elas, as chances de ‘dar errado’ são mínimas em qualquer relacionamento e no trabalho.”

Para que eu possa orientá-los no trajeto que eles decidirão, procuro entender cada um, conta Alexandre Carreteiro, presidente da PepsiCo Brasil Alimentos, sobre as experiências que divide com os filhos. O intuito é mostrar que o essencial é achar alegria no equilíbrio entre os interesses pessoais e profissionais, relata. “É um olhar que veio dos meus pais, especialmente da minha mãe, psicóloga, sempre disponível para aconselhar e ouvir.”

Carreteiro tem seis filhos – Lucas (19), Thais (16), Esteban (14), Eliseu (12), Hugo (11 anos) e o pequeno Enzo, de 4 meses – e, para ele, um dos mantras que prefere reproduzir é saber conviver com as falhas. “Assumir riscos, errar e corrigir é mais valioso do que esperar pela perfeição”, garante. “Mostro que estaremos sempre por perto, para que eles estejam seguros de que terão o apoio da família.”

O executivo, que já morou em nove países, acredita que leva a resiliência no caminho de casa para o trabalho. “É uma habilidade amplificada entre pais e mães”, analisa. “Precisamos nos adaptar o tempo todo às situações diferentes, procurando agir com visão do futuro e assertividade.”

Fonte: Valor Econômico
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