Consignado CLT: saiba como evitar que o alívio nas contas se transforme em uma nova dívida

Consignado CLT: saiba como evitar que o alívio nas contas se transforme em uma nova dívida

Publicado em 25 de agosto de 2026

Empréstimo em folha pode elevar o comprometimento do salário com pendências e gerar mais atraso nas contas.

Com a inadimplência estacionada em patamar elevado no país, muitos cidadãos que enfrentam o descontrole das contas acabam buscando soluções rápidas para tentar sair dessa situação. Nos últimos meses, uma das alternativas lançadas pelo governo federal nesse sentido foi o consignado CLT, criado com a proposta de ser uma ferramenta ágil e acessível de crédito.

Especialistas alertam que o mecanismo, que envolve desconto direto das parcelas no contracheque, deve ser utilizado com cautela para evitar que o comprometimento do salário com dívidas ultrapasse o nível considerado adequado, já que  algumas instituições financeiras oferecem linhas com taxas muito acima das praticadas pelo mercado. Ou seja, uma alternativa criada para dar fôlego ao orçamento pode, em determinadas situações, contribuir para aumentar a bola de neve do endividamento e atrasos nas contas.

Hoje, o Crédito do Trabalhador permite comprometer até 35% da remuneração disponível do trabalhador com o pagamento das parcelas. Já no âmbito dos juros cobrados, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou em entrevista ao Gaúcha Atualidade no último dia 11, que a taxa média de juros cobrada nesse tipo de produto estava em 3,55%.

No entanto, como a coluna Acerto de Contas já mostrou, há casos de trabalhadores que comprometem mais de 35% da renda com empréstimos, considerando outras operações, e também situações em que as taxas cobradas ficam acima da média mencionada.

Nesse cenário, é ainda mais importante analisar com atenção o produto oferecido pela instituição antes de contratar o crédito. Um dos cuidados é ter clareza sobre o Custo Efetivo Total (CET) da operação, e não apenas sobre a taxa de juros cobrada.

— Muitas instituições financeiras que estão oferecendo o crédito consignado do trabalhador acabam colocando ali algumas taxas também, como taxa de contratação ou alguma outra cobrança que não fica muito clara. Então, o ideal é que o trabalhador consiga comparar as taxas de Custo Efetivo Total desse crédito que está buscando — alerta a economista e educadora financeira Janile Soares.

A profissional também destaca o fato de algumas operações utilizarem recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como garantia do empréstimo. Nesse caso, parte desses recursos, que funcionam como uma espécie de colchão de segurança para o trabalhador, pode ficar comprometido.

“No caso de uma perda de emprego, as pessoas acabam contando com o FGTS e esquecem que, no momento da contratação de um crédito consignado CLT, podem já ter comprometido parte desse recurso. É importante lembrar disso antes de contratar o empréstimo.”

JANILE SOARES

Educadora financeira.

Menos dinheiro para consumo e mais informalidade

Os casos de trabalhadores que contratam créditos consignados com taxas acima do mercado e com modelos menos vantajosos acendem um alerta para a economia.

O vice-presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas), Tarcísio Pires, destaca dois problemas principais atrelados a esse ambiente. De um lado, a bola de neve de dívidas com consignados reduz o dinheiro disponível para o consumo e, consequentemente, afeta a atividade do comércio.

De outro, segundo Pires, há casos de trabalhadores que, diante do comprometimento elevado da renda com empréstimos, acabam deixando empregos formais e migrando para a informalidade.

— Se você somar esses empréstimos que eles pegam, dá quase mais da metade do salário, e isso fica inviável de pagar. Então, eles pediram para sair para não pararem. Ou seja, eles foram para o mercado informal — analisa Pires.

O empresário destaca que, muitas vezes, os trabalhadores acabam caindo em juros muito acima do mercado, porque bancos estatais e cooperativas, que oferecem condições melhores, possuem restrições de crédito maiores. Como alguns já têm restrições no nome, acabam sendo empurrados para o mercado de juros exorbitantes.

“Tem uma questão do desespero, de um pai de família que não consegue honrar as suas contas, uma pessoa que nunca passou por isso. E aí essa pessoa faz qualquer coisa, infelizmente. Então, ela recorre sim a esse mercado.”

TARCÍSIO PIRES

Vice-presidente do Sindilojas Porto Alegre.

Em uma pesquisa divulgada em abril pelo Sindilojas, mais da metade dos empreendedores ouvidos (56,30%) relataram ter funcionários com empréstimos consignados ativos. O valor mediano da taxa de juros identificado pelo levantamento é de 8,63% ao mês, acima do teto do cheque especial (8%), por exemplo.

Pires destaca que a educação financeira é um dos principais caminhos para tentar evitar situações como essa. Inclusive, destaca que busca tratar desse tema no seu negócio, junto dos colaboradores, para alertar sobre armadilhas que envolvem empréstimos com condições ruins.

Vai contratar? Confira dicas para não correr riscos

  • Verifique o Custo Efetivo Total (CET) da operação. Além da taxa de juros, é essencial observar o CET, pois muitas instituições incluem taxas de contratação que não ficam claras no oferecimento do produto.
  • Compare com as taxas de dívidas atuais. O crédito só é vantajoso se os juros forem menores do que os das suas contas atuais, como o cheque especial, rotativo do cartão de crédito ou outros empréstimos pessoais.
  • Lembre-se do desconto direto na folha de pagamento. Tenha em mente que o valor será descontado diretamente do seu salário, o que reduz sua renda disponível mensalmente de forma automática.
  • Avalie o impacto no FGTS. Esse recurso funciona como garantia. Em caso de demissão, o saldo pode ser utilizado para quitar o empréstimo, o que pode comprometer sua reserva de segurança.
  • Evite a contratação por impulso. A facilidade de contratar via aplicativo e a rapidez da aprovação são riscos. Esse processo exige organização financeira prévia para não estimular o endividamento.
  • Priorize a reorganização financeira. O crédito deve ser direcionado para quitar dívidas mais caras e organizar a vida financeira, e não ser usado para novos gastos de consumo.
  • Tente evitar mais um acúmulo de dívidas. Caso o consignado pague apenas parte de uma dívida antiga, você terá que lidar com o pagamento simultâneo da parcela nova e do saldo restante da anterior. Atente para isso.
Fonte: Gaúcha GZH
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