08 mar Covid aumentou diferença de renda entre os gêneros
Covid aumentou diferença de renda entre os gêneros
Fosso salarial entre homens e mulheres é maior em regiões do país cuja economia é mais forte.
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A desigualdade de renda do trabalho entre homens e mulheres aumentou com a pandemia e ainda não se recuperou do choque da covid-19. Quando o recorte é idade, a diferença de rendimento médio real dentre aqueles entre 18 e 59 anos de idade cresceu desde o fim de 2019. O mesmo vale quando se analisam setores como educação, saúde, administração pública, transporte e outros serviços. Quando o recorte é escolaridade, o cenário é heterogêneo.
Especialistas afirmam que as diferenças são maiores em regiões economicamente mais dinâmicas e que a pandemia afetou mais as mulheres por causa da dupla jornada. Afirmam que solucionar a sub-representação feminina em postos de alta remuneração é um trabalho de longo prazo, que passa também por ofertar serviços públicos do cuidado.
Apesar da redução da desigualdade nos últimos dez anos homens entre 18 e 24 anos recebem R$ 1.686 em média e mulheres da mesma idade, R$ 1.439. No grupo entre 25 e 39 anos, homens ganham R$ 3.104, e mulheres, R$ 2.502. A discrepância cresce conforme a idade avança – homens de 40 a 59 anos ganham R$ 3.526, e mulheres, R$ 2.663. Na faixa etária de 60 anos ou mais, homens recebem R$ 3.693, e mulheres, R$ 2.597, segundo dados do quarto trimestre de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad) Contínua reunidos pela LCA Consultores.
Quando se analisam os setores, a diferença de rendimentos médios, com os homens ganhando mais que as mulheres, chega a 29,8% dentre homens e mulheres que trabalham em serviços domésticos, 42,3% em outros serviços, 68,7% em educação, saúde humana e serviços sociais, e mais de 41% em indústria e em informação, comunicação e atividades financeiras. No setor de construção ocorre o inverso – a diferença de rendimentos médios é puxada pelas mulheres ganhando mais.
Se o recorte é grau de instrução, o retrato é mais heterogêneo. Os salários mais altos dos homens são visíveis em todos os graus de instrução, mas se manifesta com mais força dentre empregados com ensino superior incompleto.
“Essas diferenças foram ainda mais acentuadas com a pandemia. Vivemos em uma sociedade em que mulheres acabam encarregadas de afazeres domésticos e de cuidar de crianças, sendo que muitas acabaram não conseguindo colocar seus filhos na escola”, afirma Bruno Imaizumi, economista da LCA.. “Essas mulheres foram as mais afetadas pelo mercado trabalho. Algumas ficaram sobrecarregadas com a dupla jornada, outras tiveram de sair para cuidar de afazeres domésticos e filhos, outras não conseguiram se reinserir.”
O economista afirma que essa dupla jornada tem relação com a sub-representação das mulheres na arena política, que influencia na oferta de leis em prol de mulheres com filhos. “Existe diferença salarial entre homens e mulheres, mas também entre mulheres mães e não mães. O empregador sabe que tem mais custos com mulheres mães”, diz. “Isso afeta como as leis vão moldando o mercado de trabalho. E acaba impactando o salário da mulher para a vida toda.”
Para Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o cenário hoje explicita o retrocesso no que diz respeito à equidade de gênero no mercado de trabalho. “Após dois anos de pandemia, estamos retrocedendo a passos largos em termos de inserção feminina no mercado de trabalho”, diz.
Ela afirma que nas regiões do país que são pouco dinâmicas economicamente a diferença de rendimentos entre homens e mulheres é baixa. É o caso de Estados como Acre, onde a diferença é de 4,7%, ou mesmo no Maranhão, onde chega a 8%, segundo números da Pnad C compilados pela economista. Mas, enquanto em São Paulo, por exemplo, a economia mais dinâmica e a grande variedade de postos de trabalho explicam diferenças. No Distrito Federal, a quantidade de homens no Legislativo explica por que empregados ganham mais do que empregadas.
O Brasil mostra um padrão parecido ao de seus vizinhos na América Latina, afirma Flávia Biroli, cientista política da Universidade de Brasília (UnB). “As mulheres têm participação menor na força de trabalho remunerado, e informalidade e desemprego são maiores entre mulheres, o que significa que têm menos garantia que os homens. Há desigualdades nas mesmas ocupações, e mesmo quando são mais educadas, enfrentam maior desigualdade”, diz.
Ela argumenta que parte desse cenário é reflexo do “machismo enquanto força organizadora da sociedade”, com mulheres contratadas para vagas de menor valor e menos promovidas que homens. “Mas, em termos de causas, nos limitamos se olharmos para essa desigualdade como resultado de padrões e machismo, sem entender que a sociedade responsabiliza mulheres pelo trabalho doméstico, e isso dificulta muito sua vida profissional”, afirma.
“O horário da creche não bate com o do trabalho, assim como o da reunião da escola. Se ela sai de licença-maternidade, muitas vezes retorna e não assume as funções anteriores. As rotinas não são acomodadas para a maternidade. A própria mulher pode pensar que é melhor ela não ficar em lugar de chefia. Isso cria padrões diferentes para mulheres e homens.”
O problema, afirma Flávia, não é o fato de as mulheres cuidarem, mas de os homens não cuidarem e de a sociedade não estar preparada para ofertar e assumir serviços de cuidado. Se houvesse escolas em horário integral, compatível com o do trabalho e acessível, o panorama seria outro, diz. “Enquanto fizermos a responsabilização do cuidado recair sobre mulheres, teremos desigualdade de gênero nas relações de trabalho”, alerta.
Ela afirma que, mesmo que houver compartilhamento das tarefas com os homens, corre-se o risco de haver o problema reverso. Por isso, defende, é preciso oferta de serviço público do cuidado.
Ana Güezmes, diretora da divisão de Assuntos de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal), diz que a sobrecarga do trabalho de cuidado limita a inserção das mulheres na educação, na participação política, e em atividades para receber mais ingressos, central para sua autonomia.
“Liberar o tempo das mulheres e garantir sua autonomia econômica produz externalidades positivas que repercutem no restante da economia e, consequentemente, na arrecadação fiscal do Estado”, diz, ao lembrar que na América Latina uma de cada duas mulheres estão fora da força de trabalho, em comparação à proporção de um para quatro entre os homens.
“Na região, as mulheres dedicam 19,6% do seu tempo ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, enquanto os homens dispõem apenas 7,3% do seu tempo para isso. Ou seja, dedicamos a essas atividades quase o triplo do tempo que eles”, continua.
Ana acrescenta que o aporte do trabalho não remunerado das famílias ao PIB variou de 15,9% a 27,6% nos dez países onde isso foi mensurado. “Cerca de 74% desse aporte é realizado por mulheres”, afirma. “Apesar de sua contribuição à economia, o trabalho doméstico e de cuidados é pouco valorizado socialmente e não costuma ser contabilizado no PIB.”
Depois de muitas mulheres terem deixado seus trabalhos para se dedicar à economia do cuidado na pandemia, diz, o que implicou um retrocesso de quase duas décadas na participação laboral feminina, desde 2021, a recuperação do emprego tem sido desigual.
“Entre homens e mulheres, a brecha do desemprego não conseguiu ser diminuída. Isso também se manifesta na população desocupada. A taxa de desocupação para mulheres em 2021 na região foi de 11,3%, enquanto para os homens foi de 7,7%. Dentre os mais pobres (primeiro quintil), as brechas se acentuaram: 18,9% para mulheres e 13,1% para homens”, afirma.
Bruna Oliveira Holmo, de 37 anos, parou de trabalhar quando a filha nasceu, há seis anos. Depois de uma gravidez complicada marcada por placenta prévia, bolsa rota e pré-eclâmpsia, Sofia nasceu na 26ª semana de gestação com 670 gramas e 23 centímetros de comprimento. “Foi um trauma muito grande, ela era prematura extrema. Foi decisão minha parar de trabalhar para cuidar dela”, conta.
À época, Bruna havia deixado de lado a carreira de pedagoga para trabalhar em um salão de beleza em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, e dando cursos de depilação e manicure.
Agora tenta voltar para uma área nova. Fez um curso de editoração e está cursando letras a distância. Montou um Instagram para dar dicas de leitura e ajudar a impulsionar a nova carreira.
“Estou tentando voltar, de olho nas coisas que surgem no LinkedIn. A maternidade me afetou muito. Não me arrependo de ter saído do mercado, mas me arrependo de ter demorado para voltar”, afirma, ao dizer que quanto mais tempo fora do mercado, mais complicado é retornar.
A maternidade traz a ideia de que se retrocedem várias casas na carreira, afirma uma advogada que trabalha em escritório de direito corporativo de médio porte e pediu para não ser identificada.
“Quando você volta de licença-maternidade, acaba voltando umas casas que, se não tivesse saído de licença, estaria mais à frente”, diz a advogada, mãe de três filhos. “O impacto na carreira não é só na licença, mas nessa retomada. Não há qualquer tipo de concessão e quem volta acaba sendo julgada pelas mesmas réguas de quem não saiu. A mulher que volta da licença tinha de ser dispensada da avaliação [para progressão de carreira] naquele ano.”
Ela conta que estava na comissão de avaliação de sócios do escritório e nas fichas dos homens que haviam entrado no meio do ano aparecia asterisco indicando que o funcionário não havia trabalhado o ano todo ali. Para mulheres que haviam tirado licença-maternidade, isso não ocorria e, no fim, parecia que tinham desempenho pior.
“Quando alguém sai para estudar fora, é promovido no retorno. Mas quando sai de licença tem essa promoção questionada”, diz.
Ela observa ainda que é comum na base da pirâmide haver mais mulheres e, nas posições mais altas, majoritariamente homens.
A assimetria de gênero aumenta conforme cresce o grau de remuneração. Levantamento feito pelo FGV Ibre com base nos dados da Pnad Contínua mostra que no grupo dos 10% mais bem remunerados por hora trabalhada, apenas 33% são mulher. “No topo, a diferença é bem representativa.”
“As mulheres representam um terço, quando se comparam indivíduos semelhantes, de 24 a 49 anos e com ensino superior”, diz Janaína. “Essa sub-representação é constante ao longo do tempo e não será resolvida com uma canetada.”
Uma advogada do meio empresarial conta ter perdido partes na sociedade justamente porque “não performou igual” aos outros advogados no ano em que esteve de licença. “Proporcionalmente, eu trabalhei a mesma quantidade de horas. Mas acabei perdendo cotas sob o argumento de que nominalmente eu fiz menos horas”, afirma, ao dizer que durante a licença-maternidade se sentiu extremamente devedora ao escritório.
“Já ouvi: ‘Melhor pensarmos duas vezes antes de fazer mulheres sócias, porque elas esperar virar sócias para poder engravidar’, mas o que vejo mais uma desigualdade velada”, conta outra. “Na hora da promoção sempre há justificativas [para não promover a mulher que ficou grávida ou tem filhos]. Como não se mede performance de forma matemática, dizem: ‘Você não foi bem na última reunião, você não estava aqui’. Existe um forte apoio masculino para desenvolvimento, geração de negócios, e isso nem sempre é estendido às mulheres.”
Dia das Mulheres: Presença feminina no mercado de trabalho não volta ao pré-pandemia
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Para além da renda, os desníveis entre homens e mulheres se estendem ao próprio engajamento feminino no mercado de trabalho. Quase três anos depois do início da pandemia, a taxa de participação de mulheres – indicador que mede a parcela de mulheres ocupadas ou em busca de trabalho – ainda não se recuperou. A taxa feminina era menor antes da crise sanitária e teve perda mais intensa.
O percentual era de 52,7% no quarto trimestre de 2022, ainda abaixo dos 54,3% do quarto trimestre de 2019, antes de qualquer efeito da pandemia, segundo levantamento feito pela Tendências Consultoria a pedido do Valor a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.
“Temos uma taxa de participação menor das mulheres no mercado de trabalho, que tem a ver com o nível de ocupação, que historicamente é menor. Na pandemia, essa taxa de participação caiu ainda mais e não se recuperou”, afirma o economista Lucas Assis, responsável pelo estudo.
Professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Diana Gonzaga aponta que muitas mulheres tiveram que assumir mais atividades não remuneradas, com cuidados domésticos e com as famílias na pandemia, contribuindo para esse movimento. Além disso, setores mais afetados nesta crise – como serviços e comércio — têm sobrerrepresentação de mão de obra feminina.
“A pandemia teve essa característica de afetar mulheres de várias formas. Primeiro, por fatores estruturais. Muitas mulheres tiveram que assumir papéis como cuidados domésticos, com filhos e até com idosos. Isso aumentou a carga de trabalho não remunerada. Ao mesmo tempo, dependendo do tipo de trabalho que realizava, também foi afetada, como nos casos de serviços e comércio”, explica Diana Gonzaga.
Moradora de Vila Velha (ES), a administradora de empresas Danyara Porto dos Santos Santa Cruz, de 36 anos, foi uma das mulheres que pararam de trabalhar na pandemia. Ela tinha retornado ao mercado de trabalho um ano antes, depois de as filhas Laura e Luisa — hoje com 11 anos e 8 anos, respectivamente — terem crescido. Teve que manter o trabalho presencial e intercalava com o marido os cuidados com as filhas e a casa.
“Eu trabalhava num gabinete do governo do Estado e continuava no presencial, assim como meu marido. A gente intercalava os dias. Tinha todo o medo do vírus e tendo que organizar a casa e apoiar as crianças. Ficou insustentável”, conta. No fim de maio, o marido teve uma crise de diverticulite e ela decidiu parar.
“Fiquei um pouco triste, mas não tinha outra opção. O que eu ganhava era basicamente para pagar a pessoa que me ajudava em casa, o transporte das crianças e um pouco a mais. Eu passei a cuidar de tudo em casa. O orçamento ficou mais justo, mas era o que a família precisava”, diz. Hoje, pensa em voltar a trabalhar, mas busca um horário mais flexível.
O estudo da Tendências Consultoria mostra também outro aspecto dessa desigualdade: é maior entre as mulheres tanto a subocupação por insuficiência de horas quanto a força de trabalho potencial, que são as pessoas com disponibilidade para trabalhar, mas que não buscaram trabalho. Nesses casos, a principal razão para não buscar trabalho está nos cuidados com a família e os afazeres domésticos, motivo quase inexistente entre os homens, segundo ele.
“As mulheres são maioria entre os trabalhadores subocupados por insuficiência de horas e também na força de trabalho potencial. Esse resultado comprova a necessidade de ampliação da rede de cuidados para ampliar a participação das mulheres no mercado de trabalho”, afirma Assis.
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