Cresce uso de medicação para saúde mental pelo trabalhador

Cresce uso de medicação para saúde mental pelo trabalhador

Publicado em 16 de setembro de 2025

Pesquisa com 774 profissionais com nível superior mostra que 52% dos líderes e 59% dos liderados fazem uso desse tipo de medicação em 2025. Eram 18% e 21% em 2024, respectivamente.

O uso de medicamentos para lidar com estresse, ansiedade e burnout disparou em 2025, na comparação com 2024. A constatação é da pesquisa Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, realizada pela The School of Life, escola com foco em inteligência emocional e autoconhecimento, em parceria com a consultoria de recrutamento Robert Half.

Segundo o levantamento obtido pelo Valor, que ouviu 774 profissionais de diferentes regiões do Brasil, com nível superior e 25 anos de idade ou mais, 52% dos líderes e 59% dos liderados fazem uso desse tipo de medicação em 2025. Eram 18% e 21% em 2024, respectivamente.

Diana Gabanyi, CEO da The School of Life Brasil e head de experiências corporativas da escola, explica que o salto expressivo não está ligado a mudanças metodológicas na pesquisa. “Trata-se de um aumento real, que revela um fenômeno alarmante e para o qual poucas empresas estão preparadas. No nível individual, esse dado é extremamente dramático”, diz.

Para ela, esse é o retrato de um ambiente corporativo em que a ansiedade cresce a ponto de afetar diretamente a saúde mental. “Quando observamos pessoa por pessoa, cada número representa alguém que está vivendo um grau de sofrimento psíquico tão intenso que precisa recorrer à medicação para conseguir manter sua rotina de trabalho”, diz.

A pesquisa mostra também que falar de saúde mental no trabalho ainda é um tabu. Os dados revelam que 73% dos gestores e 33% dos funcionários não contaram às suas lideranças sobre o uso da medicação – evidenciando que quanto mais alto o cargo, menor o espaço para assumir vulnerabilidades. “Tornou-se quase normal que pessoas em cargos de liderança estejam profundamente estressadas e sintam que não podem correr o risco de revelar suas vulnerabilidades a quem está acima na hierarquia”, comenta Gabanyi.

Maria Sartori, diretora de mercado da Robert Half, afirma que ainda há uma expectativa cultural de que líderes sejam resilientes a todo custo, o que dificulta a exposição de vulnerabilidades. “Muitos ainda temem perder credibilidade ou ver sua imagem de autoridade comprometida ao admitir fragilidades relacionadas à saúde mental, mesmo que elas sejam inerentes a qualquer ser humano”, detalha. “Soma-se a isso a pressão constante por resultados, que tende a reforçar esse silêncio.”

Por outro lado, ela enxerga um processo de valorização de lideranças mais autênticas, que reconhecem seus limites e servem de exemplo ao tratar o tema com transparência. “Esse movimento ajuda a quebrar o tabu e abre espaço para culturas organizacionais mais saudáveis, nas quais o bem-estar ultrapassa o discurso e se torna uma prática cotidiana.”

Ao mesmo tempo em que o assunto segue como tabu, 56% dos líderes responderam que a organização na qual trabalham incentiva ativamente que os líderes acolham questões de saúde mental e emocional da equipe. O dado, diz Sartori, mostra um descompasso entre o discurso institucional e a prática cultural. “Muitas empresas já reconhecem a importância de oferecer suporte emocional às equipes, mas não garantem o mesmo nível de acolhimento para quem ocupa cargos de gestão”, afirma. “O resultado é um líder que cuida do time, porém não encontra espaço seguro para tratar das próprias questões.”

Fonte: Valor Econômico
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