09 ago Crescimento será insuficiente para baixar desemprego pós-pandemia
Crescimento será insuficiente para baixar desemprego pós-pandemia
Volta da força de trabalho ao mercado e problemas estruturais sustentam taxa.
Normalizadas as condições sanitárias no país, em 2022, o número de brasileiros com algum tipo de ocupação remunerada deve se aproximar dos níveis pré-pandêmicos, assim como a taxa de desemprego, que girava em torno de 12% em 2019. Não significa dizer, contudo, que o mercado de trabalho, que já vinha com problemas antes da crise provocada pelo coronavírus, passará a ver números muito melhores nos próximos anos, ainda que a atividade volte a crescer perto do potencial, ao redor dos 2%, segundo economistas.
No curto prazo, a taxa de desemprego deve continuar muito alta mesmo com a recuperação da economia, porque a força de trabalho, que diminuiu muito na pandemia, deve se recuperar. No longo prazo, dificuldades agravadas pela atual crise devem manter uma parcela de cidadãos fora do mercado.
No trimestre encerrado em maio, a força de trabalho, que reúne pessoas empregadas e aquelas à procura de ocupação, ainda era 4,43 milhões menor que no mesmo período em 2019. “Só consigo imaginar uma taxa de desemprego de 12% em 2022”, afirma Silvia Matos, economista do FGV Ibre. Baixar muito mais além desse número dependeria de um crescimento econômico muito elevado, que por enquanto está fora das previsões. O FGV Ibre estima alta de 1,6% no PIB de 2022.
Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, avalia que com um crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,5%, o dobro da média do período entre 2017 e 2019, seria possível chegar a uma taxa de desemprego de 9,5% em 2025. O que resultaria em torno de 10 milhões de desempregados, um número elevadíssimo, levando em conta a recuperação da força de trabalho.
A projeção de Donato para a chamada taxa “natural” de desemprego, aquela considerada de equilíbrio, que não acelera a inflação, também é de 9,5%, mas ele observa ser importante separar a análise conjuntural da estrutural. Sob o ponto de vista conjuntural, diz, o país pode voltar a ver uma taxa de 9,5% nos próximos anos. “Não é impossível acontecer. Mas isso não tem relação com a taxa estrutural, de longo prazo”, afirma. A questão é melhorar os fundamentos da economia para que essa taxa, que é alta, caia, ou pelo menos que não suba mais.
“Temos revisado a taxa natural à medida que incorporamos o crescimento menor da economia nos últimos anos e que o país foi ficando para trás na promoção dos fatores estruturais que ajudariam a puxá-la para baixo”, afirma. Os fatores são capital (investimento, em queda há anos) e trabalho (produtividade, estagnada).
O horizonte, por ora, não é favorável. Nos próximos anos, o país deve observar um aprofundamento da chamada uberização das formas de trabalho, com o avanço da mecanização, uma tendência mundial.
“Há uma legião de trabalhadores em potencial de risco de perda de emprego. É um mercado em transformação e exige uma qualificação que não está ocorrendo na nossa mão de obra. E isso é compatível com um desemprego perto de dois dígitos.”
Além disso, o baixo crescimento potencial da economia brasileira, as deficiências na educação básica e as transformações trazidas pela pandemia – como a aceleração da digitalização nas empresas – estão entre os fatores que devem manter alto o número de brasileiros sem ocupação, ou mesmo subocupados.
Uma característica da atual crise é que as transformações na maneira de fazer negócios se aceleraram e intensificaram a desigualdade no mercado de trabalho. “O que mais ouvimos dos CEOs no ano passado é que eles aceleraram o uso de tecnologias digitais. Isso tem implicações na empregabilidade das pessoas. Há uma camada da população que está despreparada para esse avanço tecnológico”, afirmou a economista Zeina Latif em evento na semana passada. Para ela, após a pandemia, a taxa natural de desemprego será mais elevada. Ela estaria hoje perto de 9,5%, segundo a economista.
Estudos sugerem que as crises estão intensificando a substituição de trabalhadores menos qualificados por automação, afirma o economista Bruno Ottoni, pesquisador do instituto IDados. Ocorreu na recessão 2015-2016 e está ocorrendo agora. Mas o pesquisador vê a taxa natural de desemprego mais influenciada pela baixa produtividade do trabalhador e a rigidez da legislação trabalhista que por esse fator tecnológico. Isso porque os trabalhadores substituídos, por assim dizer, não ficariam necessariamente sem ocupação, mas migrariam para uma posição mais precária no mercado.
“No Brasil, há muita ocupação que é de oferta, em que o indivíduo vai trabalhar sem saber se há demanda. Uber, por exemplo”. Nesse sentido, Ottoni vê uma mudança de perfil do trabalho no pós-pandemia, em que vai aumentar – ainda mais – o trabalho informal, com queda de renda. “São empregos de baixa qualidade em que o ajuste vai se dar na renda”.
O certo é que as crises também tendem a elevar o desemprego de longo prazo, acima de dois anos. Levantamento feito por Bruno Ottoni, do IDados, mostra que, no primeiro trimestre de 2021, a desocupação de longo prazo atingiu o recorde de 3,5 milhões de pessoas. O mesmo já tinha acontecido na recessão de 2015-2016. “Os dados revelam que, em períodos de recessão, aumenta a dificuldade em achar emprego para aqueles que já estavam desempregados. Dessa forma, o acúmulo de pessoas desocupadas de longo prazo se agrava”. Homens, negros e pessoas acima de 30 anos formam a maior parte desse contingente em 2021.
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