02 jan Crise de saúde mental é global e atinge mais o setor de serviços
Crise de saúde mental é global e atinge mais o setor de serviços
Cerca de 12 bilhões de dias úteis são perdidos por depressão e ansiedade a cada ano, custando à economia global US$ 1 trilhão.
Uma pandemia de saúde mental está tomando conta dos locais de trabalho no mundo, com o setor de serviços entre os mais duramente atingidos. O alerta é de empresas e economistas.
Pesquisa feita este ano pela Deloitte constatou que a proporção de trabalhadores do Reino Unido que sofrem de todos os três principais sinais de esgotamento – exaustão, queda no desempenho e distanciamento mental do trabalho – é de 17% no setor de finanças e seguros, comparado com uma média de 12% em outros setores.
O estudo acrescenta que o custo anual médio de saúde mental precária por funcionário em finanças e seguros é de 5.379 libras, mais que o dobro do que em qualquer um dos outros 14 setores pesquisados. O estudo se junta a um volume crescente de pesquisas sobre o impacto de uma crise global de saúde mental nas empresas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 12 bilhões de dias úteis são perdidos por ano para a depressão e a ansiedade, custando à economia mundial US$ 1 trilhão por ano. “A escala do problema é preocupante, especialmente entre jovens”, diz Kate Pickett, professora de epidemiologia da Universidade de York, no Reino Unido. “As pessoas perguntam se estamos apenas medindo mais doenças mentais porque as pessoas estão mais dispostas a relatá-las”, acrescenta. “Mas o aumento é tão grande que há algo real acontecendo.”
Os fatores que estão motivando a crise global de saúde mental vão do custo de vida ao uso das redes sociais. Mas as empresas estão se concentrando cada vez mais em maneiras de promover o bem-estar dos funcionários. “Os líderes precisam estar preparados para acolher mais conversas sobre todo o espectro da saúde mental”, diz John Flint, ex-CEO do HSBC e chefe do National Wealth Fund do Reino Unido.
Pesquisa da OMS constatou que os casos de depressão aumentaram 25% globalmente em 2020 e 2021. “Ainda não voltamos aos níveis pré-pandemia”, diz Dan Chisholm, um especialista em saúde mental da OMS.
Elizabeth Hampson, sócia que lidera a área de pesquisas da Deloitte, diz que a deterioração do bem-estar dos jovens está aumentando a pressão sobre os pais que trabalham, com um em cada cinco filhos tendo um provável transtorno de saúde mental em 2023, em comparação a um em cada nove em 2017. Ela acrescenta que as preocupações dos pais com a saúde mental dos filhos custam aos empregadores do Reino Unido 8 bilhões de libras por ano.
Pesquisa global com 12.200 trabalhadores da MindForward Alliance constatou que problemas de saúde mental são mais comuns em empresas financeiras e escritórios de advocacia do que em outros setores. Mas o estudo descobriu que essas áreas estão trabalhando mais do que outras para promover o bem-estar mental.
Alison Unsted, CEO da MindForward, que trabalha com as empresas para estimular o bem-estar dos funcionários, diz que quando os executivos abordaram abertamente o problema, 85% de seus funcionários se sentiram amparados, em comparação com apenas 31% quando eles não fizeram isso.
Rob Jupp, CEO do Brightstar Group, que luta contra a depressão desde a infância, fez do bem-estar mental dos funcionários uma prioridade em sua empresa do setor financeiro. “Estou envergonhado por ter protelado essa abertura por tanto tempo”, diz. “Quando eu era criança, não era aceitável falar de saúde mental. Então eu comecei a falar sobre isso e me senti melhor.”
Ele acrescenta que seus funcionários têm reuniões mensais com um coach de vida e a companhia tem socorristas de saúde mental há anos. O investimento valeu a pena em termos de melhor retenção de funcionários, menos dias de doença e produtividade 40% a 60% maior do que a de empresas comparáveis, segundo a Brightstar.
Um estudo recente da Universidade de Oxford, usando dados do site de recrutamento Indeed, ilustrou o argumento de negócios para investir na melhoria da saúde mental no ambiente de trabalho. Analisando as respostas de 1 milhão de trabalhadores de 1.782 empresas de capital aberto dos EUA, constatou uma “forte relação positiva entre o bem-estar dos funcionários e o desempenho da empresa”, diz Jan-Emmanuel De Neve, professor em Oxford e líder do projeto.
Uma carteira de ações simulada das 100 companhias que obtiveram as melhores pontuações nas pesquisas de bem-estar do Indeed superou consistentemente os principais índices do mercado de ações. Desde janeiro de 2021, a carteira saiu-se 11% melhor do que o índice Standard & Poor’s 500, diz.
No entanto, após enorme progresso na melhoria da saúde mental no trabalho, ativistas como Unsted alertam para sinais preocupantes de uma reversão – em parte como resultado de uma reação contra as atitudes “woke” e uma crença de que essas preocupações até alimentam transtornos de saúde mental. “Há mais retórica inútil circulando, começando a apontar para a saúde mental como uma causa da inatividade na economia”, diz. “Temo que isso leve a um aumento do estigma que impedirá as pessoas de falar sobre isso. Esse é um desafio para nós e nossos parceiros de negócios, mas continuaremos lutando.”
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