Crise sobre IR e salário mínimo abala campanha de Bolsonaro

Crise sobre IR e salário mínimo abala campanha de Bolsonaro

Publicado em 26 de outubro de 2022

Campanha avalia que o impacto eleitoral da propagação dessas notícias seja igual ou maior do que escândalos como as falas de Bolsonaro sobre as adolescentes venezuelanas ou o ataque do ex-deputado Roberto Jefferson a policiais federais.

superar a crise em torno do debate sobre o aumento do salário mínimo, e as deduções do Imposto de Renda (IR), que pode prejudicar a reação do candidato nas pesquisas às vésperas do segundo turno, e o deslocou do ataque contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a defensiva.

A turbulência atingiu a campanha presidencial num momento sensível, em que Bolsonaro ainda se esforça em se descolar do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB), aliado que foi preso no domingo após atirar contra agentes da Polícia Federal com granadas e um fuzil.

Os coordenadores da campanha identificaram o impacto do noticiário sobre economia na candidatura presidencial por meio de pesquisas qualitativas com indecisos, que admitiram mudar o voto por causa do temor diante do risco de desvalorização do salário mínimo.

A avaliação dos aliados do presidente é de que as pesquisas mais recentes ainda não detectaram os reflexos do episódio envolvendo Jefferson na campanha, mas a percepção é de que o noticiário e a ofensiva petista em torno do salário mínimo contribuíram para conter a curva de crescimento de Bolsonaro e a queda em sua rejeição.

A nova rodada do Datafolha, entretanto, que será divulgada na quinta-feira é aguardada com apreensão. Há consenso de que nem o vídeo que associa Bolsonaro ao “canibalismo”, nem a declaração de que “pintou um clima” com adolescentes venezuelanas — visto como um dos episódios mais graves envolvendo o presidente até então — havia atingindo a campanha com tamanho impacto como a divulgação de que poderia não haver reajuste real do salário mínimo.

Diante dessa conjuntura negativa, a cúpula da campanha apressou-se em organizar uma contra-ofensiva para diluir danos eleitorais. Nos últimos dias, o presidente Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, revezaram-se em entrevistas e declarações públicas para rechaçar as notícias de que o governo planeja deixar de corrigir o salário mínimo pela inflação, ou excluir as despesas com saúde e educação do cálculo final do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).

Nesta terça-feira, Bolsonaro foi ao horário eleitoral prometer que, se for reeleito, vai reajustar o salário mínimo e os dos servidores públicos acima da inflação. Ele também acenou com isenção do IRPF para quem ganha até R$ 6 mil, superando o compromisso do adversário petista de isentar vencimentos de até R$ 5 mil.

Enquanto o candidato se justificava e fazia novas promessas na propaganda eleitoral, o ministro Paulo Guedes atribuiu as notícias sobre o salário mínimo e mudanças no Imposto de Renda a vazamentos feitos por “petistas” que atuam em seu ministério.

Visivelmente irritado, Guedes acrescentou que “gente do outro lado” pretende acabar com o Simples e, igualmente, cortar as deduções do IR, além de confiscar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), afirmou em “live” promovida pelo Sistema Organização das Cooperativas do Brasil (OCB).

Ao sugerir um “aparelhamento petista” em seu ministério, Guedes vocalizou uma suspeita que já circulava no comitê de Bolsonaro: o “fogo amigo”. Nos bastidores, integrantes da campanha demonstram insatisfação com Guedes por assuntos espinhosos como esses estarem sendo debatidos a menos de uma semana da eleição.

As informações que impulsionaram o noticiário em torno desses temas basearam-se em estudos da área técnica do Ministério da Economia. A pasta, porém, afirma que as propostas não têm a chancela do ministro. A desindexação do orçamento federal, no qual o salário mínimo é o elemento de maior peso, está no programa de 2018 de Bolsonaro, assim como a revisão de gastos tributários.

“Sai uma mentira por dia, um fake news por dia”, disse Guedes na live. “À medida em que nos aproximamos das eleições, o desespero aumenta e começam a mentir.” Ele afirmou que o PT contratou 160 mil funcionários públicos. Por isso “deve ter muito petista” no Ministério da Economia.

O ministro também afirmou que, mesmo durante a pandemia, houve aumento no valor do salário mínimo e dos benefícios sociais. Agora, a possibilidade de elevação seria ainda maior, pois houve aumento de produtividade na economia brasileira, disse. Já em relação ao IR, disse que a ideia de cortar deduções foi estudada e descartada “lá atrás”. Guedes repetiu o teor de uma nota elaborada por sua equipe, que “refuta veementemente a alegação de que pretenderia acabar com as deduções das despesas médicas e com educação no Imposto de Renda da Pessoa Física”.

“Quero deixar claro que não vamos tirar isenções da classe média para despesas com saúde e educação”, frisou.

Fonte: Valor Econômico
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