24 jan Crise tira poder de barganha do trabalhador na hora da admissão
Crise tira poder de barganha do trabalhador na hora da admissão
Empregos voltam com salário menor.
A recuperação dos postos de trabalho tem sido cada vez mais concentrada em ocupações com rendimentos menores também no emprego formal. Por seis meses seguidos o salário médio real – descontada a inflação – de admissão do novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) está em queda, assim como o rendimento médio real medido pela da Pnad, que engloba também a informalidade, aponta o economista da LCA Consultores, Bruno Imaizumi.
Ao mesmo tempo, desde o início da pandemia, os números da Pnad compilados pelo economista indicam redução de 8% na quantidade de ocupados com rendimentos superiores a dois salários mínimos.
Ele destaca que o mercado de trabalho mal tinha se recuperado 100% da forte crise de 2015 e 2016 quando chegou a segunda crise, provocada pela pandemia. Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) concorda e lembra que, quando a pandemia começou, o mercado de trabalho brasileiro estava fragilizado e a recuperação dos postos ocorria por meio da informalidade.
Além disso, já existiam problemas estruturais para preencher vagas mais qualificadas que foram agravados pela maior demanda por profissionais voltados para tecnologia, que se intensificou com o isolamento social.
QUALIDADE
Imaizumi observa que a baixa remuneração e qualidade dos empregos que estão sendo gerados está atrelada à incapacidade de o brasileiro médio se inserir em um posto que exija mais habilidades. “O movimento das empresas de intensificar o uso de capital e de tecnologia e utilizar menos mão de obra já vinha acontecendo antes da pandemia.” E isso já tinha levado muitos trabalhadores a buscar ocupação na informalidade. Com a pandemia, o quadro se agravou.
A grande questão do mercado de trabalho hoje é não só olhar para a recuperação na quantidade de postos, que, de fato, está acontecendo, mas também para a qualidade do emprego, que piorou, diz Tobler, da FGV.
Ele observa que uma conjugação negativa de fatores leva as pessoas a aceitarem uma remuneração menor. Existe um grande contingente fora do mercado, o desalento é elevado, a inflação alta consome boa parte dos rendimentos e o poder de barganha dos trabalhadores para obter reajustes é cada vez menor.
No ano passado, 47,7% das negociações salariais ficaram aquém da inflação, aponta um estudo do Dieese, a partir dos dados inseridos no Mediador do Ministério do Trabalho. Foi o pior resultado desde 2018.
Reajuste abaixo do custo de vida é resultado de uma combinação de inflação alta com recessão – quando a desocupação está muito elevada, os sindicatos não têm poder de barganha nas negociações, observam economistas especializados em emprego. É o pior cenário para os trabalhadores.
Essa situação faz, por exemplo, Roseni Camargo de Abreu, de 48 anos, estar disposta a trabalhar por um salário mínimo – desde que terminou a faculdade de Nutrição em 2020 ela não conseguiu emprego na área. Atualmente, Roseni faz bico como diarista e tira R$ 600 por mês. “Preciso comer”, argumenta. A nutricionista foi estudar depois de criar os filhos na expectativa de que ganharia um pouco mais. “Mas neste País não há oportunidade. É muito triste”, afirma.
Para romper esse círculo vicioso de desemprego alto e precarização do trabalho, economistas dizem que saída é o País voltar a crescer 2,5% ao ano de forma sustentável por um longo período.
Faz dois anos que Elisângela Santos e o filho, Estevão Rodrigues, estão desempregados. Ela, de 48 anos, cursa Psicologia, e a última vez que teve carteira assinada foi pouco antes da pandemia. Como cuidadora de idosos, tirava R$ 1.200. O filho, 19 anos, concluiu o ensino médio e nunca trabalhou.
“Não consigo por causa da idade”, diz Elisângela. Já o filho enfrenta barreiras por não ter experiência. Hoje eles vivem de bico. Elisângela coloca cabelo postiço, e o filho atualiza redes sociais. Juntos, ganham R$ 600. Mãe e filho retratam a precarização do trabalho.
A taxa de desocupação, de 12,6% no terceiro trimestre de 2021, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), praticamente voltou ao nível do primeiro trimestre de 2020, início da pandemia. Mas estudo do economista da LCA Consultores Bruno Imaizumi, obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, revela uma piora da qualidade da ocupação.
Entre o primeiro trimestre de 2020 e o terceiro de 2021, o total de desempregados há mais de um ano cresceu 37%: de 4,758 milhões para 6,508 milhões. “Quanto mais tempo uma pessoa fica sem emprego, torna-se mais difícil para ela se recolocar, e foi isso que a pandemia provocou”, afirma Imaizumi. Depois de ficar desocupado por um longo período, quando o trabalhador se recoloca, provavelmente a qualidade da vaga é ruim.
SALÁRIO MÍNIMO
O estudo mostra que a recuperação dos postos se concentra em ocupações com rendimentos de até um salário mínimo. No mesmo período pesquisado, os ocupados com essa renda passaram de 28,476 milhões para 33,635 milhões. “São 5 milhões a mais ganhando até um mínimo, é assustador.”
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