07 maio Crise torna necessidades mais evidentes
Crise torna necessidades mais evidentes
Empresas estruturam programas de atendimento psicológico para atenuar impactos da pandemia.
Diante de um cenário permeado por medos e incertezas, cuidar da saúde mental dos colaboradores passou a ser uma necessidade comum em companhias de todos os portes. Não que a demanda seja novidade, pelo contrário, as estatísticas há tempos revelam dados preocupantes. Segundo a International Stress Manegement Association, o Brasil é o segundo país com maior índice de pessoas com síndrome de burnout e 32% dos brasileiros sofrem com excesso de estresse provocado pelo trabalho.
“O que a pandemia fez foi deixar essa necessidade mais evidente e trazer o assunto para o centro das discussões”, diz Rodrigo Pádua, VP global de gente e cultura da Stefanini, multinacional brasileira de soluções digitais. Com 27 mil colaboradores e presente em 41 países, a companhia intensificou as ações do Projeto Farol, canal que em 2020 realizou 600 atendimentos de apoio psicológico. Em fevereiro de 2021, o serviço foi estendido também aos familiares, por meio da plataforma OrienteMe. “O maior desafio das lideranças ainda é tratar o tema sem preconceito, de maneira aberta, para que em um futuro próximo o cuidado com a saúde mental seja embutido nos planos de benefícios das empresas”, diz o executivo.
Assim como a Stefanini, um número cada vez mais significativo de companhias vem oferecendo programas voltados para a saúde mental de seus colaboradores. Segundo a consultoria Mercer Marsh Benefícios, 34% tinham algum tipo de iniciativa em 2015; dois anos depois, o percentual subiu para 41% e em 2019, data do último levantamento, eram 46%. Mesmo assim, o atendimento psicológico respondia por apenas 16% das ações ofertadas.
A busca por novas ferramentas explodiu em 2020. Um bom exemplo foi a demanda pela plataforma Apoio Pass, da Sodexo Benefícios, que oferece suporte psicológico, orientação financeira, social e jurídica. Entre abril e agosto de 2020, a procura pelo serviço cresceu quase seis vezes, relata Fabiana Galetol, diretora de pessoas da companhia. Com cobertura para a América Latina, o atendimento é realizado 24 horas por dia, sete dias da semana, via telefone ou presencialmente, com agendamento prévio e sigilo das informações.
“Vivemos um período de transformação, no qual o colaborador precisa cuidar de si e a liderança tem o dever de abrir caminho para que isso seja possível”, diz Ana Paula Franzote, diretora de desenvolvimento organizacional e cultura da Unilever. A multinacional, que desde 2015 tem o bem-estar como estratégia global, busca trabalhar para o equilíbrio de seus colaboradores em quatro frentes: física, mental, emocional e conexão com seu propósito. Em 2021 deu um passo à frente. Foi uma das primeiras companhias a aderir ao Movimento Mente Em Foco, lançado em abril pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU e a InPress Porter Novelli, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicologia.
Segundo Carlo Pereira, diretor executivo da Rede Brasil, o movimento surge em um momento crucial para incentivar as empresas a olharem seus colaboradores com mais atenção e empatia por meio de ações organizadas de atenção à saúde mental.
“Com esse movimento, estimulamos as organizações a estabelecerem ações concretas e duradouras de suporte psicológico aos seus colaboradores, criando ambientes de trabalho mais saudáveis”, diz Roberta Machado, CEO da InPress Porter Novelli. “Está claro que a saúde mental deve ser tratada dentro das empresas não apenas como uma medida emergencial, mas como parte da gestão.”
Foi com esse propósito que o Hospital Sírio-Libanês aderiu ao programa, ao lado de companhias como Ambev, UPS, Grupo Conexa e Mapfre. “O Movimento Mente em Foco leva a um alinhamento de forças estruturadas pelos signatários, nos dá oportunidade de garantir perenidade às propostas”, afirma Karen Ramirez, diretora de cultura organizacional do Sírio-Libanês, que conta com 8.500 colaboradores. Para ela, o momento pede um esforço maior, um olhar de empatia altíssimo por parte das lideranças para a questão da saúde mental das pessoas, independentemente do porte da empresa.
A opinião é compartilhada por Andreia Souza, consultora de RH da Capricórnio, indústria têxtil com 765 colaboradores. “A pandemia nos levou a mergulhar mais profundamente no tema, a buscar as ferramentas corretas para conhecer as demandas, ter uma escuta ativa e orientar as lideranças para acolher e dar suporte às suas equipes”, diz. “Isso estreitou muito o relacionamento dos gestores com as equipes”. A jornada, segundo ela, está só começando, porque esse é um caminho sem volta.
Desafio das companhias é criar ambiente de confiança
Saúde mental já foi tema tabu, começa a receber mais atenção dos gestores.
Saúde mental é um conceito amplo que engloba também o bem-estar físico e social. O tema, que já foi tabu no universo corporativo, começa a ser desmistificado por conta da pandemia.
Uma das primeiras a investir em gestão humanizada, a Basf instituiu em janeiro de 2020 uma área dedicada ao bem-estar – com foco na saúde física, emocional e criação de um ambiente de trabalho mais saudável. Em junho, criou o canal Sempre Bem, que oferece atendimento psicológico, social, jurídico e financeiro tanto para funcionários como para seus dependentes, de forma individualizada e por telefone. “A maior demanda é pelo atendimento por questões ligadas ao estresse, ansiedade, depressão e relacionamento familiar”, diz Vivian Navarro, gerente de RH da área de bem-estar. Saúde mental, relata, é uma bandeira forte na organização que tem investido no aprimoramento da formação dos líderes, para que eles possam falar e lidar com a estratégia de gerenciamento do autocuidado com naturalidade.
Para Adriana de Souza, gerente de bem-estar da Gerdau, um dos maiores desafios das companhias é criar um ambiente de confiança para que as pessoas se sintam seguras para falar sobre suas questões emocionais e pessoais. “Não basta oferecer a ferramenta, é preciso dar condições para que ela seja usada, ter uma escuta ativa e revelar empatia”, afirma. O objetivo “é ajudar as pessoas a desenvolverem habilidades para escolher a melhor maneira de passar por um problema, por uma dor, e isso só é possível com uma liderança que seja capaz de acolher, de enxergar o outro.”
Entre os canais abertos pela companhia, estão o Check Up de Saúde Mental, a Roda de Prosa e o + Cuidado, que conta com sessões acompanhadas por psicólogos, além de consultores financeiros e assistentes sociais. No total, foram mais de 5 mil atendimentos.
A PwC Brasil também investiu em um programa de apoio pessoal para seus 3.500 colaboradores. “Abrimos um canal que funciona 24 horas por dia para oferecer assistência psicológica, pedagógica, nutricional, jurídica, física e social a nossos colaboradores e familiares”, diz Tatiana Fernandes, sócia e líder de capital humano. “Bem-estar está ligado ao cuidar, daí investir mais no desenvolvimento de líderes inspiradores, que saibam até que ponto podem cobrar de seus colaboradores e que tenham uma escuta ativa”, diz
Segundo Isabelle Araújo, gerente geral da TotalPass – benefício que funciona como assinatura de academia oferecido pela empresa a seus funcionários -, cada vez mais o trabalho dos gestores de RH terá de ser mais estratégico e menos operacional. “Isso passa pela busca de soluções que diminuam as dores das pessoas e, consequentemente, o impacto que isso provoca na rotina pessoal e profissional”, afirma.
Com esse propósito, a TotalPass criou no início deste ano o programa Líder Acolhedor, com atendimento mais personalizado feito por líderes preparados. “São três gestores, que já tinham uma escuta bem ativa de seus times, que com a orientação de uma psicóloga fazem a triagem dos casos que precisam de um atendimento mais profundo”, diz Isabelle, acrescentando que, a partir deste mês, os cerca de 60 funcionários contarão, também, com uma plataforma de auxílio psicológico.
Investir em um sistema digital capaz de reunir profissionais de várias especialidades, como nutricionistas, educadores físicos, médicos, psicólogos, além de consultores financeiros e jurídicos, também foi o caminho escolhido pelo Group Software, especializado em desenvolvimento de sistemas. Batizada Group Consultas, a plataforma tem por objetivo dar apoio ao colaborador quando ele precisar. “O canal foi aberto em dezembro de 2020 e já registrou mais de 2.000 atendimentos”, diz Lorena Araújo, gerente de RH.
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