Cuidar da cadeia passa por aumentar renda no campo

Cuidar da cadeia passa por aumentar renda no campo

Publicado em 29 de março de 2023

Na adoção de política de salário decente, o caminho natural das empresas é começar com os funcionários e depois estender a prática aos fornecedores. O caso da fabricante de chocolates Dengo, foi o inverso. “Nascemos como um negócio de impacto com o compromisso de gerar renda digna para os pequenos produtores de cacau da Bahia”, conta Estevan Sartoreli, cofundador da companhia ao lado de Guilherme Leal, um dos principais acionistas da Natura.

A cadeia do cacau, assim como outras agroindústrias, já foi alvo de denúncias e críticas de baixa remuneração e desrespeito a leis trabalhistas. Segundo Sartoreli, o cacau exportado pela África, maior produtor do mundo, remunera os trabalhadores em US$ 0,50 por dia, enquanto o ideal seria entre US$ 2,1 a US$ 2,6 por dia. Com isso, diz, surgem os problemas sociais, como trabalho infantil, e ambientais, como desmatamento para aumentar produção.

“Só existe cacau sustentável se conseguirmos promover renda digna para os produtores. Não dá para ter uma empresa com lucro alto e miséria na cadeia”. Segundo Sartoreli, a Dengo paga 92% acima do preço médio do mercado para os 150 parceiros no campo. Ainda assim, há desafios: em 2022, apenas 38% dos 150 agricultores eram remunerados acima do salário digno estabelecido pela empresa (em 2021 era maior, 45%).

Sartoreli explica que a retração se deve a dois fatores: queda de 10% no preço médio da commodity, entre 2021 e 2022, e menor oferta do produto, devido às mudanças climáticas. A expectativa é chegar a 75% de produtores com salário maior que o digno até 2025 e atingir 100% em 2030.

A Dengo não revela o valor da remuneração, mas apuração do Prática ESG identificou que a remuneração decente para atividades similares é de cerca de R$ 2.500. Entre os mais de 400 funcionários, 99% ganham acima do salário digno calculado pelo Anker Research Institute (só estagiários que estão no 1% restante.

A empresa tem incentivado os produtores a adotarem boas práticas de cultivo, o que eleva a qualidade do produto. “ Dificilmente ele vai fazer isso se não perceber que tem preço justo”, diz. O preço pago pode variar de 70% a 145% acima da prática de mercado.

A indústria do café é outra que precisa melhorar seus parâmetros se quiser continuar competitiva no mercado internacional. O salário digno para os produtores é estimado em R$ 3.200 para os mineiros e R$ 3.500 para paulistas, segundo Ana Moraes Coelho, coordenadora no Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGVces), da Fundação Getulio Vargas (FGV). A acadêmica está envolvida em uma pesquisa de campo para identificar como as práticas exigidas pela certificadora internacional de agricultura sustentável Rainforest Alliance estão sendo aplicadas no setor cafeeiro no Brasil e se elas contribuem para a melhora de renda dos produtores.

“As fazendas certificadas após 2021 já entram na nova norma. Elas precisam preencher uma matriz salarial, contendo todas as categorias profissionais e remuneração. Isso é comparado, então, ao estimado para o salário justo na região. A fazenda que estiver pagando menos é obrigada a criar um plano de melhoria”. Uma dificuldade enfrentada é ter sindicatos fortes que representem os trabalhadores, já que o plano deve ser construído em conjunto.

Casos de trabalho análogo à escravidão revelados nos últimos meses, a maioria ligados à agroindústria, mostram que o prejuízo é triplo: financeiro, reputacional e social. “Os riscos são claros. A sociedade está sendo implacável com esses episódios e cobra mais das empresas”, comenta Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil.

Outro ponto de atenção é a fiscalização. “Quando olhamos para setor privado, é importante estabelecer mecanismos para pegar irregularidades, e certificações como Rainforest Alliance, impõe essa norma”, diz. Ela critica que muitas auditorias de terceira parte acabam combinando o dia de visita às fazendas, quando o ideal seriam visitas surpresas.

Diante dos casos de trabalho análogo à escravidão revelados nos últimos meses, a maioria ligados à agroindústria, mostram que o prejuízo é triplo: financeiro, reputacional e social. “Os riscos são claros. A sociedade está sendo implacável com esses episódios e cobra mais das empresas”, comenta Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil. Ele cita como exemplo de consequência que empresas que se envolvem neste tipo de escândalo podem ter dificuldade em contratar e reter pessoas e até impacto em vendas, ambas questões que afetam na veia os números financeiros do negócio.

Para especialistas em ESG, as empresas são corresponsáveis, junto com quem diretamente mantinha as pessoas nas condições precárias. No agronegócio em especial, diz Rafael Benke, CEO da consultoria de Direitos Humanos Practiva, adotar prática de salário digno e exigir da cadeia o mesmo pode ser uma saída. Fácil? Não, mas uma alternativa para mitigar riscos.

“Independente do setor, o desafio está na cadeia direta e indireta”, diz. “As mais longas, têm complicador maior, assim como aqueles trabalhos que envolvem sazonalidade. Por não terem todas as pessoas em condições normais de contratação, baseadas em acordos coletivos, a exposição de risco é maior”, diz.

Ele cita o caso do cultivo do chá para exportação no Malawi. Intenso em mão de obra, o setor precisou se estruturar em 2020 por pressão de compradores internacionais. Entre as ações, foi feito um acordo entre o sindicato dos trabalhadores das plantações e a associação das empresas de chás para melhorar a remuneração e o governo aceitou mudar o limite do imposto de renda para diminuir os descontos e aumentar o salário líquido dos trabalhadores de chá. Desde o início do programa, a coalização de compradores aumentou em 66% a compra do produto e, por ora, a diferença entre a remuneração real e a digna diminuiu de 70%, há cinco anos, para 33% agora.

“Como resolver a questão da sazonalidade de forma proativa? Isso passa por um diálogo do público com o privado, com parcerias e sinergias entre produtores, e não um jogo de empurra-empurra, em que um joga a responsabilidade para o outro”, diz Benke. “As empresas têm que exercer seu poder de alavanca, usar sua musculatura para gerar efeito positivo.”

Ana Moraes Coelho, da FGV, pontua ainda que faltam às empresas a visão de que é preciso garantir “um pouco acima” do estabelecido por lei, que é isso que vai trazer mais qualidade de vida ao trabalhador, diminuir a rotatividade e agregar à estratégia do negócio. “É importante sempre a gente elevar a barra para além da obrigação, sempre. Não é custo, é investimento”, finaliza.

Fonte: Valor Econômico
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