30 mar Demissão com respeito é responsabilidade social
Demissão com respeito é responsabilidade social
Nos anos 90, houve uma revolução nas relações de trabalho. A globalização trouxe a necessidade de rever estruturas e negócios, acelerou a velocidade das tomadas de decisão e a gestão de pessoas ganhou nova dimensão: passou-se a selecionar a partir de competências, surgiram os processos de avaliação e a preocupação com retenção de talentos.
Com o aumento da competitividade entre as organizações, as demissões tornaram-se mais comuns e necessárias: quem não entregava resultado, não poderia mais ficar. Pela primeira vez, surgiram as demissões em massa. Entre 1990 e 1995, o país registrou cerca de 15 milhões de desempregados pelos números oficiais, sem contar o subemprego.
Os gestores, por sua vez, tiveram de aprender a demitir – afinal, esta não era uma competência exigida dos cargos de liderança ou dos próprios gestores de recursos humanos. Foi difícil para todos os lados, e houve erros nesse processo. Surgiram então metodologias e instrumentos para apoiar as demissões, bem como o debate em torno do desenvolvimento de soluções que apoiassem as pessoas demitidas e dessem suporte às lideranças na retomada das relações internas.
O que vejo hoje, porém, é que a condução dos processos de demissão não acompanhou as transformações do mundo do trabalho nas últimas décadas. Em um número muito grande de empresas, as rupturas ainda são tratadas com pouca dignidade e, os indivíduos, profundamente desrespeitados. Pouca transparência, discriminação e falta de suporte adequado são apenas alguns dos problemas ainda enfrentados. Parece que não aprendemos com processos anteriores, tão dolorosos para pessoas e organizações.
Sob vários aspectos, tenho questionado o discurso organizacional sobre ESG. Ser uma empresa ESG é muito mais do que ter uma boa narrativa no relatório anual e nas campanhas de marketing. Ser uma empresa ESG, entre outras coisas, é olhar para o S do Social de forma genuína. É cuidar das pessoas e se importar com elas. É tratar com dignidade quem fica e quem sai. É compreender a sua responsabilidade sobre o futuro de um ex-colaborador demitido. É não realizar demissões por WhatsApp, é assegurar que seus funcionários não saibam de cortes pelos jornais. É cuidar da transição das pessoas, dar suporte em suas recolocações, incentivar que colaboradores estejam atualizados e prontos para o mercado de trabalho.
A falta de coerência entre o discurso e a prática é um dos fatores que tem feito com que as pessoas se desencantem cada vez mais pelas relações estabelecidas com seus empregadores, o que as leva a serem menos engajadas e, como consequência, com entregas de qualidade inferior. A produção se torna mais custosa sob todos os aspectos.
É fundamental que as empresas continuem a avaliar e melhorar seus processos de demissão, a fim de minimizar o impacto negativo na vida dos funcionários e fornecer o suporte necessário para ajudá-los a lidar com essa transição. A responsabilidade e o respeito devem existir antes, durante e depois.
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