Denúncias de assédio sexual e moral quase triplicam em 2021

Denúncias de assédio sexual e moral quase triplicam em 2021

Publicado em 28 de outubro de 2021

Levantamento realizado em canais de denúncias de 347 empresas mostra avanço nas práticas virtuais no home office.

O número de denúncias sobre assédio moral e sexual quase triplicou nos canais de denúncias de 347 empresas administrados pela ICTS Protiviti, consultoria de gestão de riscos e compliance. Em apenas seis meses foram realizados 31 mil comunicados. Desse total, 91,8% foram denúncias qualificadas para apuração, sendo 37,8% procedentes e 9,8% inconclusivas. Esse número é três vezes maior que os registrados nos anos de 2019 e 2020 inteiros, quando foram comunicados 12.349 e 12.529 casos, respectivamente.

Para Fernando Scanavini, diretor de operações da ICTS Protiviti, esse aumento pode sinalizar que as pessoas foram se sentindo mais à vontade para cometer o assédio conforme foram se acostumando com o home office. Isso fez a prática migrar do ambiente presencial para o virtual. O agravante, segundo ele, é que o assédio sexual no modo virtual não tem testemunhas porque ocorre apenas entre duas pessoas por meio do computador ou celular. “Não existe o mesmo constrangimento de quando se pratica isso dentro da empresa, onde existe o risco de quem assedia ser pego pelos colegas”, afirma. “As pessoas se aproveitam da suposta intimidade criada com o home office.”

Ele lembra que no início da pandemia, em abril de 2020, o mesmo levantamento chegou a registrar uma queda no número de denúncias de assédio moral e sexual. Elas caíram pela metade se comparadas aos três primeiros meses daquele ano. “Havia muita incerteza e o medo de perder o emprego, porque ainda era um momento de adaptação ao trabalho remoto”, diz Scanavini. No fim de 2020, no entanto, o volume de denúncias voltou a subir, chegando ao ápice este ano.

O assédio moral denunciado pelos funcionários das empresas, no geral, está relacionado a abusos quanto ao horário de trabalho. “Os funcionários reclamam que os chefes agem como se eles estivessem disponíveis o tempo todo”, diz. Esse tipo de assédio, segundo ele, ocorre muitas vezes sem intenção direta e é motivado pela facilidade do contato remoto, que pode acontecer via aplicativos, como o WhatsApp. Também é relatado o incômodo de profissionais que precisam ligar a câmera a pedido dos chefes para participar de reuniões ou para tratar de assuntos do dia. “Às vezes a pessoa não tem um ambiente separado para poder trabalhar e não quer exibir a sua casa e seus familiares”, diz.

Os praticantes do assédio, segundo o levantamento, são prioritariamente gestores (87%), em seguida estão os clientes (17,8%), colegas da mesma área ou de outro setor (9,8%) e fornecedores ou prestadores de serviços (4,4%). As mulheres são as que mais denunciam o assédio (53,3%).

O tempo médio, desde a apuração até a aplicação de medidas punitivas, é de 48 dias corridos. Scanavini diz que a maior parte das denúncias é feita via web (60%) e que as ligações via 0800 perderam espaço representando apenas 32%. Ele lembra que as informações pelo telefone são mais detalhadas e ricas por conta do contato do denunciante com um profissional treinado para entrevistá-lo.

A maior parte dos casos é resolvida com feedbacks e orientação (45,8%). Apenas 21% resultam em demissão com ou sem justa causa. Com o retorno aos escritórios, Scanavini acredita que deve acontecer uma diminuição nos comunicados de assédio moral e sexual. “O comportamento no ambiente da empresa é outro e as pessoas estão mais sensíveis, não acredito que o assédio será tão ostensivo.”

Fonte: Valor Econômico
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