21 mar Desemprego aumenta, mas a renda real ainda cresce
Desemprego aumenta, mas a renda real ainda cresce
Dados são positivos, mas a manutenção desses ganhos é improvável no atual cenário de incertezas.
O mercado de trabalho deu sinais de que pode estar perdendo força neste início de ano, depois de um 2022 de vigorosa recuperação pós-pandemia. Mas ainda não há consenso a respeito da tendência. É comum a dispensa de mão de obra e a diminuição da oferta de emprego neste período, depois do aumento sazonal de fim de ano em consequência da expansão da produção e das vendas de Natal. A expectativa de desaceleração foi reforçada desta vez diante das previsões de arrefecimento da economia local e global, como resultado do aumento da inflação, das taxas de juros, e das incertezas com o novo governo.
Depois de o desemprego ter caído para 7,9% em dezembro, o menor patamar desde 2014, na esteira da recuperação da economia e da retomada dos contatos sociais, acabou subindo para 8,4% no trimestre terminado em janeiro, informou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, (a Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi o primeiro aumento após dez recuos seguidos e a taxa ficou acima da mediana das projeções coletadas pelo Valor, que era de 8,2% de desocupação.
Ao fim de janeiro, havia 9 milhões de desempregados no país, número praticamente igual ao do trimestre terminado em outubro, e acima dos 8,6 milhões do trimestre encerrado em dezembro. O número de ocupados era de 98,6 milhões e a força de trabalho, que soma os que estão trabalhando com os que buscam emprego, era de 107,6 milhões, ambos os grupos com 1 milhão a menos na comparação com outubro.
Os analistas ponderam que o desemprego só não cresceu mais porque a procura por trabalho está menor. Geralmente isso acontece em início de ano por conta das férias. Outro fator apontado foi a redução da taxa de participação, que mede a proporção de pessoas de 14 anos ou mais têm ocupação ou estão desempregadas e em busca de vagas, ou seja, fazem parte da força de trabalho.
A taxa de participação teve um tombo na pandemia, recuperando-se depois. Chegou a 62,7% no terceiro trimestre de 2022, e voltou a se retrair. O aumento do valor do Auxílio Brasil para R$ 600 seria um dos motivos da redução da taxa de participação. No quarto trimestre, a participação no mercado de trabalho voltou a 62,1%, se distanciando da média histórica de 63,5% anterior ao surto de covid-19. Diminuiu mais, para 61,9% no trimestre terminado em janeiro, provavelmente sob influência da expectativa com a nova configuração do Bolsa Família no governo de Lula, com valores adicionais para as crianças e adolescentes. Por outro lado, o pente-fino que está sendo feito no Cadastro Único (CadÚnico) pode diminuir o número de beneficiados pelo Bolsa Família.
A taxa de participação pode ser determinante para o comportamento do mercado de trabalho neste ano, dado que a desaceleração econômica não permite maiores expectativas positivas em relação à abertura de vagas. Se a procura por ocupação aumentar, ampliando a taxa de participação, o desemprego deve crescer.
Segundo a Pnad Contínua, a maior parte do recuo da taxa de participação ocorre pela queda na ocupação de trabalhadores informais, que está sendo mais forte do que a dos formais. Desde fevereiro do ano passado, o número de ocupados com carteira assinada vem crescendo a um ritmo maior do que o total de ocupado; em janeiro, superou também o ritmo dos que não possuem carteira assinada.
Ocupações geralmente informais ou de menor renda também estão crescendo menos. É o caso do trabalho doméstico e, sobretudo, da ocupação por conta própria, que inclui os “bicos”. O IBGE calcula que a taxa de informalidade tenha atingido 39% em janeiro, nível que está mais próximo do registrado em 2016 e 2017.
Como os formais têm rendimento superior ao dos informais, isso contribui para outra característica atual do mercado de trabalho, que é o aumento da renda real, também favorecida pela desaceleração da inflação. O rendimento médio de todos os trabalhos recebidos ficou em R$ 2.835 em janeiro, 1,6% acima do trimestre terminando em outubro, com 7,7% de variação em um ano. O valor da massa de rendimentos reais em janeiro, de R$ 275,1 bilhões, está perto do patamar mais elevado da série histórica comparável do IBGE. Considerando as diferentes séries da Pnad, o valor é o terceiro mais elevado. Os dados são positivos, mas a manutenção desses ganhos é improvável no atual cenário de incertezas.
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