27 mar Desemprego entre jovens é maior que o dobro da média
Desemprego entre jovens é maior que o dobro da média
Apesar dos ganhos em relação ao choque da pandemia, o mercado de trabalho continua adverso para os jovens brasileiros. A última década mostra que a população de 18 a 24 anos vem diminuindo, mas o desemprego nessa faixa etária tem aumentado. Especialistas alertam para efeitos permanentes que o atraso da inserção desse grupo no mercado pode causar, com consequências como rendimentos menores e impacto na economia no longo prazo. E afirmam que é preciso fortalecer elos dos jovens com a educação e o mercado, por meio de políticas focalizadas e ensino técnico ampliado.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua compilados pela Tendências Consultoria mostram que a população em idade ativa (PIA, com 14 anos de idade ou mais) teve variação anual de 1,1% em 2018 para 0,9% em 2022, enquanto a PIA de 18 a 24 anos variou de 0,5% em 2018 para -1,9% em 2022.
Apesar da redução, o desemprego nessa população tem se mostrado mais persistente do que no geral. A taxa de desocupação da população foi de 7,4% em 2012 para 13,7% em 2020 e 9,3% em 2022. Entre os jovens, passou de 14,8% em 2012, atingiu 28,6% no primeiro ano de pandemia e caiu para 19,2% no ano passado, ainda acima da mínima histórica de 14,7% em 2013 e 2014.
Os números mostram, portanto, que na comparação com dez anos atrás o desemprego entre os jovens subiu 4,4 pontos percentuais, acima do 1,9 ponto percentual do crescimento da população no período.
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Além disso, ao longo dos últimos anos, a diferença percentual da taxa de desocupação entre os jovens e a população total subiu de 7,4 pontos percentuais em 2012 para 9,9 pontos em 2022, tendo atingido 14,9 pontos em 2020, observa Lucas Assis, economista da Tendências.
Ele afirma que, no geral, os indicadores são piores para os jovens. “Por causa de sua inerente inexperiência laboral, eles enfrentam maior dificuldade de ingresso e estabilidade no mercado de trabalho, representando o grupo mais vulnerável nos períodos de crise econômica”, diz. Assis ressalta que esse retrato é especialmente marcante entre os menos qualificados.
Segundo o economista, os jovens têm relativa desvantagem estrutural, já que em momentos de crise sua ocupação tende a ser atingida com maior intensidade e sua recolocação no mercado de trabalho se dá de forma mais lenta. Na retomada pós-crise econômica, por exemplo, o jovem com menos anos de estudo e menos experiência disputa vagas com pessoas mais velhas, maior experiência e dispostas a trabalhar por um salário menor, uma vez que estão desempregadas.
No Brasil, ele afirma, o choque da covid-19 se somou à crise anterior e dificultou ainda mais o panorama para inserção dos jovens no mercado.
“Grande parte dos jovens ainda vivia o legado da recessão de 2015 e 2016, quando o contágio econômico da covid-19 deteriorou, de modo súbito e implacável, o mercado de trabalho dessa população”, afirma Assis.
Muitos, ele lembra, ocupavam postos de menor qualidade, com elevada informalidade e subocupação, e em setores fortemente atingidos pelo isolamento social, como comércio e serviços.
A consequência imediata do desemprego dessa população, diz o economista, foi perda de rendimento, capaz de agravar questões ligadas à pobreza, exclusão social e violência, mas também impactos de longo prazo mais severos.
Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirma que os jovens vêm sofrendo desde a crise de 2015-2016, quando a competição no mercado de trabalho ficou maior.
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“A pandemia, em um primeiro momento, criou uma situação em que trabalhos mais qualificados acabaram tendo maior resistência ao choque, o que beneficiou população em torno dos 30 anos de idade e jovens qualificados. Mas a grande maioria, ligada a serviços de entrega, comércio e atendimento na área da alimentação, foi muito afetada”, diz. “A partir de 2021 e 2022 houve um boom de serviços que gerou mais empregos para populações mais jovens. Diferentemente da saída da crise de 2015-16, que não foi muito centrada em serviços. Isso fez com que o cenário [de crise] perdurasse”, prossegue
Em geral, as recessões afetam mais os trabalhadores jovens que os mais velhos e com maior vivência profissional, afirma Vinícius Pinheiro, diretor do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o Brasil.
“Os mais jovens são os primeiros a ver suas horas de trabalho reduzidas ou serem demitidos”, diz. “Além disso, muitos trabalham em setores mais sujeitos à informalidade, como agricultura, comércio e serviços pessoais e domésticos. Muitos têm empregos de meio período, temporários ou em plataformas digitais, que tendem a ser mal remunerados, ter jornadas irregulares, pouca segurança ou proteção social.”
Formada em biblioteconomia, Júlia Lacerda, de 23 anos, conseguiu emprego no fim do ano passado depois de seis meses sem nada. Hoje trabalha com atendimento ao público em uma plataforma digital, mas ainda sonha em trabalhar em sua área de formação.
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“Até faço entrevistas, mas acham que tenho cara de criança e não pegam tanta confiança assim”, conta. “Querendo ou não, existe um esteriótipo da profissão. Quando pensam em bibliotecários, imaginam pessoas mais velhas”, diz. “Quando falo que moro com minha mãe, olham estranho. Mas não é por isso que não tenho contas para pagar.”
Antes de se formar em 2021 na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Júlia chegou a estagiar dois anos na biblioteca municipal Mário de Andrade, no centro de São Paulo. Mas nunca mais encontrou nada na área. Ganha entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil para trabalhar para uma empresa terceirizada de atendimento ao cliente. “Não acho que ganho mal para a vaga. Mas gostaria de estar na minha profissão. Além de ter investido tempo e dinheiro, sou apaixonada por biblioteconomia”, diz.
Apesar da dificuldade para se inserir no mercado, Júlia não faz parte do grupo de jovens que mais alarma os especialistas: o de jovens que não estudam nem trabalham, os chamados “nem-nem”.
“A medida mais rigorosa de vulnerabilidade juvenil é o indicador de jovens que não estudam e não estão ocupados, pois abrange aqueles que não estão ganhando nem experiência laboral nem qualificação, comprometendo suas possibilidades ocupacionais futuras”, afirma Assis.
Priscila dos Santos, 24 anos, é parte desse grupo. Depois de cursar até o primeiro ano do ensino médio, atuou no setor têxtil, como trabalhadora doméstica e cuidadora de idosos. Há quatro meses buscando trabalho, já ouviu de empregadores que precisam de alguém “mais responsável”.
“E eu com 24 anos não sou responsável? Trabalho desde os 14 anos. Idade não quer dizer nada”, comenta, ao acrescentar que parte do preconceito que sofre se deve ao fato de ser trans.
Dados da OIT mostram que, após atingir um pico no segundo trimestre de 2020, a proporção de jovens que não trabalham nem estudam ou estão em programas educacionais ou de treinamento tem caído e está em níveis menores do que no pré-pandemia.
Duque ressalta que um ano sem emprego na vida de um jovem é muito mais desestabilizador do que em uma pessoa de 40 anos, por exemplo. “Isso afetará sua renda futura mais do que afetaria a de uma pessoa com experiência e maior produtividade”, diz.
Com a eclosão da pandemia, diz Pinheiro, constatou-se um triplo choque sobre a população jovem, com perda de emprego e renda, interrupção da educação e de oportunidades de treinamento, e obstáculos extras para se entrar no mercado de trabalho.
“A pandemia deixou cicatrizes de longo prazo”, diz. “Esse choque configurou uma situação em que muitos jovens se viram em situação de desalento, sem acesso à educação ou oportunidades de inserção no mercado do trabalho, um ‘lockdown generation’.”
Esse efeito cicatriz pode acarretar efeitos adversos não apenas à carreira do jovem, mas à economia como um todo.
“Como os primeiros anos de treinamento são essenciais ao desenvolvimento profissional, os jovens que iniciam suas carreiras em uma crise estarão em desvantagem duradoura, pois salários, oportunidades e confiança podem nunca se recuperar”, diz Assis. “A perda de capital humano entre esses desempregados também pode limitar o potencial de expansão da economia, à medida que parte da força de trabalho desaprende tarefas, se desatualiza em relação a novas práticas e tem dificuldade em ser tão produtiva quanto antes.”
Saída passa por programas de emprego e educação
Frente ao envelhecimento da população brasileira e diante do baixo crescimento econômico esperado até o fim da década, especialistas alertam que é preciso investir em políticas focalizadas de emprego e educação para ampliar a inclusão dos jovens no mercado.
“A educação e o treinamento da atual juventude serão decisivos ao desenvolvimento futuro. O país deve agir a fim de ajudá-los a manterem seus vínculos com o mercado de trabalho e o sistema educacional”, afirma Lucas Assis, economistas da Tendências Consultoria.
Programas de emprego voltados para os jovens ou medidas nacionais de educação podem ser meios eficazes de reduzir o desemprego entre eles, afirma Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
“Pode haver políticas nacionais que passarão pela questão do ensino técnico, ou mais focalizadas, como subsidiar a criação de emprego aos mais jovens”, diz. “Isso não necessariamente vai gerar mais emprego no agregado, mas pode ser benéfico justamente por reduzir efeitos mais negativos que o desemprego entre os jovens tem que entre a população em geral.”
Ana Inoue, superintendente do Itaú Educação e Trabalho, alerta que a taxa de desemprego entre os jovens é mais do o dobro da população em geral porque eles saem sem qualificação para o mundo do trabalho e não há política para inseri-la no mercado laboral.
“Quase um quarto da população não tem nenhuma qualificação para o mundo do trabalho. Tampouco há políticas para inserir esses jovens nele”, diz, ao lembrar que muitos empregos pedem jovens já com experiência profissional. Ela alerta para a necessidade de mais cursos de formação profissional, para inserir essa população mais jovem no mercado.
Vinícius Pinheiro, diretor do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o Brasil, lembra que a baixa qualidade da formação educacional gera dificuldades na transição escola-trabalho, o que foi ainda mais agravado na pandemia.
“Uma parcela crescente de jovens que ingressaram no mercado de trabalho entre 2012 e 2022 só conseguiu trabalho em ocupações que exigem nível educacional menor do que o alcançado. Períodos prolongados fora do mundo do trabalho e de dificuldades para completar estudos ou treinamento, como entre 2020 e 2021, podem levar a perdas permanentes”, diz sobre o “efeito cicatriz” na capacidade de inserção dos jovens.
Pinheiro afirma que melhorar esse quadro depende de uma combinação de políticas desenhadas para esse conjunto de pessoas.
“Políticas de estímulo à conclusão dos ensinos que reduzam a evasão e a defasagem idade-ano escolar são importantes, assim como melhor adaptação às novas demandas da sociedade e do setor produtivo. Políticas de aprendizagem mais efetivas e a expansão do ensino técnico também se fazem necessárias”, conclui.
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