01 abr Desemprego recua, mas analistas seguem pessimistas com cenário
Desemprego recua, mas analistas seguem pessimistas com cenário
Renda tem primeira melhora trimestral desde setembro de 2020, com avanço do emprego formal.

Mesmo com ritmo menor da queda de desempregados e estabilidade na ocupação, o desemprego atingiu 11,2% no trimestre encerrado em fevereiro, a menor para o período desde 2016 (10,3%) e também abaixo do trimestre móvel anterior (encerrado em novembro, de 11,6%) e da mediana das projeções pelo Valor Data (11,4%). O país ainda tem 12,016 milhões de desempregados.
O resultado divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou um ritmo maior de preenchimento de vagas formais, refletindo o começo de normalização da economia (prejudicada pela pandemia a partir de 2020), e queda dos trabalhadores por conta própria, que vinham puxando a criação de postos de trabalho.
Esse movimento, segundo o IBGE e especialistas ouvidos pelo Valor, acabou conduzindo a renda média real habitual dos trabalhadores até fevereiro (que considera soma de todos os trabalhos), à primeira variação positiva ante o trimestre anterior desde setembro de 2020, embora ainda dentro da estabilidade, devido ao intervalo estatístico da pesquisa.Na comparação anual, no entanto, o cenário ainda de perda forte do poder de compra: a queda da renda média foi de 8,8%, para R$ 2.511. No entanto, não há como saber se haverá continuidade de reação de vagas formais ao longo de 2022, apontam economistas.
Ao mesmo tempo, embora tenham classificado como positivo desemprego menor no começo do ano, analistas duvidam de recuo contínuo na taxa até fim do ano, e ainda apostam em resultado de no mínimo dois dígitos ao término de 2022 – e sem reação expressiva da renda. Isso porque, mesmo com provável menor impacto negativo da pandemia, agora o mercado de trabalho terá que lidar com outra influência preponderante em 2022: a conjuntura macroeconômica desfavorável.
No caso da renda, uma combinação da queda do trabalho por conta própria e o aumento daquele com carteira assinada ajuda a explicar interrupção da retração do rendimento, segundo a coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy. “Não fosse o efeito da inflação, talvez o rendimento tivesse até crescido”, completou ela.
Apesar da reação das vagas com carteira assinada, Adriana é cautelosa para avaliar se esta expansão será sustentável. Ela lembra que o país vem de conjuntura econômica marcada por dois anos de pandemia e de crise.
Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, também citou a economia com um dos fatores-chave para nortear o emprego no país. “O mercado de trabalho vai reagir ao cenário econômico e o cenário neste ano é mais complicado”, frisou, citando projeções de juros e inflação em alta, e estimando taxa de desemprego em torno de 11% ao fim de 2022.
Para Gabriel Couto, economista do Santander, ocorrerá menor ímpeto do mercado de trabalho no segundo semestre. Isso porque já terá se dissipado efeito benéfico da retomada de segmentos na economia, principalmente de serviços, e de ritmo maior de abertura de vagas que ocorre no momento – ante período mais agudo da crise na economia causada pela pandemia. Esse aspecto, somado à estimativa de conjuntura macroeconômica mais frágil, deve levar a taxa de desemprego a 13% ao término de 2022, segundo ele.
Já a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, projeta taxa menor, de 11%, mas “ainda elevada” nas palavras da especialista, ao término do ano. Embora tenha classificado como positiva a taxa menor anunciada pelo IBGE, ela ponderou que, o que ocorre no momento é “recuperação tardia” no mercado de trabalho, que sofreu com cortes contínuos de vagas em dois anos de pandemia. Ou seja: movimento que não deve se repetir na mesma magnitude nos próximos meses.
O ritmo de economia ainda fraco vai inibir ritmo mais ágil de abertura de vagas, segundo o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, que aposta em taxa de desemprego em 12,2% ao término de 2022. Sanchez comenta ainda que, há “precarização” na mão de obra, sem “renovação salarial”. Rodolfo Margato, economista da XP, também pontuou que, em seu entendimento, a queda no rendimento real médio do trabalhador não deve ser revertido no curto prazo.
Lucas Assis, economista da consultoria Tendências, concorda. “Neste ano a renda média deve seguir pressionada, com continuidade de abertura de vagas de menor qualidade [que pagam menos] e manutenção de inflação em patamar elevado”, disse.
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